GUSTAVO CASTAÑON: “Ei, moço, você é identitário”

Aos poucos o termo ‘identitarismo’ vai se carregando da mesma rejeição que um dia segregou o termo ‘pós modernismo’.

Por isso geralmente tanto seus praticantes tentam negar a inclusão na categoria e criticar os “excessos” desses movimentos, quanto os adversários da luta pela igualdade de direitos e condições materiais de gênero, cor, orientação e religião o usam para estigmatizar essas lutas.

Mas a identitária não é aquela que enfia crucifixo no ânus em evento católico público ou praticantes de “Golden shower” no meio da rua, isso é psicopatologia pura, não pode ser confundida com posição política.

Identitarismo é uma coisa muito mais prosaica.

Vamos comparar.

Na esquerda tradicional, que prega que essa luta deveria ser feita nos marcos do marxismo, geralmente acusa o identitarismo de ser uma abordagem “liberal” da luta das minorias.

Nada poderia ser mais falso.

O liberalismo político é universalista, e sua abordagem da luta feminina, “racial” ou sexual é por direitos iguais baseados numa essência humana comum que caracterizaria uma pessoa e seu direito inalienável à liberdade. Dessa forma, para o liberalismo, a garantia de igualdade de direitos liquidaria a questão.

Para a abordagem marxista, além da igualdade de direitos é necessário atingir a igualdade das condições concretas materiais dos diferentes grupos, portanto contempla uma certa dose de intervencionismo do Estado para atingir essa igualdade. Seu horizonte, no entanto, continua sendo a busca por igualdade, baseado numa concepção universalista de política pública e direito.

O identitarismo é uma afirmação da diferença e uma denúncia do conceito de igualdade como uma ficção opressora. Ele quer apresentar como essenciais à definição de uma identidade pessoal características contingentes de certos grupamentos humanos, denunciando a própria ideia de que há uma natureza humana que nos define e fundamenta a igualdade de nossos direitos.

Uns reificam essa identidade em um grupo cultural, outros biologicamente (radfens e racialismo anti-misigenação), mas o que tem em comum é a defesa reacionária de uma pureza cultural e a negação do outro. Ao invés de lutar por uma igualdade que não teria mais fundamento, luta por “reparação” por sua opressão, real, ou imaginada. Aquele que deve pagar é o opressor, que não tem nada em comum com o grupo oprimido.

Igualdade para essas pessoas não é o objetivo porque o que elas querem no fundo é vingança, sua motivação é o ressentimento.

Elas não querem ter os mesmos direitos e condições materiais, elas querem regular o sentimento, o pensamento e o desejo dos outros. Não basta reprimir o ato da ofensa moral a uma pessoa gorda, você tem que deseja-la; não basta o pastor aceitar a forma de vida de um casal gay, ele tem que mudar sua forma de vida e pensamento e deixar de considerar aquele comportamento um pecado.

E para conseguir isso querem usar a repressão e aparato estatal, desde a escola até o judiciário.

Para reformar o pensamento e o desejo dos outros, querem o Estado invadindo o direito de liberdade religiosa, de uso do próprio corpo, do desejo livre, da liberdade de pensamento e expressão artística.

Nem toda opressão alegada pelas supostas minorias é real, creio que praticamente todos nós sabemos disso, embora só metade tenha a coragem de verbalizar.

Por exemplo, LGBTIs e Negros sofrem uma opressão muito mais violenta em nossa sociedade do que o que resta de opressão para as mulheres na sociedade ocidental.

Mas a tentativa de discutir esses problemas na esfera pública logo é reprimida pela brilhante tática do identitarismo: a brutalidade da ofensa e estigmatização como “machista”, “homofóbico”, “racista”, de quem discorda de qualquer uma de suas pautas.

A ideia de uma minoria oprimindo uma maioria pela violência verbal não parece ser muito inteligente, e não é. Ela funciona para constranger e calar por um tempo, não para convencer.

Por que, sendo burra, essa tática continua e essas pessoas se mostram completamente incapazes de alterá-la? É porque uns são remunerados por fundações nacionais e internacionais para praticá-la, mas a maioria, o faz pelo mais puro e sincero ódio e ressentimento.

E por que a imprensa corporativa, fundos internacionais como o Soros e a Ford Foundation e milionários brasileiros financiariam tal barbaridade se são “brancos, homens e ricos”?

É preciso responder?

Qual é o serviço básico de qualquer inteligência estrangeira?

Porque a Alemanha financiou Lênin?

Como Cortez conquistou a América Central com duas caravelas?

Porque isso é uma máquina de guerra cultural que fragmenta e divide um povo que deveria se unir para lutar contra sua opressão material e, como bônus, transforma aqueles que a implantam, a “esquerda”, em inimigos da cultura popular que é inclusiva, miscigenada e religiosa. Por fim, ainda joga as classes populares contra o próprio Estado que é a sua última barreira de proteção econômica, e a faz odiar o sistema de educação pública, de saúde pública e o próprio sistema judiciário.

E você moço, você que quer que um homem branco, hétero e pobre do interior do RS pague a reparação por toda a opressão de dois mil anos a mulheres, negros e homossexuais, ou quer criminalizar a liberdade de crença religiosa prendendo um pastor que ache que relações homossexuais são pecado, você é um identitário.

Você não sabe, pode recitar Locke ou Marx, mas é.

Não só isso, você é um sujeito extremamente autoritário.

Você elegeu Bolsonaro e o sedimentou nas classes populares e continua sendo sua grande força.

O modelo de dominação ideológica norte-americana foi importado para o Brasil e consiste numa fórmula muito simples e eficiente que você reproduz.

Há dois eixos principais na luta política, economia e costumes.

Tanto a esquerda quanto a direita se renderam ao neoliberalismo e globalismo que levaram a humanidade de volta à escravidão e a miséria.

Mas a direita ao menos garante ao povo que eles levarão no campo dos costumes.

A mensagem de Bolsonaro é simples:

Vou te tornar escravo, mas não vou invadir sua igreja para prender seu pastor por homofobia nem tentar regular o que você fala na cozinha de sua casa.

E enquanto as opções forem essas, o povo brasileiro, inglês, americano, russo, e qualquer outro, vai continuar escolhendo ser escravo econômico sim, mas livre do Estado malvadão que quer determinar uma reforma cultural com seu dinheiro contra suas crenças.

Você moço, que é identitário, não só elegeu Bolsonaro.

Você o transformou num “mito”.

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