Fetiche da hipermodernidade: todo mundo “super” entende tudo

Agora todo mundo resolveu super compreender tudo: o outro, a frase, a imagem, o gesto, o olhar, a mensagem, a palavra. Todo mundo super gosta do filme, do evento, do debate. Todo mundo super viaja na última onda da moda ou da notícia espetacular. Todo mundo anda super antenado com as coisas do momento. Se todos estão super antenados, por que tantos vazios e dissonâncias? Por que tanta algaravia de obscurantismo?

Todo mundo super concorda ou discorda do outro, super sente a mesma coisa ou super aposta nessa ou naquela possibilidade. Enfim, o “hiper” que se supõe super homem porque super se sente na era dos superlativos e paroxismos – a hipermodernidade que alguns chamam de pós-modernidade: o veloz e o instantâneo com seu sentimento de presente perpétuo e seu processo cognitivo feito mais por imagens prontas do que por meio de palavras e do pensamento reflexivo.

De Lyotard, com sua obra “A condição pós-moderna”, à mediocridade despudorada, as seguintes indagações talvez sejam necessárias: o que nós estamos compreendendo do mundo e de nossas próprias vidas? Traduzindo: como nós nos vemos – e como vemos nossas relações com as outras pessoas e o mundo? Traduzindo mais ainda: o que realmente importa nessa vida?

Essas questões não têm nada de algo transcendental ou metafísico do tipo: de onde viemos, o que somos e para onde vamos. Nada disso. Tem, sim, o corriqueiro arroz com feijão de querer compreender o mínimo dessa loucura chamada mundo, desse constructo histórico, uma vez que a própria palavra mundo seria a imagem contraditória de vários mundos.

Essa reflexão carrega a humildade de insistir mais em indagações do que nas afirmações aprumadas num mundo, ou mundos, onde as pessoas super se seguram em suas verdades e super estão compreendendo tudo, com as lentes arrogantes da espécie “superior”, com seu poder “inato” de pensar, de pensar que sabe, de pensar que sabe pensar e de pensar que resolve os problemas com suas supostas verdades peremptórias. É tudo tão seguro para tanta gente que a coisa virou “super”. Desconfio que muitos não querem ficar só no prefixo ou na metáfora.

Sim, porque, afinal, quão poderoso tem sido esse ser humano que se pretende “evolutivo” na base do “perene vendaval da destruição criadora”, como diria Schumpeter, não se sabe se em tom elogioso ou reticente em relação ao sistema capitalista. E o que vem ao caso é o modo de vida, as formas sociais dos em seus invólucros de suposta natureza imanente.

Não chegamos até aqui por algum processo inevitável e natural da história. Esta poderia, sim, ter sido de outra maneira. Podemos dizer que de meados do século XIX ao início do século XXI nada de novo aconteceu, para além das formas tecnológicas e sociais nos seus conflitos e guerras de adaptação ao mesmo sistema. E, no entanto, as pessoas se sentem super pós-modernas num mundo supostamente em transformação acelerada e evolutiva.

Sim, aconteceu uma tentativa, nas primeiras décadas do século passado, de outra forma de sociedade – talvez o único ponto fora da curva no processo contraditório como alternativa ao sistema capitalista. A queda do muro só reforça a “mesmice” do século XX – e não como derrota de uma ideia, mas sim como parte do processo ainda em andamento.

A arrogância de super entender tudo, de super estar seguro de tudo, de super ‘ser eu’ e de super sermos nós talvez tenha a ver com a falsa noção de que a contemporaneidade seria o ápice de todas as possibilidades de vida, ecoando a teoria do fim da história de Fukuyama e de outros intelectuais charlatões de diferentes correntes.

Sugiro duas críticas a essa ideia tosca de fim da história. Tosca, mas, bem sabemos, com muito projeto estratégico camuflado em seus diferentes enunciados. Em primeiro lugar, ignora que o momento presente é minúsculo e praticamente nada em termos de “produção humana” comparado a dois milênios que se passaram, só para tomar como referência o nascimento e morte de Jesus Cristo.
Se Galileu teve que voltar atrás em suas descobertas para não morrer na fogueira, o padre Belarmino não teve como negar as verdades científicas. Daí esse casamento virtuoso entre capitalismo e cristianismo, na comunhão de uma espécie do tipo “existencialismo de coalizão” entre a verdade científica e religiosa.

Certamente, o engano resulta da velocidade com que certas mudanças ocorreram, num curto período de tempo, a partir de meados do século XX, sobretudo, no campo das tecnologias de comunicação e informação. Vale dizer, a ilusão de que vivemos uma “revolução tecnológica” independente do próprio ser humano. Revolução essa que seria incontrolável no seu transcurso em uma espécie de outra natureza, paralela, aos conflitos e formas sociais, econômicas e políticas.

Em segundo, a tentativa, na verdade, de neutralizar a existência e o conflito de grandes narrativas, notadamente, as relacionadas às utopias de formas sociais que surgiram a partir das revoluções burguesas europeias, com seu marco principal na revolução soviética nas duas primeiras décadas do século XX, depois dos movimentos oriundos após a Revolução Francesa do século XVIII.

É a tentativa descambando sempre para explicações em supostas transcendências humanas abstratas, sem história. Afinal, não existe uma “humanidade” única, embora sejamos da mesma espécie de um tipo peculiar de mamífero – isso, considerando as histórias específicas dos diferentes grupos e formações humanas sociais mundo afora.

Em relação a essa segunda crítica, a tergiversação parece incensar diferentes posturas multiculturalistas nos sentido de decretar, por um golpe de mágica cognitivo, o fim das lutas de classes e as contradições que processam as histórias das formações sociais.
Vejam que o plural dessas categorias é para deixar claro que não existe somente luta de classes (em abstrato) de natureza econômica, entre ricos e pobres, ou entre donos de meios de produção e proletários. Mas sim também diferentes tipos de lutas de classes, determinadas por condições específicas em cada território. Por exemplo: a crise que vive hoje a Justiça brasileira. Pura luta de classes essa encrenca que parece apenas jurídica e/ou política.

Para encerrar, mas nunca concluir, inclusive, para ver se não estou errado, poderíamos dizer que vivemos o início do século XXI enganchados ainda no século XIX. Nosso problema não é só de distribuição de renda e menor ou maior consumo de produtos materiais para sobreviver. Nosso problema pode estar ligado também à administração do tempo, considerando que “a longo prazo todos estaremos mortos”, conforme bem lembrou John Maynard Keynes.

Mas isso não quer dizer que nosso problema seja falta de crescimento ou desenvolvimento econômico. Nosso problema é a própria forma social em seu cerne nevrálgico, qual seja, quem determina como deve ser o modo de vida em sociedade. A pergunta seria: queremos continuar a ser super imbecis ou super donos do nosso destino? Vale dizer, super donos do nosso tempo.

Talvez comecemos a super compreender melhor nós mesmos como seres sociais se abandonássemos a tendência à atração pela mediocridade e pelo espelho do ser minúsculo de imagem já pronta. Se parássemos de olhar perplexos para o côncavo e o convexo se saber o que escolher. Se parássemos de super sermos induzidos ao conformismo de submissão ao desejo e formas impostas pelos outros.

Enfim, se começássemos a pensar mais por palavras do que por imagens fabricadas, evitando assim que nossa imaginação seja apenas o simulacro do que os outros determinam para nós mesmos. Talvez comecemos a ter que indagar o que estamos fazendo e o que os outros tentam fazer com nossas vidas.

Isso significa produzir imagens com nosso poder de pensamento e devaneio – isto é, trabalhar a nossa imaginação, uma das formas que possibilitam a pré-figuração do futuro em nossas ideias e desejos.

Vale dizer, pensar no presente e num futuro possível – aquilo que György Lukács chama de “por teleológico”, ou seja, a escolha de determinados fins entre alternativas possíveis para as nossas vidas – esta, sim, a faculdade maior da espécie humana, diferentemente dos animais e plantas no processo evolutivo do “afastamento da natureza”.

Não precisamos ser super-homens, mas sim viver na simplicidade de ser feliz com os outros – de ser feliz somente com a felicidade dos outros. Esta, sim, a super condição humana desejável.

1 Comentário

  • Daora o texto…
    Entendo que essa abordagem rasa e ampla das coisas seja fruto do avanço desruptivo da comunicação (leia-se redes sociais virtuais, nunca antes criada em nossa história como espécie) e transformação digital da imprensa (eu mesmo muitas vezes me contento só lendo a manchete desse portal enquanto “scrollo” no IG).
    Também dialoga com uma mentalidade filosófica ancestral, que diz que o que de fato verbalizamos nunca é resultado de nossas faculdades imagéticas e reflexivas e sim idéias de terceiros semeadas muito bem em nosso terreno mental, de forma com que fazemos, é sermos polinizadores dessas idéias, que pertencem a um grupo ou pessoa, limitando-nos e perdendo nossa autencidade intelectual…
    Abraços!

    1

    0

Deixe uma resposta