Futebol brasileiro: entre desejos e a realidade

Há duas semanas começou o campeonato brasileiro e com ele sempre a reclamação na imprensa de que o futebol jogado por estas bandas precisa ser melhor organizado, cuidado e apresentar um jogo mais atrativo. Questiona-se ainda muitas vezes a média de público baixa e até mesmo o momento em que a liga se inicia, já que para muitos os campeonatos estaduais se alongam demasiadamente ou mesmo não deviam existir e tiram o impacto e a ansiedade daquele que na Europa é que é responsável por iniciar a temporada: o campeonato nacional. Alguns vão além e garantem que se o Brasileirão fosse melhor cuidado poderia se tornar produto de exportação.

Todas essas reclamações têm uma razão de ser e representam uma angústia que é absolutamente legítima, a de que o futebol no Brasil deveria ser melhor do que é. Isso é inquestionável. O País pentacampeão do mundo já teve em seu solo alguns dos melhores jogadores e times do mundo. O campeonato brasileiro até pelo menos a década de 90 não deixava a desejar em qualidade para nenhuma outra liga. É óbvio portanto que diante do que temos hoje, quando os times daqui estão tecnicamente empobrecidos, haja insatisfação. E que também quando se compare a questão da organização com as principais ligas do mundo note-se uma disparidade considerável que deveria ser corrigida.

No entanto para estas constatações é necessário compreender as razões, que tornam qualquer mudança muito mais difícil do que se pensa ou do que esses discursos muitas vezes fazem crer. No cenário pós Lei Bosman em que jogadores obtiveram liberdade para negociar seu passe com qualquer clube, no predomínio da lógica neoliberal no futebol, é simplesmente impossível que apenas uma boa administração e organização dos campeonatos jogados aqui consigam colocar os clubes brasileiros na mesma condição dos bilionários europeus e possam com eles disputar os principais jogadores. Vou além: até mesmo manter por mais tempo jogadores que aqui são revelados tem se tornado muito complicado.

As crianças que começam a jogar futebol nas categorias de base já sonham desde ali em um dia atuar em grandes times europeus, o famoso soft power no futebol, que atua criando uma identificação que no passado era transferida para os principais times daqui. Um menino do interior de São Paulo nos anos 70 queria se tornar jogador para atuar no time da região, que era forte e competitivo, e depois ir para uma equipe da capital, o São Paulo, o Corinthians, o Palmeiras ou o Santos, que não é da cidade de São Paulo, mas é uma das grandes forças do Estado e do país. Hoje não: os times do interior após a Lei Pelé, a nossa versão da Lei Bosman, se transformaram apenas em barriga de aluguel de empresários, já não são tão competitivos e o grande clube daqui se transformou em trampolim para a Europa. Nada além disso.

O futebol brasileiro, sulamericano e mundial, com exceção da Europa, claro, foi transformado em um grande exportador de pé-de-obra para o futebol do Velho Continente. E quanto a isso há muito pouco a se fazer no cenário atual com as leis atuais. Se é verdade que os clubes aqui ainda não são tão bem administrados e que os nossos campeonatos têm potencial subaproveitado, é também verdade que nunca se pensou tanto em gestão como agora e que os valores auferidos em negociações televisivas são os mais altos de sempre. Os times brasileiros recebem cotas extremamente mais altas do que as de seus vizinhos sulamericanos – que é o nosso real parâmetro e não a Europa, que aliás geralmente é idealizada como um todo, “o futebol europeu”, mas apresenta na sua própria engrenagem enormes disparidades.

A questão do jogo em si, sobre a qualidade dele, acredito ser indissociável da qualidade técnica que dispomos. Muito se fala sobre novidades táticas, a necessidade de se ter um modelo ou padrão, novamente tendo como modelo o que se tem em alguns dos super-times europeus, que não é realidade nem para esmagadora maioria dos times da Europa, que estão no centro do capitalismo futebolístico, quem dera pra nós da periferia. E se vende isso como uma possibilidade de melhorar o jogo jogado, torná-lo mais atraente e assim aumentar tanto o público que vai aos jogos quanto, quem sabe, até transformá-lo em algo apetecível para a audiência externa.

Em primeiro lugar que a qualidade do jogo está intimamente ligada à questão técnica. Não fosse assim clubes europeus não lançariam mão de quantias cada vez mais obscenas para ter em seu plantel os melhores e mais capazes atletas. É óbvio que um jogo bem jogado passa por ter atletas que consigam executar com qualidade aquilo que lhes é designado. E como fazê-lo em gramados tupiniquins se os melhores, e nem mesmo os não tão bons, logo vão embora? São poucos os times que conseguem manter o mesmo elenco sequer por seis meses. Quem dera por uma ou duas temporadas. E tendo jogadores de nível técnico apenas regular é muito pouco provável que vá gerar interesse extra tanto no torcedor não tão fanático, tendo a disposição cada vez mais opções de entretenimento, quanto em pessoas de outros países.

Por que um gringo qualquer ligaria a televisão para ver o Corinthians do Romero e do Rodriguinho e o Flamengo do Arão se tem a opção de ver o Barcelona do Messi, o Real Madrid do Cristiano Ronaldo e o Bayern do Robben e do Ribéry? Isso não vai acontecer. É preciso colocar os pés no chão e reconhecer que dentro desse contexto muito desfavorável o foco é o público interno, que ainda é muito maltratado com jogos em horários ruins e com preços de ingressos muito acima das suas possibilidades. Aliás, eis um problema no discurso da modernização: na defesa de um futebol melhor organizado muitas vezes consigo também vem a idéia de um futebol mais elitizado, com a suposta alegação de que mais dinheiro trará melhores jogadores – o que é uma falácia, no geral os times daqui acabam só pagando mais – e muito mais do que deviam – para os mesmos. Extorquir seu torcedor não devia ser uma opção.

Portanto o que resta dentro desse cenário inglório a que o futebol brasileiro foi transformado é manter-se competitivo dentro daquilo que é possível, dentro do nosso canto global da periferia da bola. E isso os clubes brasileiros têm sido. De 2000 para cá o Brasil foi o país com o maior número de conquistas na Libertadores, sete (junto com a Argentina), com seis clubes diferentes; foi aquele que mais vezes chegou à final, doze vezes em dezoito edições. São números muito bons que mostram que, se a organização não é das melhores e o calendário ainda não é o ideal, pelo menos o futebol jogado em campo é, dentro das limitações que temos, ainda muito competitivo. E é provável que continuará sendo.

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