O fetiche da arte como supérfluo na banalização neoliberal – 12

Se avaliação de políticas públicas não é atributo de especialistas, por outro lado, a vida coletiva seria inimaginável sem os especialistas, como imanência própria e contraditória, para o bem e o para o mal, da sociedade capitalista. Em recente artigo abordei o tema, elencando médicos, advogados, químicos, engenheiros e tantos outros especialistas, mas não mencionei os artistas, conforme bem lembrou minha amiga atriz e professora Maria Assunção, que me foi apresenta pela também amiga e jornalista Glória Santos.

Sua lembrança me fez pensar que, de todos os “especialistas”, os mais indispensáveis talvez sejam os artistas numa sociedade em que a vida vai ficando cada vez mais banalizada pelo neoliberalismo. Dizer isso não é nem uma questão de regozijo pela necessidade de mais estética, escapista ou apaziguadora do espírito, num cotidiano instrumental e esvaziado pela valorização do valor e pela transformação dos seres humanos em meios utilitários.

É uma questão mesmo política, de necessidade política. Maria me enviou por email o clássico “Teatro do Oprimido e Outras Poéticas Políticas” (Civilização Brasileira, 1974). Augusto Boal inicia a obra com a seguinte explicação: “(…) todo teatro é necessariamente político, porque políticas são todas as atividades do homem, e o teatro é uma delas. Os que pretendem separar o teatro da política pretendem nos conduzir ao erro – e esta é uma atitude política. Neste livro pretendo igualmente oferecer algumas provas de que o teatro é uma arma. Uma arma muito eficiente. Por isso é necessário lutar por ele.”

Não à toa, todos sabemos, os motivos e as origens das tentativas grotescas de depreciar Fernanda Montenegro e Chico Buarque, dois ícones da cultura e arte brasileiras. O obscurantismo é tanto que pessoas, do nada, que chegaram agora no pedaço – e que acham que a história começou na década de 1990 – falam as boçalidades mais ignominiosas sem o mínimo pudor de sua própria ignorância.

Cheguei a ouvir de um sujeito a indagação, não dirigida a mim, ainda bem, sobre qual contribuição Chico Buarque havia dado ao país. Uma amiga contou ter ouvido de pessoas no trem que desistiram de ver o programa humorístico de sábado à noite na TV Globo porque não era mais o Zorra Total de antigamente. É de se imaginar os motivos de o novo Zorra perder telespectadores e ganhar outros num ambiente em que exigir sensibilidade, espírito crítico e mais inteligência das pessoas virou sinônimo de comunismo.

Se a pergunta sobre Chico fosse dirigida a mim, o cara iria ouvir alguns impropérios, pois, aos 62 anos, sei o quanto Chico fez parte do meu imaginário (e de milhões de pessoas) artístico, musical e cultural desde a infância, quando ouvi pela primeira vez aquele disco de vinil com a capa trazendo os dois rostos do cantor e compositor ainda jovem.

Sobre Fernanda Montenegro, ocioso fazer comentários. Basta dizer que minha primeira reação estético-política às ofensas que lhe foram dirigidas foi comprar o livro sobre as memórias da grande atriz baseadas em entrevistas feitas por Marta Góes entre julho de 2016 e novembro de 2017.

Maria Assunção observou pelo whatsApp que o livro de Boal é complexo e o tem utilizado em suas aulas para os alunos da graduação. Minha amiga completou: “chocada com a repetição da história do teatro… história do Brasil… do Mundo…”.

Na apresentação do livro, Boal lembra que, por ser uma arma muito eficiente, “as classes dominantes tentam permanentemente apropriar-se do teatro e utilizá-lo como instrumento de dominação. Ao fazê-lo, modificam o próprio conceito do que seja ‘teatro’. Mas o teatro pode igualmente ser uma arma de liberação. Para isso, é necessário criar as formas teatrais correspondentes. É necessário transformar.”

A mensagem serve para as artes em geral e por que elas são necessárias quando se pensa não só na existência humana de forma abstrata, mas também no processo de políticas públicas. O neoliberalismo não é só uma forma econômica de pragmatismo privatista e individualista. É uma ideologia que procura ocupar todos os quadrantes da vida das pessoas em formas camufladas não econômicas.

A partir da leitura do livro “O neoliberalismo dominante na virada século”, de José Comblin (Vozes, 1999), pode se depreender toda a ironia da falácia neoliberal que combate as ideologias em geral. Na década de 1960, Daniel Bell tinha proclamado “o fim das ideologias”.

Diz Comblin: “Ora, quase 40 anos depois desta profecia, triunfa a ideologia neoliberal, ideologia mais ideológica do que as anteriores, já que ela se mantém apesar dos mais flagrantes desmentidos da história empírica. Mesmo com os desastres que provoca o neoliberalismo, afirma-se com fé total. Pois o neoliberalismo é objeto de fé, de uma fé contra a evidência. Realiza o modelo de fé desse publicita inglês católico que, depois do Vaticano I, proclamava: ‘Credo quia absurdum’ (creio porque é absurdo).” (p. 9).

Assim como artesãos protestavam contra a utilização das máquinas nos primórdios do capitalismo, só a arte hoje tem condições, hoje em dia, de denunciar e combater a burocratização das relações sociais e a transformação dos seres humanos em meios instrumentais para fins estabelecidos por outros.

Mesmo as disciplinas das chamadas humanidades, tais como sociologia, psicologia, filosofia e outras foram postas a serviço dessa burocratização, algo tido como inevitável e natural da culminância do desenvolvimento humano. A vida ficou muito mais feia com o capitalismo tanto em termos estéticos como funcionais na suposta teleologia para a felicidade das pessoas.

Ernst Bloch, em seu livro “O princípio esperança” (volume 2, Contraponto, EdUerj, 2006), observa: “O mundo do lucro deixa muito a desejar, não apenas em termos morais, mas também estéticos, e era isso que causava raiva contra o capital.” Contra a mecanização da existência, Block cita o arquiteto Van der Velde em seu ensaio sobre Ruskin: “No ocaso do século passado (fim do século XIX) a situação era tal que sufocávamos sob o peso da feiura das coisas. Jamais em nenhum instante da história mundial a decadência do bom gosto, a tibiez de ideias e a indiferença diante do trabalho e do material atingiram um nível tão baixo.

Não preciso dizer que a arte, enfim, serve, dentre outras coisas, para reagir aos tempos sombrios. Serve para nos fazer compreender a sobreposição dos tempos, como agora mesmo, diante dessa nuvem obscurantista que o Brasil vive, onde muitos se iludem com seus celulares de última geração do século XXI, ignorando, porém, como estamos enganchados ainda no século XIX. Resta indagar ainda se, ao se apropriarem do teatro e da música, além de outras manifestações estéticas, as classes dominantes vão conseguir fazer mesmo arte verdadeira.

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