Festa do Rosário dos Homens Pretos do Serro: uma tradição de 292 anos cancelada pela escalada da pandemia em Minas Gerais

A Festa do Rosário dos Homens Pretos do Serro é um desses incríveis fragmentos da alma nacional que resistem aos séculos, guardando a força do sincretismo formador do Brasil. A festa é uma representação de uma aparição milagrosa de Nossa Senhora do Rosário, avistada no mar.

Na festividade, três grupos com fantasias, danças e cantos distintos reproduzem a lenda em torno do evento, onde disputam a estima da Virgem Maria, chamando-a para terra firme. Os portugueses, representados pelos marujos, tentam, mas são atendidos. Em seguida, os índios, que são os caboclos na festa, fazem o mesmo pedido e também não têm sucesso. Somente quando os catopês, que representam os negros trazidos da África, tocam seus instrumentos, dançam e rezam com devoção, a Senhora dos Mares vem para a terra, passando a ser chamada de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, protetora dos negros e afirmação da cultura banto em terras brasileiras.

A festa é uma tradição do Congado mineiro na cidade de Serro, que teve sua primeira edição em 1728. Nesses quase três séculos, os festejos só não aconteceram em duas ocasiões: em 1758 e em 2020.

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Na primeira vez, foi o ano em que a Irmandade do Rosário – confraria de culto católico, presente no Brasil desde o século XVII, que serviu para abrigar a religiosidade dos negros na Colônia – inaugurou sua própria igreja e decidiu realizar apenas uma última missa na igreja Matriz, onde eram obrigados a usar um altar lateral para as celebrações:
“Aos seis dias do mês de maio de mil setesentos e sincoenta e oito annos. Nessa Matriz de nossa Snra da Conseisão da Vila do príncipe em meza de nossa Senhora do Rozario e estando prezente Rey e joizes mas irmão de meza de nossa Snra do Rozario foi justo todos os irmãos a não ouvesse festa somente huã missa rezada da dita irmandade asestirem todos os juízes Rei Rainha e mais irmão com suas ohopas” (Livro de Concordatas, 1752-1800).

Na segunda vez que a festa não ocorreu, sabemos bem o motivo: a pandemia de coronavírus. Não é simples interromper uma tradição de 292 anos, em torno da qual se organiza a religiosidade de uma região e que compõem, junto ao tradicional queijo que leva o nome da cidade, os dois elementos mais representativos da identidade cultural da população local.

Cancelada a festa, o embate ocorreu em torno da procissão que leva a imagem de Nossa Senhora do Rosário pelas ruas da cidade, evento esperado durante todo o ano, especialmente neste de isolamento social, crise econômica e sanitária. Ao fim, definiu-se que a imagem seguiria de carro, escoltada pela polícia, o que gerou cenas comoventes de pessoas celebrando com sinalizadores na porta de casa, soltando fogos e se colocando de joelhos na calçada diante da passagem da pequena carreata com a imagem protegida pelo Reinado.[1]

Essa é uma situação que tem se repetido por todo o Brasil. O cancelamento das Festas Juninas, de Santo Antônio, São João e Santo Pedro, deixou um triste rastro de prejuízos financeiros, afetivos e culturais. E numa conjuntura tão funesta, a necessidade do bloqueio à manifestação da fé popular ganha contornos de martírio – sentimento que vem sendo manipulado pelo presidente da República ao criticar o fechamento de templos no meio da pandemia e ao excluir a obrigatoriedade do uso de máscaras em igrejas.

Aparentemente, em um primeiro momento, Minas Gerais não havia se saído tão mal na contenção da pandemia. Porém, passados alguns meses, descobriu-se o segredo do sucesso.

Minas Gerais possui pouco menos de 3 mil leitos de UTI, com quase um terço desse total em Belo Horizonte, que atende a diversas cidades do interior. Como o prefeito da capital, Alexandre Kalil, tomou medidas rigorosas logo no começo da pandemia, o ritmo de crescimento do contágio foi minorado na maior cidade do estado, fazendo com que a rede de saúde conseguisse atender os casos de contaminação de forma mais espaçada.

O outro segredo, esse um avesso de estratégia por obra do governador do estado, Romeu Zema, foi a subnotificação de casos que maquiou os números de mortes e contaminação, o que foi admitido pela própria Secretaria de Estado de Saúde (SES) no fim de maio.[2] Outro feito da gestão de Romeu Zema foi o alinhamento ao presidente Bolsonaro na relativização dos efeitos da pandemia e na necessidade do isolamento social, inclusive entrando em conflito direto com Kalil, dizendo, no começo da quarentena, que prefeitos estão seguindo “caminhos extremos para chamar a atenção”.[3]

A postura do governador, somada à do presidente (fora as trocas de ministros da saúde no meio da pandemia, a incompetência do governo central em distribuir os auxílios emergenciais e viabilizar o financiamento de empresas e prefeituras), minou o respaldo oficial de prefeitos do interior que acabaram cedendo à pressão de comerciantes pelo fim do isolamento. Um exemplo do efeito desse conflito gerado nos municípios ocorreu em Varginha, na região sul do estado, onde o prefeito autorizou a reabetura do comércio e, diante do protesto de autoridades locais e de parte da população, ao invés de revogar o decreto, renunciou ao cargo.[4]

Com o afrouxamento prematuro do isolamento, o resultado foi previsível: os casos explodiram, as UTIs do estado estão caminhando para os 90% ocupação e o governador Zema, em entrevista à TV Globo no fim de junho, admitiu estar avaliando decretar o lockdown no estado.[5]

Por causa da má gestão da crise, o isolamento tende a se estender por muito mais tempo. Para o futuro, a população precisa guardar bem na memória os responsáveis pelo agravamento da situação. Por agora, além do esforço de manter o isolamento, resta repetir os pedidos que foram transmitidos no alto-falante da carreata no Serro nesse domingo, que tocava as músicas tradicionais dos caboclos, marujos e catopês, sempre interrompidas pela prece: “Nossa Senhora do Rosário, rogai por nós.”

Festa do Rosário dos Homens Pretos do Serro uma tradição de 292 anos cancelada pela escalada da pandemia em Minas Gerais 1

[1] A respeito do ‘Reinado’, ver: MELLO e SOUZA, Marina de. Reis negros no Brasil escravista: história da festa de coroação de rei congo. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2002.

[2] https://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2020/05/26/interna_gerais,1150777/governo-admite-subnotificacao-de-1-para-cada-10-casos-de-coronavirus.shtml

[3] https://www.em.com.br/app/noticia/politica/2020/05/21/interna_politica,1149428/zema-kalil-e-fora-da-curva-e-prefeitos-tomam-caminhos-extremos-par.shtml

[4] https://valor.globo.com/politica/noticia/2020/04/06/prefeito-de-varginha-mg-renuncia-apos-vaivem-sobre-reabertura-do-comercio.ghtml

[5] https://g1.globo.com/mg/minas-gerais/noticia/2020/06/24/pm-vai-abordar-pessoas-que-estiverem-sem-mascara-em-mg-a-partir-desta-quinta-diz-zema.ghtml

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