A ética filantrópica ilusória do otimismo pós-pandemia

Engana-se quem acredita que seremos pessoas melhores no futuro por estarmos vivendo problemas tão graves neste momento. Não sei de onde se tira otimismo para não achar que a sociedade vai ficar muito pior depois da pandemia – que vai passar sabe-se lá quando. E as tecnologias ainda reforçam a ilusão de que, na falta do real, presencial, o virtual dará conta não só dos problemas econômicos como dos nossos afetos.

A ética do egoísmo-meritocrático-liberal-fetichista será intensificada. Se eu, assalariado, posso continuar pagando, mensalmente, à minha faxineira para ela ficar em casa, como muitos estão fazendo (mas outros não), por que grandes empresas, bancos e instituições financeiras, sob articulação do governo, não podem ajudar empresas menores para que estas sobrevivam?

Pode ser que algumas empresas já estejam fazendo isso, aqui e ali, salvando algumas pequenas. Se já fizeram, não deveria ser assim, de forma isolada, como filantropia. Mas sim através de um amplo programa nacional coordenado como política pública pelo governo. As pessoas são o país! Amor pelo país é amor pelas pessoas e pelo ambiente em que vivem, não por coisas materiais ou abstratas como empresas, lucro, concorrência, acumulação, aparato administrativo, bandeiras ou religiões.

Se a indagação acima é ingênua, então estamos precisando de mais ingenuidade e menos tecnicidade de experts. Não sou economista e, apesar de jornalista com duas especializações lato senso, além de mestre e doutor em políticas públicas, não acredito que esse tema seja atributo de especialistas, assim como a própria democracia. Sei que muitos “especialistas” discordam de mim, pois precisam ser reconhecidos como autoridades em alguma coisa. Porém, precisamos mais fazer do que ser. E só podemos fazer de forma coletiva.

Ilusão acreditar que as pessoas sairão melhores da tragédia pelo reforço, em suas almas, do espírito de colaboração e solidariedade. A ética dos indivíduos é algo interpenetrado na relação com os outros – e só acontece na experiência. Não surge das leis escritas, nem das tecnologias, muito menos de algo abstrato – seja das estrelas ou de preleções de donos de igrejas cheias de amavios.

Os indivíduos só melhoram ou pioram no chão concreto da realidade, não a partir de um sonho a se realizar. Não a partir de uma disposição escolhida de repente, na frente do espelho, como quem assume: a partir de agora serei mais solidário, menos egoísta e mais generoso. Os indivíduos só melhoram, historicamente, na interação conflituosa com os outros. Sim, nosso problema não é a corrupção de pessoas más que têm quer caçadas e punidas por pessoas boas – mas sim continua sendo a luta de classes – isso não é uma teoria ou abstração, mas fenômeno concreto de políticas públicas e privadas.

Nossa sociedade nunca vai melhorar por benemerência ou filantropia de indivíduos ungidos pelo suposto bem abstrato ou por uma beatitude quimérica atribuída pelo destino. Também à distância, se assim se conformarem as novas relações do futuro, via telas de computador ou telefones celulares, ficaremos piores e não melhores no relacionamento profissional e afetivo.

Quem sabe possamos ter mais individualismo do que coletivismo. Se as tecnologias propiciam mais ação coletiva, talvez isso seja algo para futuro ainda distante. Da forma como existem e operam hoje, se propiciassem, não teríamos o disparate que foi a farsa que legitimou as eleições de 2018.

As coisas não vão melhorar por causa de um dos elementos do próprio caráter da ética da sociedade capitalista – qual seja, a do eu sou capaz, eu me preparei para ser melhor que os outros, eu conquistei minha vida, e ainda por cima tenho tecnologias diversas à minha disposição – eu, enfim, consegui, por que os outros não seguem o mesmo caminho? E o que eu acumulei é meu, só meu, mesmo que tenha sido às custas do empobrecimento, da doença e da morte de outras pessoas.

Entretanto, empreendedorismo individualista e heroico não melhora nem transforma a sociedade. Mundo contraditório esse em que as tecnologias não resolveram problemas que estão pendentes desde o século XIX e outros novos criados ao longo do tempo pelo próprio capitalismo. O que chamam “processo civilizatório”, para o bem ou para o mal, mas com sinônimo de desenvolvimento, só é possível através de ação coletiva – nunca de forma individual, muito menos robotizada.

Se classificarem minhas teses como sendo de comunista, me sentirei honrado. Só podemos melhorar se tivermos consciência de classe, e não consciência de Deus, mesmo respeitando – e aqui aproveitando para reiterar que devemos, sem dúvida alguma, respeitar as diversas religiões.

Aliás, só somos indivíduos na condição de classe social, sujeitos “assujeitados” – e não por um movimento isolado nosso, volitivo e individualista. Ou alguém acredita ainda em livre arbítrio? Pode-se até interpretar isso tudo na linha também de uma disposição ecumênica, sim, mas, sobretudo, não esquecendo o caráter político – disposição que deve começar no âmbito da família incentivando o espírito público nas crianças, e não a sua imbecilização ou robotização.

Isso significa pensar em políticas públicas. A ética do indivíduo não pertence e não foi criada por ele, mas sim resulta de uma trama social. Políticas Públicas não são especialidade de economistas ou de quem quer que seja. São de todos nós. Bons costumes e “boa moral”, assim como também aquilo que se entende por ética, só podem vir de boas políticas públicas. A criança, quando vai para a escola, torna-se indivíduo no espaço público, e a privacidade de sua família é algo que só pode ser pensado na interação com essa esfera que se chama pública.

De nada adianta falar em ética de forma abstrata, pensando somente em Deus, sem falar de uma ética política, vale dizer, a ética da sociedade. Jesus Cristo pode resolver questões internas dos indivíduos, mas nunca problemas de políticas públicas.

Somos sujeitos políticos não só formalmente, na hora de votar, mas também como consumidores em contato com os demais indivíduos nas ruas, nas lojas, nos restaurantes, nas farmácias, nos cinemas – também na relações amorosas e nas de amizade ou na vizinhança do bairro. Vivemos nossa vida privada em família, no acolhimento dos nossos lares, porém, mesmo essa privacidade tem um caráter político.

Pelo andar da carruagem do Brasil, com suas rodas quadradas do obscurantismo, diligência caindo aos pedaços, tropeçando em pedregulhos, o caminho ladeira abaixo tem sido o do salve-se quem puder no plano macro e no cotidiano de milhares de pessoas nas ruas, maltrapilhos sem teto, pedindo para comer ou para comprar remédios.

O desgoverno de Jair Bolsonaro segue desmontando o estado nacional, em meio a uma nuvem tenebrosa que semeia a ética obscura do reforço da meritocracia protegida – e o resto, dane-se. Sim, ajudam, mas alguém acredita que 600 reais possam resolver a vida das pessoas mais pobres? A coisa é tão grave que o presidente do Banco Central andou alertando para pressões inflacionárias. Ora, inflação sem atividade econômica? Então de onde vem essa inflação?

A resposta à indagação expressa no início deste texto é muito óbvia fazendo parecer que o país vive um pesadelo. Na verdade, muito pior que um pesadelo pelo próprio chão se abrindo. Simplesmente, as coisas não vão melhorar como resultado da falta de liderança e coordenação do governo. A hipocrisia de que as coisas se resolvem pelo mercado também desmorona a cada dia.

As pessoas não vão melhorar por unção de espírito. Ilusão também acreditar que estamos vivendo uma “crise” passageira. Mais grave do que isso: vivemos o recrudescimento estrutural da luta de classes, ainda que, por enquanto, não tenha se manifestado em revoltas e convulsões sociais nas ruas.

Contraditoriamente, era a oportunidade de o governo, agora, se fosse legítimo e amplamente representativo da sociedade, liderar uma gigantesca concertação nacional, estabelecendo pactos com diferentes setores sociais e, obviamente, com grandes forças capitalistas e sindicatos de trabalhadores para um projeto de desenvolvimento.

Se fosse um governo verdadeiramente legítimo, e não um desgoverno, estaria agindo para empreender políticas públicas de reconstrução nacional, usando a própria crise sanitária para criar condições a fim de começar a reverter a crise econômica. Por exemplo, dentre diversas ações relacionadas à emissão de moeda, câmbio e outras, também com compras pelo governo, produção pelo próprio estado, fomento da concorrência com a inciativa privada, mas também, inclusive, com incentivos a esse setor, em diferentes áreas de políticas públicas – enfim, exercendo o papel de coordenador da atividade econômica com invenção e criatividade.

Entretanto, seu compromisso é com o desmonte do estado e com o obscurantismo geral. Além de facilitar o contexto de rapina e saque por grandes forças capitalistas rentistas, nacionais e estrangeiras, o governo nada entende de liderança, concertação e do processo de políticas públicas. Nada entende de projeto nacional porque seu objetivo é a destruição. Apenas fica mostrando o traseiro para os Estados Unidos, país que, há três décadas, vem gastando trilhões de dólares em guerras e golpes de estado mundo afora, enquanto a China inventa novas formas capitalistas sem invadir ou ameaçar qualquer nação.

Como esperar que as pessoas possam melhorar? Sozinhas, rezando? Amar, só como verbo intransitivo, sem utilitarismos ou condicionalidades. Só o amor espontâneo é capaz de transitividade verdadeira. Mas, para os que não têm poder nem recursos, como saber o que é amor na dor das provações? Repito: amar o Brasil é amar as pessoas. Aproveitando a fase atual do capitalismo, em sua forma ultraliberal monstruosa de egoísmo, esses caras que tomaram de assalto o Brasil são a quintessência do pior que pode existir em seres humanos. Mesquinharia e sordidez são pouca coisa para qualificá-los. Quem sabe em 2022 possamos começar a recompor o país.

Deixe uma resposta