JONES MANOEL: Hannah Arendt e o movimento negro

Hannah Arendt ganhou notoriedade mundial com seu livro “As Origens do Totalitarismo”. Quais as principais teses desse livro?

a) O maior exemplo de totalitarismo é o nazifascismo e o comunismo, ambos iguais, porém, o comunismo sendo pior em níveis de repressão;

b) O totalitarismo comunista é uma consequência direta e inevitável da filosofia da história de Marx (derivada de Hegel) e todo marxismo é totalitário;

c) O colonialismo, o genocídio de negros e povos originários, asiáticos e árabes não é manifestação de totalitarismo.

No decorrer de sua obra, Arendt lança outro grande livro de sucesso mundial: “Sobre a Revolução”. Quais as teses centrais desse livro?

a) É impossível acabar com a pobreza e a miséria porque elas são fruto da “escassez” e a escassez é algo ontológico do relacionamento do ser humano com natureza;

b) A Revolução Americana é um exemplo de liberdade e libertação, não caindo na violência e no totalitarismo, já a Revolução Francesa, é o oposto, afinal, a resolução da “questão social” estava no seu centro;

c) Todo processo revolucionário que quiser acabar com a pobreza – resolver a questão social – vai inevitavelmente descambar no totalitarismo;

d) O objetivo de todo processo revolucionário para dar certo deve ser estabelecer a liberdade e a libertação. Grosso modo, isso significa a igualdade jurídica, garantia das liberdades negativas e uma república de iguais onde a participação na esfera pública é a realização da essência genérica do homem.

Não bastasse essas duas obras de maior sucesso da autora, ambas, como se pode ver, altamente reacionárias, em situações concretas, como na Guerra do Vietnã e nos conflitos classistas-raciais dos EUA, a posição de Hannah Arendt era bem clara: apoio à ordem dominante. No auge da campanha contra a Guerra do Vietnã a autora lançou um ensaio defendendo a tese de que a Guerra do Vietnã não era “imperialista” porque, grosso modo, os EUA não “estavam ganhando dinheiro” ou “buscando exportar capital”, mas sim sofrendo “perdas econômicas”.

Na explosão dos conflitos classistas-raciais nos EUA, Arendt ficou contra o movimento negro e especialmente os Panteras Negras, condenando o uso da “violência” pelos oprimidos com a defesa de um pacifismo abstrato e chegou a usar argumentos de que os negros queriam “supremacia racial” e nutriam “sentimentos de inveja pelos brancos”. Basta conferir o livro no Brasil publicado com o nome de “Sobre a violência”.

JONES MANOEL Hannah Arendt e o movimento negro

A pergunta que fica é como uma reacionária desse tipo pode passar por “progressista”, de esquerda ou qualquer coisa do tipo?

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Em 03 de janeiro de 1960, Hannah Arendt, em carta a Karl Jaspers, relata que em todas as classes das escolas de ensino fundamental de Nova York foi proposta uma redação com tema: imaginar uma maneira de punir Hitler.

Uma criança negra escreveu na sua redação que Hitler deveria ser “coberto com a pele negra e depois ser obrigado a viver nos Estados Unidos”. Para a criança, não existia punição maior no mundo que ser um negro vivendo nos Estados Unidos!

Isso, como eu disse, foi em 1960! Mesmo assim, porém, é de notório conhecimento que Hannah Arendt foi contra o movimento negro nos EUA e chamou de violento não o racismo, mas o movimento negro!

Episódio tratado com maior detalhe no livro “Hannah Arendt 1906-1975. Per amore del mondo” de Elisabeth Young-Bruehl e citado no livro “O Marxismo Ocidental” de Losurdo (Boitempo, 2018, p. 123).

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Herbert Marcuse e Hannah Arendt: movimento negro e violência revolucionária

No pós-Segunda Guerra Mundial começa a ganhar maior força o movimento negro nos EUA. O alto escalão do Estado burguês-imperialista estadunidense passou a considerar urgente rever as leis de segregação racial conhecidas como “Jim Crow “, pois “a segregação racial faz nossos aliados duvidar de nossa fé na democracia e fortalece a propaganda comunista”, dizia um membro da Suprema Corte dos EUA. Nas décadas posteriores, o movimento negro assumiu cada vez mais protagonismo político e surgiram várias organizações, líderes, correntes teórico-políticas e partidos.

O Partido dos Panteras Negras, organização de luta contra o racismo e a dominação burguesa, chegou a ser classificada pela CIA e FBI como maior ameaça ao capitalismo estadunidense no século XX. No seio dessa luta, duas tendências gerais se destacavam: a pacifista e com forte influência liberal liderada por Martin Luther King e a radical, adepta da violência defensiva e com aproximação cada vez maior com o socialismo e o terceiro-mundismo, simbolizada por Malcolm X.

Durante toda essa luta política, dois grandes pensadores polarizaram a reflexão filosófica: Herbert Marcuse e Hannah Arendt. Esta defendia que a linguagem política exclui a violência e que, portanto, a violência é a negação da política. Para a autora, a liberdade é a ausência de opressão por parte do poder político e a libertação, a participação dos cidadãos na república na gestão da coisa pública, através do diálogo e do consenso. Nesse sentido, Malcolm X, o Partido dos Panteras Negras e todas as tendências radicais do movimento negro nos EUA deviam ser condenados e repudiados como negação da política, da liberdade e da libertação.

Segundo Arendt, o Estado obrigar famílias brancas a matricular seus filhos em escolas mistas (brancos e negros) seria uma forma de violar a liberdade e um caminho ao totalitarismo. A autora de “As Origens do Totalitarismo”, em seu clássico livro “Sobre a Revolução”, diz que a Revolução Americana, ao contrário da Revolução Francesa, foi pacífica, sem totalitarismo e criou uma república que garantiu a liberdade e a libertação, instituindo a igualdade política, única possível, já que as desigualdades socioeconômicas não podem nunca ser eliminadas, pois são um dado natural da sociedade humana fruto da escassez. A escravidão, o extermínio dos povos originários, a Ku Klux Klan, as leis de segregação racial e tudo mais, foram solenemente ignorados por Hannah Arendt como se nunca tivessem existido.

Herbert Marcuse, o melhor pensador de toda primeira geração da Escola de Frankfurt, ao contrário, não só apoiava ativamente os movimentos contra a segregação racial – inclusive os radicais -, como as lutas dos povos da periferia do capitalismo nas suas revoluções nacionais. Marcuse tinham como premissa filosófica que a violência é um dado inerente à ordem capitalista. A dominação burguesa usa a violência, o extermínio e a brutalização dos sujeitos na reprodução de sua ordem. Usou no passado, usa no presente e sempre usará no futuro.

Nesse sentido, para o autor de “O Homem Unidimensional”, o debate não era sobre os movimentos de resistência usarem ou não a violência, mas o papel da violência revolucionária no processo de emancipação. Marcuse, embora não fosse leninista, aprendeu uma lição fundamental do leninismo e a desenvolveu no seu plano filosófico: na realidade, na prática política, a violência existe como parte da ordem burguesa, logo, não cabe aos oprimidos idealizar as condições de luta, mas compreendê-las friamente, se preparar para o enfrentamento e utilizar todas as armas necessárias.

Evidentemente, Marcuse não tinha fetiche pela violência e não considera seu uso dentro de uma perspectiva antiética (e muito menos aprova toda forma de uso, como o “terrorismo” individual). A violência revolucionária só é revolucionária quando inserida em uma lógica de resistência e emancipação sem reproduzir as barbáries típicas da ordem – por exemplo: não é justificável movimentos revolucionários praticarem atos como o estupro. Dessa forma, Marcuse, ao contrário de Arendt, mostrou como a modernidade burguesa é atravessada pela barbárie e divulgou com afinco e disciplina quase militante as barbáries do colonialismo na periferia do capitalismo e nos guetos negros dos EUA.

Marcuse foi um amigo dos “Condenados da Terra” (título do livro de Frantz Fanon). Um intelectual que recusou a postura liberal e pseudo-neutra que tomaram seus companheiros de “Teoria Crítica” e buscou combater a mitologia da classe dominante que esconde a violência diária sobre os explorados e oprimidos para gritar, escandalizado, a qualquer sinal de resistência, sobre a violência contra a liberdade. Hannah Arendt – seguida de perto depois por Jurgen Habermas – criou uma teoria da política idealista que joga para o plano etéreo a violência da política e da história, tornando a resistência dos de baixo uma patologia, quase uma anomia social.

Hannah Arendt era uma aliada sofisticada do imperialismo e do racismo. Esse debate não é velharia dos anos de 1960. É muito atual. E enquanto existir ordem burguesa, continuará atual. E nessa peleja, eu sou Marcuse!

3 Comentários

  • Caro Prof Jones Manoel

    Fui aluno no curso de História da PUC/RJ, nos anos 80, e a dita atora era predominante em quase todas as disciplinas do curso. Só dois professores, com os quais estudei, não se submetiam a este canto gregoriano: Ciro Flammarion Cardoso e Gizlene Neder. Eu, como único estudante assumidamente marxista, lutava contra esta verdadeira lavagem cerebral, sob o olhar da “manada dos normais”. Era taxado de autoritário, totalitário, mas eles é que faziam o extremo oposto daquilo que diziam combater. Seu vídeo é brilhantemente esclarecedor. Meus parabéns.

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  • Você não entendeu nada de Hannah Arendt. Não faz sentido tratar filosofia com a mesma lógica do cancelamento da internet de hoje e dizer que uma autora é reacionária porque não concorda com você. Só pra dar um exemplo de erro conceitual crasso: O que ela criticou no Origens foi stalinismo, não o comunismo como um conceito amplo.

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