Game of Thrones: o erro da série não foi Daenerys!

Não acho que o último episódio de Game of Thrones possa ser visto como um ataque moral à revolução de Daenerys. Seria, é certo, se encarasse o tema de forma indiscriminadamente maniqueísta. A trama do último episódio, na verdade, beira o moralismo, mas não se trata disso.

Essa perpecpção é contaminada pela (ou atribuída à) centralidade de Tyrion Lannister. O anão, feito prisioneiro por Daenerys, encarna, realmente, a oposição moral à Rainha Targaryen.

Desde o início do episódio fica claro, no entanto, que todo aquele papo furado sobre a loucura de Daenerys já havia ido por água abaixo. Em momento algum o telespectador observa uma mulher desequilibrada, instável, frágil.

Daenerys é a pura estética do poder, da fiel da balança, é a partir dela que se define o que é normal e o que não é. E ela inicia seu reinado com base na concretude do desequilíbrio de forças fundado a partir da sua conquista.

Durante 40 minutos, do início do episódio até a morte da rainha, o episódio é calcado em profundo realismo. Não há discordância entre o poder tangível de Daenerys, suas ambições ao longo de toda a série, e seu poder projetado. Seu plano para “quebrar a roda” continua em curso, e seu inimigo pronunciado é Winterfell. Fogo e Sangue desceriam sobre Sansa Stark, que ousou corroer sua autoridade.

O que torna o final da série um tanto mais delicado e difícil de interpretar é exatamente o que vem a seguir, a questão da sucessão do Trono de Ferro.

O Trono de Ferro

Daenerys trouxe para Westeros três armas de destruição em massa, das quais apenas uma durou até o último episódio: Drogon. No ato da conquista, ela dilacerou os Sete Reinos. O que antes era uma guerra civil entre diversos membros de uma sociedade em comum, após a destruição de King’s Landing transforma-se na dissolução da autoridade central. Ou quase.

Pelo menos enquanto ela estava viva e montada em seu dragão, na verdade, pode-se dizer que as forças centrípetas que uniam os reinos permaneciam latentes. Quando morre a rainha, o único que poderia reivindicar alguma espécie de autoridade unificadora (Jon Snow) se torna prisioneiro do exército dos Imaculados.

Nesse momento, e isso se pode deduzir da reunião do conselho de senhores de Westeros que ocorre em seguida, o problema se concretiza. Os Sete Reinos nunca foram a união de sete povos. Os povos continuaram, todo o tempo, sob a tutela de seus senhores. Com o desmembramento total daquela unidade política, Westeros imediatamente se revela uma sociedade internacional à beira da anarquia completa. O derretimento do Trono de Ferro simboliza exatamente isso.

É por isso que a oferta que Sor Davos faz ao Verme Cinzento é um dos fatos mais interessantes do processo de negociação em curso. Ele propõe terminar a guerra com a entrega de terras da Campina aos Imaculados, para que eles vivam em paz no continente como vassalos de Verme Cinzento. Não soa tão diferente, por exemplo, dos termos do Congresso de Viena de 1815, que selou os conflitos das guerras napoleônicas.

Naquela situação, as fronteiras da Europa foram redesenhadas, e os limites originais da França, que muito haviam expandido com as invasões de Napoleão, foram reestabelecidos ao invés de ocupados. Com isso, permitiu-se integrar a potência derrotada à nova ordem e dar início a um século de paz.

Exatamente o contrário ocorreu com os termos do Tratado de Versalhes após a 1ª Guerra Mundial, quando as potências decidiram excluir a Alemanha do concerto de forças europeias, submetendo o perdedor a um processo de humilhação que mais tarde resultaria em outra guerra devastadora motivada pelo ressurgimento da Alemanha como força contestadora.

Sor Davos participa daquele conselho como um verdadeiro arquiteto da paz. Sua oferta é recusada, porém, pelo próprio Verme Cinzento, que não deseja “pagamento”, apenas “justiça”. O líder dos Imaculados afirma que a cidade agora é deles, e que cabe a eles decidir o que fazer com o prisioneiro Jon Snow, concorrente legítimo ao Trono de Ferro.

Logo em seguida, num ato de coerência contestável, ele aceita que os senhores de Westeros, negociem um sucessor ao Trono dessa mesma cidade que ele domina! De fato, a cidade parece estar cercada por milhares de homens de Sansa Stark, o que pode assinalar que a capacidade de dissuasão foi deslocada.

Isso só foi possível graças à fuga do dragão. Nas relações internacionais, aquela forma de poder só se dissiparia como ocorre na série se houvesse uma ampla e generalizada desnuclearização. Ainda assim, os detalhes da balança de forças não ficam claros no episódio.

Sabemos que Yara Greyjoy e seus homens de ferro, por exemplo, se posicionam ao lado dos Imaculados. Nada indica que Samwell Tarly, Brienne de Tarth e Sor Davos detenham quaisquer forças capazes de desequilibrar o jogo. Quanto ao restante dos presentes, não se sabe nem a medida de suas forças nem de que lado estão.

O fato é que os Imaculados simplesmente optam por deixar Westeros, enquanto os senhores de Westeros decidem restaurar a ordem e dar um fim à anarquia.

Seria possível entender, como Hobbes, que a paz só se torna possível naquele contexto por conta da permanente ameaça de guerra. E ainda, que para que cada um deixe de agir com base na conservação da própria segurança e de reivindicar direitos sobre tudo – deixando de se armar incessantemente para a guerra – funda-se uma instância comum (um Estado).

Esse mesmo Estado, porém, deve reunir forças incontestáveis para garantir que ninguém, após o acordo de fundação, desrespeite o que foi convencionado. Como Sansa Stark decide se retirar para um Norte independente, presumivelmente com seus exércitos, sobre qual poder incontestável se sustentaria o reinado de Bran sobre os Seis Reinos restantes?

E mais, com os Imaculados fora de cena e um novo Estado unificado, por qual razão os Seis Reinos deveriam respeitar o acordo realizado com os Imaculados a respeito de Jon Snow? No fim das contas, o legítimo herdeiro do Trono de Ferro é enviado outra vez à Patrulha da Noite enquanto os súditos aceitam a coroa de Bran Stark?

Vejamos bem, Bran Stark é do Norte, que não faz parte dos Seis Reinos. No entanto, ele os governará e sua autoridade se ampara em nada mais que uma mera convenção racional. É como se, com a Espanha conquistada, Napoleão resolvesse partir com seus homens de volta para a França e mesmo assim a oligarquia espanhola do início do século XIX, integrante de um Império de 300 anos, elegesse o irmão do Imperador Francês como seu Rei e enviasse o herdeiro da Casa Bourbon para o exílio no inverno da Normandia.

A sucessão, portanto, ocorre de forma arbitrária e abstrata, com senhores de exércitos com interesses distintos renunciando ao poder que possuem em mãos. Mais realista seria se cada casa de Westeros seguisse como um reino separado dos demais, e aí sim estaríamos falando de uma saída historicamente factível.

O fim de Game of Thrones

Um ponto relevante para o desenredo, ao meu ver, é o diálogo final entre Tyrion e Jon, quando este é informado pelo anão, agora Mão do Rei Stark, que será enviado para a Muralha. Por um breve momento, o moralismo que acompanhou Tyrion ao longo do capítulo é deixado de lado.

Quando indagado por Jon se sua decisão de matar Daenerys foi correta, Tyrion responde que lhe pergunte novamente daqui a dez anos. Esse curto lapso de coerência (não com o episódio, mas com o personagem) resulta num desenlace inconclusivo a respeito de toda a trama, mas certamente não maniqueísta.

Assim, após flertar com uma boa dose de moralismo, Game of Thrones escapa do maniqueísmo para desembocar, infelizmente, num voluntarismo raso que não condiz em nada com as sete temporadas e cinco episódios inteiros que antecederam o desfecho.

4 Comentários

  • “Como Sansa Stark decide se retirar para um Norte independente, presumivelmente com seus exércitos, sobre qual poder incontestável se sustentaria o reinado de Bran sobre os Seis Reinos restantes?”

    Assim como algumas potências contemporâneas, Bran é detentor de um ativo muito importante: informações a seu alcance (em tese, sobre tudo e sobre todos).

    Além disso, por ser warg, ele também teria o poder de, senão pelas informações, por ” influência direta” (isto é, entrando na mente), manipular uma forte arma de guerra (um dragão, talvez?) a seu favor.

    Nesse sentido, acho que o fim da série permite uma análise ainda mais contemporânea do desfecho, pois há mecanismos de guerra atuais que não existiam nas guerras usadas pelo texto como exemplo.

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    • Quando o Conselho se reúne Bran pergunta sobre Dragon e o informam que foi visto ao leste. Ele ao se retirar da reunião fala que ele o achará.

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  • Apesar do fato d’eu ainda não entender o modo como você blinda a “chains braker”, gostei muito do seu texto (assim também como do anterior, do qual discordei).
    Exceção feita à legitimidade do Bran ao Trono e a – bem apontada por você – instabilidade que decorreria habitualmente pela saída do Norte do conjunto de reinos, achei o fim da série extremamente próximo de certo realismo cínico que sempre permeou as relações políticas “de fato”: aquela em que senhores se sentam para decidirem qual investimento deve ser prioridade, um puteiro ou saneamento básico.
    A roda JAMAIS se quebrará !

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