Futebol para ricos

Para muitos, uma paixão. Para outros, um esporte banal com uma bola. Alguns alegam ser a melhor criação do homem, o jogo mais apaixonante uma vez criado. Já seus detratores alegam que aliena, serve para desviar o foco de questões prioritárias. Seja como for, algo é inquestionável: o futebol é o esporte mais popular do mundo e não há como ficar indiferente a ele. Mesmo que se queira. Mesmo que se tente. É praticamente impossível fazer uma breve caminhada até a padaria mais próxima, ao mercado, ao bar, à escola, o que se imagine, e não encontrar alguma referência ao esporte bretão. Seja em uma camisa que remete a um time, em meninos chutando algo esférico ou em uma conversa. O futebol está entre nós. Só para se ter uma ideia do tamanho monumental da coisa, a audiência da Copa do Mundo de 2014 foi estimada em 3 bilhões de pessoas. O planeta Terra, como se sabe, tem 7 bilhões de habitantes. Quase metade do mundo parou pra ver uma partida.

E a popularidade do futebol tem elementos extremamente intrigantes. Historicizá-lo é condição sine qua non para o compreendermos em sua dimensão e importância – que vai para bem além do campo de jogo. O futebol chegou no Brasil pela influência britânica – daí o termo “esporte bretão” usado acima, referente à Britânia, onde sua forma moderna se desenvolveu e suas lutas internas o transformaram de uma maneira sui-generis em algo absolutamente especial em relação a qualquer outra modalidade engendrada na contemporaneidade. Foi essa relação nova, imbrincada umbilicalmente com um ator social específico que surge nas sociedades capitalistas industriais, fruto de suas contradições, numa relação dialética, que permitiu ao futebol ser o que é. E é por ser a modalidade dos proletários, dos trabalhadores que o futebol se tornou no mais popular de todos os esportes. Foi por se desenvolver com e a partir deles que ele é tão fenomenal.

Para entender melhor esse processo é preciso voltarmos ao século XIX, mais propriamente aos anos 1830 e 1840, quando o cartismo, The Chart, Chartism, movimento operário que para alguns historiadores representa o primeiro partido político de origem proletária, pleiteava uma série de reivindicações populares, ganhou força e propiciou a conquista de garantias de direitos laborais, entre eles o de jornadas diárias de 10 horas com folga aos domingos. Foi a partir disso que os trabalhadores não apenas puderam auferir tempo para se organizar em sindicatos, outra conquista obtida, e atuar de forma mais contundente na política como também de se reunir em sua folga pra praticar um esporte – que seria na maioria das vezes o futebol. Daí para a criação de clubes, geralmente extensões das fábricas, foi um pulo – não é à toa que vários dos clubes mais populares da Inglaterra são das cidades mais industrializadas como Manchester, Londres, Liverpool, Newclastle etc. Foi portanto a partir da luta dos trabalhadores ingleses que o futebol se converteu em um esporte de massas. Já no de 1871 se realizou a primeira edição de um campeonato nacional, a Copa da Inglaterra, que perdura até hoje e é o torneio mais antigo de futebol do mundo.

Até ali, porém, o futebol ainda era um esporte basicamente britânico. Foi com a Grande Depressão, 1873-1896, crise capitalista marcada pela superprodução e a substituição de mão de obra em face à II revolução industrial, que o esporte se disseminou por todo o globo: a Inglaterra iniciou um processo de expansão de suas atividades econômico-comerciais e muitas das empresas britânicas que passaram a explorar outros mercados levaram consigo mão-de-obra inglesa. Foi por meio desses imigrantes britânicos, como o filho de um trabalhador escocês que veio ao Brasil trabalhar numa linha férrea e que foi um dos introdutores do futebol no país, Charles Miller, que o ludopédio se disseminou na América, na África, na Ásia etc.

De lá pra cá muita água passou por debaixo da ponte, mas um fator que relativamente se manteve constante em mais de cem anos foi a manutenção da relação indissociável entre trabalhadores e seu esporte mais querido, o futebol e em especial os seus clubes. No entanto, desde os anos 1980 com a hegemonia da concepção ideológica neoliberal e chegando por conseguinte também ao futebol, as coisas têm mudado paulatinamente. Da forma como o esporte é jogado, com super-times que distorcem a competição, até a maneira que ele é vivido e se apresenta nas relações sociais.

Também na Inglaterra, que é berço do neoliberalismo com o Thatcherismo, é recorrente a reclamação em relação aos valores dos ingressos, absurdamente proibitivos, e à elitização do jogo. Na Espanha e na Itália, para citar duas outras importantes ligas, a situação não chega ao nível inglês na questão das cifras das entradas, mas ambos passam pelo mesmo processo de elitização que se percebe não apenas pelo caráter sócio-econômico dos torcedores, ricos e de classe média alta, mas também pela forma que se comportam no estádio: de maneira asséptica, inodora, pasteurizada. Os dois clubes espanhóis mais populares, Barcelona e Real Madrid, são muitas vezes acusados de encherem o estádio mais com turistas, esse novo elemento do futebol-mercadoria para consumo, do que com o seu real torcedor. Na Alemanha, onde ainda se pratica valores de ingressos com preços acessíveis, o futebol só é transmitido em um pacote caro da Sky Sports, ficando a ZDF, a tv aberta, apenas com a partida de abertura e uma outra no retorno da pausa de inverno. No livro “À Sombra de Gigantes”, do Leandro Vignoli, há a ponderação do autor de que apesar dos estádios cheios há pouco de espontaneidade nos estádios alemães – outra consequência, acredito eu, de ambientes artificiais que são pensados mais para lustrar as imagens da televisão que enriquecer a experiência do torcedor.

E esse processo bastante nocivo, que é global, não nos é estranho. Pelo contrário: ele nos é cada vez mais familiar. E já está tão alicerçado na forma como se pensa o futebol aqui, na cabeça de dirigentes, marqueteiros e jornalistas, que sem muito pudor alguns chegam a asseverar sem temer qualquer consequência, como fez o atual prefeito de BH e ex-presidente do Atlético Mineiro, um dos mais importantes e populares clubes do País, que futebol não é mesmo coisa para pobre. Pelos preços que se praticam nos ingressos, nas camisas, na gentrificação nos estádios, nos pacotes caros de televisão etc. é fácil perceber que é essa a lógica que permeia a visão de quem controla o esporte hoje. Uma lógica da exclusão do seu principal e mais importante ator: o trabalhador, o peão, o grande amante e fiador do jogo, aquele que muitas vezes tem no seu time e no futebol o único momento de prazer na sua difícil e árdua vida nesse mundo extremamente desigual e injusto.

Pois a lógica desse mundo desigual trata de dia após dia separar o trabalhador da sua paixão, do seu jogo. Essa maldita lógica que reduz pessoas a números e cifras, que é contra a gênese e contra o espírito do futebol, que é inimiga mortal da igualdade e daqueles que lutam por ela, não deveria prosperar. Eu gostaria porém de poder proclamar os dizeres que se tornaram comuns na Guerra Civil Espanhola e dizer “No pasarán!” (não passarão), mas assim como os malditos fascistas de Franco eles já passaram. Agora, sabe-se lá como, resta reduzir os estragos.

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