Guerrero na Copa: vitória da América Latina

A história recente da América Latina não consegue, nem deve, separar-se da história do futebol. Destinos nacionais se entrelaçam como as pernas de atacantes e zagueiros que disputam cada palmo dos campos verdes espalhados por esta pátria grande.

No dia 05 de outubro do ano passado, após jogo do Peru contra a Argentina pelas eliminatórias da Copa do Mundo, a substância benzoilecgonina, proibida pela lista da Agência Mundial Antidoping, foi encontrada no exame do atacante peruano Paolo Guerrero.

O atleta, inicialmente punido com uma suspensão de um ano, conseguiu reduzir a pena para seis meses através de um recurso junto à Comissão de Apelação da Fifa, garantindo sua ida à Copa do Mundo. Entretanto, a Agência Mundial Antidoping apelou para aumentar a punição para 14 meses e venceu, deixando o jogador fora da disputa.

A defesa assegurou que Guerrero ingeriu chá de coca por recomendação de uma nutricionista para tratar uma gripe e encaminhou o caso para a Justiça Comum da Suíça. A decisão sobre o pedido concedeu uma liminar que autorizou o jogador a disputar o Mundial da Rússia em 2018, suspendendo a execução da punição até o final da competição.

O cultivo e consumo da folha de coca é muito comum no Peru e em outros países da América do Sul. Embora seja matéria-prima para produção da cocaína ela é comercializada e consumida legalmente pelos povos andinos de diversas maneiras. O efeito do chá de coca é semelhante ao do café, sendo muito utilizado como estimulante, mas a bebida também é ingerida de maneira medicinal e em rituais religiosos.

Considerando-se, portanto, o caráter tradicional e popular de utilização da substância, a proibição e punição sobre seu uso no caso Guerrero gera muito incômodo e abre espaço para um debate urgente e imprescindível sobre a política de combate às drogas.

Depois de aproximadamente 50 anos do lançamento da campanha criada por Richard Nixon conhecida como “Declaração da Guerra às Drogas”, tal política ainda segue, em muitos países de nosso continente, princípios e diretrizes dos Estados Unidos da América. Esse modelo que tem como base o proibicionismo e o combate militarizado à produção e utilização de algumas drogas, tornou-se uma verdadeira guerra aos pobres e só serve como justificativa para tantas mortes e números assustadores de aprisionamento.

Nos últimos anos, todavia, alguns países latino-americanos embarcaram em um movimento de luta e resistência e passaram a rediscutir suas políticas de drogas. A Bolívia, por exemplo, conseguiu garantir em 2009 o reconhecimento do direito ao uso tradicional da coca, na contramão de uma convenção antidrogas das Nações Unidas e da opinião da Agência Mundial Antidoping.

Os poderes que trabalham pela criminalização da cultura e das tradições regionais são os mesmos que procuram restringir o futebol a um espectro meramente mercadológico, tentando esvaziá-lo dos inúmeros significados e possibilidades sociais que possui. É exatamente isso que a tentativa de deixar Guerrero fora da Copa nos permite concluir.

Para compreender por inteiro a dimensão desse debate é necessário, como já mencionamos, retomar o significado do futebol para os países latino-americanos, bem como compreender que a história de tais países esteve intimamente ligada à sua prática.

O futebol desembarcou no Brasil em 1894, mais ou menos na mesma época no resto do continente. O século XX, o primeiro com países sul-americanos independentes dos colonizadores, inicia com a popularização do futebol que vai sendo tomado pelos trabalhadores para si, rompendo com o caráter elitista inicial do esporte.

Desde o começo do século foi assim: as antigas metrópoles tiveram que assistir as antigas colônias, agora livres, enfrentando-as e, muitas vezes, subjugando-as com a bola no pé. O Uruguai conquistou as três primeiras competições mundiais de seleções de futebol (Jogos Olímpios de 1924, 1928 e a 1ª Copa do Mundo de 1930).

Os ninguéns, como Eduardo Galeano maravilhosamente nos chamou, fizeram-se ouvir, ver e respeitar com a bola nos pés. Na sequência o Brasil vence a Copa do Mundo em 1958, para enfileirar três títulos em quatro copas sob o comando do atleta do século XX, que foi capaz de parar duas guerras no continente africano para o ver jogar.

Ao mesmo tempo, os países latino-americanos dispostos a mostrar que fora do campo também era possível encarar os países do norte com olho no olho, procuravam mudar a sorte de suas nações situadas na periferia do capitalismo com projetos de desenvolvimento nacional nas décadas de 40, 50 e 60 do século passado.

Tal processo de mudanças foi abrupta e violentamente interrompido com a instauração de ditaduras civis-militares por todo o continente a partir do final da década de 50, e mais intensamente nas décadas de 1960 e 70. Os governos ditatoriais tentaram, em vão, mas com muita violência, sequestrar o futebol para seus interesses.

A resistência aos anos de chumbo também se fez nos campos de futebol e nas arquibancadas, mostrando que os destinos do Brasil, da América Latina, do povo latino-americano e do Futebol não poderiam se separar.

15.11.2017. A seleção de futebol do Peru se classificou para a Copa do Mundo de Futebol de 2018, após longos 34 anos sem participar do Mundial. A seleção que já foi treinada pela lenda do futebol brasileiro Didi, que teve craques da envergadura de Teófilo Cubillas, agora é comandada pelo grande Paolo Guerrero, que encarna a camisa de sua seleção como uma segunda pele, carregando os sonhos de uma nação em seus ombros e na ponta da chuteira que tantos gols faz por seu país.

Foi dentro desse panorama, da realização nacional do sonho de participar da Copa do Mundo após três décadas ausente, que o Tribunal Arbitral do Esporte (TAS), sediado em Lausanne, Suiça, decidiu que Guerreiro não poderia representar o país que depositava nele as esperanças de se fazer ver, ouvir e respeitar na Rússia em 2018.

Mais uma vez um Tribunal sediado no continente europeu tentou decidir os rumos de um país irmão de nossa Pátria Grande. Novamente as lutas e sonhos que brotam da terra do nosso continente venceram o poder do imperialismo.

A conquista do Peru é vitória de todo povo latino-americano e deve ser comemorada como tal. É a possibilidade de reafirmar que do nosso destino, do nosso povo, das nossas nações, cuidamos e decidimos nós, não homens vestidos de toga e sentados em confortáveis cadeiras na Suiça – ou em outro país.

Por uma nova política de drogas e por uma América Latina soberana: viva Guerrero!

Por: Beatriz Prates e Calebe Paranhos

 

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