Fresta: a possibilidade poética contra os muros do obscurantismo

Quando penso como se deve ler um poema me vem à cabeça imagem exposta, certa vez, pela poeta Suzana Vargas numa oficina literária. Se pode ser chamado de método, seria descrito da seguinte maneira: verticalizar os objetos, ampliando seus sentidos e alargando a vida. Tirá-los da sua horizontalidade prosaica cotidiana e dar-lhes novos rumos e possibilidades.

Assim, uma pedra ou um pedaço de plástico é alçado do chão, ganhando novos significados e realidades inéditas e imprevisíveis a partir do que se costuma chamar imagem poética. Imprevisíveis tanto na intenção do poeta como na de seu leitor, este que nem imagina se transformar em poeta durante a leitura. Leitor que acaba proporcionando novos sentidos ao poema não pactuados com o autor.

Não tendo estudado literatura como acadêmico, fico ensaiando riscos e rabiscos de teoria, socorrido por Lautréamont, para quem a poesia deve ser feita por todos, não por um. Conjecturas frutos do prazer e fruição da literatura em geral, mas também pelo poder da poesia em alargar nossos horizontes, é o que me suscita a “fresta”, assim mesmo, em caixa baixa, belíssimo livro das poetas Daisy Justus, Gilda Lima, Márcia Clayton e Margarida Corção, lançado recentemente pela 7Letras, no Rio de Janeiro, com apresentação de Carlito Azevedo.

Para não ser influenciado na leitura deixei a apresentação por último. Dito e feito, pois impossível não ser impactado pelas palavras deste que é um dos poetas brasileiros mais importantes da atualidade. Se tivesse degustado antes sua apresentação, certamente teria sido influenciado positivamente sem me deixar levar pelos riscos do trapézio. Pelos perigos da queda na minha própria leitura errante, lacunar. Pelo voo no vazio perante o novo, pelo imponderável de cada intenção do poema. Afinal, como disse e acredito, ler poesia é também ser poeta no momento da leitura.

O comentário que ouvi quando o livro estava para ser lançado era que se tratava de um conjunto de poemas sobre muro. Uma diversidade, imaginei, num ícone: obstáculo, separação, demarcação, delimitação, limite, divergência, muro entre Estados Unidos e México, Muro de Berlim, queda, xenofobia, racismo, muro da infância. Quem nunca pulou um muro? Ou quem nunca namorou encostado num muro? Quem nunca viu alguém mandar subir mais o muro por questões de briga com o vizinho ou segurança? E quem já derrubou um muro ou testemunhou sua queda repentina na calçada por onde ninguém passava no momento?

E quem, finalmente, nunca olhou pela fresta de tijolos gastos de um muro? Esta talvez seja uma das potências da poesia: surpreender o leitor ao dizer com o não dito explícito. Falar de outra forma, transfigurar problemas e situações com um jeito novo, inédito, ou uma velha maneira, porém, desarrumada parecendo a última forma criada pelo ser humano.

Tratar dos temas prosaicos da vida não de forma direta, escancarada, mas com a sutileza sibilina da imagem de um vitral. Ou da chama de uma vela dançando ao vento imperceptível da noite. É pegar o desvio por veredas novas fazendo o leitor verticalizar o previsível e chegar a lugares que não esperava. Quem nunca olhou a vida pela fresta do silêncio? Do seu recolhimento, como quem afasta discreta e ligeiramente a cortina da janela para olhar o que acontece lá fora. Ou pela fresta de uma multidão que grita unanimidades?

Pois a outra potência da palavra poética talvez seja o mistério de fazer o trivial cotidiano descortinar a condição de uma vida. Falar de amor, vaso triste, desilusão, expectativa. Da roupa no varal, de um lenço caído, falar daquilo que se tem vergonha em público na horizontalidade do previsível. Arriscar-se a grão invisível, como se fôssemos para além de humanos, pela própria e contraditória condição demasiadamente humana – única. Até o solipsismo encanta quando vem com uma forma surpreendente num mundo tão exigente de posições políticas e ideológicas bem demarcadas.

Eis uma terceira potência da poesia: livrar-nos das clausuras da unanimidade e, simultaneamente, do nosso próprio fascismo interior, diria Foucault. Livrar-nos dos quadrados dentro dos quadrados maiores quando podemos ver e criar círculos, mesmo que não possamos sair temporariamente de certos limites. Criar linhas de fuga e encontros, pontos imprevisíveis. Alargar a vida, enfim, para além da materialidade da acumulação sem sentido.

Derrubar muros, pois não se trata de simples devaneio como fuga para suportar o horror – pelo contrário. Trata-se, isto sim, de arrostar os muros que podem impedir nossa imaginação e nos transformar em mortos-vivos – ou nos sonâmbulos do Hermann Broch. É nesse sentido que a poesia, sem falar diretamente de política, cumpre sua função política.

E derruba muros de cárceres da vida real e da metáfora. Paul Frölich diz que se tivessem barrado o caminho da política para Rosa Luxemburgo, ela, certamente, teria sido poeta. O biógrafo da grande revolucionária do início do século XX conta que depois de Rosa escrever seu primeiro artigo conclamando para o 1º de maio, companheiros tiveram que contê-la porque o texto ganhara ritmos entoados. Esfomeada de vida, suas cartas da prisão eram marcadas por forte lirismo.

Independente dos motivos que levam quatro poetas a incluir no mesmo volume seus poemas não como antologia, mas como fazer específico de intenção definida, há que se reconhecer o desafio de um livro escrito a oito mãos. Sim, porque, apesar das autorias respectivas de cada poema serem reconhecidas apenas no índice, no fim do livro, isso é o de menos para a intenção (monotemática?). Sem falar na decisão sobre a ordem da sequência dos poemas. Como estruturar o imponderável da arte a partir de quatro vozes?

E longe da unicidade de tema, eis talvez uma quarta potência poética, qual seja, a partir de algo específico, chegar-se ao múltiplo e à diversidade. Quantas palavras têm sentido aparentemente único suscitando tantos sentidos! E quantos sentidos únicos reverberam possibilidades diversas! Quatro vozes que, apesar de diferentes, se mesclam, formando apenas uma.

Num mundo de algaravia tão obsessiva, talvez precisemos de um “muro-recato / esconderijo e dobra.” Pois “hoje vi uma boca de riso falando palavras / troquei o assunto, perdi o prumo.” (Gilda Lima, p. 20). Afinal, “se não fosse o medo, / teria pulado o muro e / fugido naquela mesma hora. (Margarida Corção, p. 40).

Num poema dedicado a Tim Lopes, jornalista assassinado por traficantes no Rio de Janeiro no traumático e comovente episódio, temos o tom de alerta de como esse mundo está precisando cada vez mais de poesia: “bala perdida perfura tijolo / gato pardacento salta lama. / em vertigem poema evapora / atrás de cada muro / respiração / relâmpago / forno (Daisy Justus, p. 82). Por isso “viva tudo que é possível / sem esperar nada de ninguém / como se tivesse uma casa / para pendurar quadros e pinçar azeitonas / (…) faz de conta / que ninguém te vê / ninguém está a cronometrar / sua presença / na praça (Márcia Clayton, p. 34).

Agora, sim, Carlito Azevedo na apresentação do livro: “O amor feito e desfeito, a vaca sem sino, a vida e o matador da vida, o homem pegando fogo, a moça pegando um sapato, a flor e a náusea, como já dizia Drummond. Os diferentes sotaques do desamparo. O latifúndio-vida e a linguagem com que grafá-lo. Cantam o mundo e os muros. Muros que são ora segregação, ora escora, esteio, guarida. Mas sempre mais valiosos quando fresta. Por isso talvez os poemas das quatro poetas não sejam, a princípio, separados pelo muro da autoria. Em vez do livro murado em quatro paredes, segregando, opta-se pelo enviesado do risco. Risco de ser tomada pela outra, ser, por um segundo, a outra, a possibilidade do ‘outramento’”.

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