A ideologia do entreguismo cultural

O que caracteriza o entreguismo cultural? Quais são as mediações simbólicas, teóricas e políticas realizadas por essa perspectiva teórica? De que maneira ela tem sido um impeditivo dentro dos setores progressistas e anti-coloniais para a construção de “novos universais” e, portanto, para um sentido histórico que se reencontre com as maiorias no Brasil?

Primeiramente, preciso definir objetivamente o entreguismo cultural. Trata-se de uma ideologia conservadora, que tem como princípio o abandono das categorias de análise e ação política que dizem respeito à coletividade brasileira- nação, pátria, nacionalismo, Estado-nação, maiorias trabalhadoras, povo, desenvolvimento, subdesenvolvimento, libertação nacional, etc. Nenhum desses conceitos faz parte da lupa teórica do entreguismo cultural. Pelo contrário, é objeto de confrontação direta. Mas, afinal, qual é o seu método de combate?

O entreguismo cultural possui como chave analítica a compreensão da coletividade brasileira como uma “soma entre as partes”, divididas em grupos essenciais. Entendidas como “minorias”, caberia a elas disputar um lugar representativo na sociedade em termos culturais e políticos. Do ponto de vista sociológico, comete inclusive uma distorção. Por exemplo, ao tratar sobre a população negra e parda do país, tende a coloca-la sob o espectro de uma “minoria a resistir”, quando, pelo contrário, trata-se de um grande e potente contingente populacional que se constitui uma maioria social. Portanto, por direito, deveria se elevar ao status de maioria política.

O individualismo culturalista-metodológico é o eixo estrutural para a interpretação da realidade nacional, segundo essa perspectiva. Nesse sentido, ao invés de se pensar em categorias-produto (como povo, por exemplo), o entreguismo cultural se baseia na lógica da sociedade como uma “soma das partes”. Sua lupa teórica se baseia principalmente em autores do Ultramar e estadunidenses. Dentre os autores e escolas mais citados pelo entreguismo cultural destacamos Michel Foucault e sua teoria dos micro-poderes; Roger Chartier e a tese de “luta pela representação”; a ala mais conservadora e anti-marxista dos estudos pós-coloniais; e, por fim, os identitaristas da América do Norte e sua solução “multicultural”.

Entrelaçado ao fenômeno sociologicamente distorcido da leitura do Brasil e suas categorias de baixa auto-estima para descrever o papel de indígenas e negros na construção da brasilidade, o entreguismo cultural segue o mesmo fenômeno do entreguismo da economia: a fotocópia de experiências históricas alheias e a importação de soluções políticas advindas da realidade –  entendida como bem-sucedida – na luta contra a desigualdade social e racial dos Estados Unidos. Aceitando a pecha da globalização, o entreguismo cultural não acredita na concretude das fronteiras nacionais. Pouco se compromete com a historiografia de defesa do patrimônio coletivo nacional, suas riquezas e capacidades tecnológicas. Acredita ingênua e erroneamente que as lutas pela emancipação política do país se deram por simples “acordos entre as elites”. Há quem queira, inclusive, relativizar o papel da Revolução de 30 na história, retirando a palavra “Revolução” como categoria de especificidade analítica e temporal desse importante momento de transformação das forças produtivas e da cultura nacional.

O movimento do entreguismo cultural busca analisar o Brasil teórico, político e socialmente a partir de uma movimentação unívoca externo-interno. Repudia a dialética e os diferentes graus de contradição existentes na relação do Brasil, sua inserção no globo e seu papel no auxílio (ou não) de forças alienígenas e imperiais para a concretização de sua libertação nacional e o alcance de um desenvolvimento autônomo. Os seguidores do entreguismo cultural obedecem o mesmo vetor de movimentação da ideologia entreguista-econômica, mesmo que a contragosto consciente desses grupos. Enquanto os entreguistas econômicos desenham sua prática institucional acreditando na caridade das poupanças externas de outros países para a promoção de um desenvolvimento “global” – leia-se: subordinado e, portanto, subdesenvolvido – os entreguistas culturais importam ideias das lutas dos grandes centros sem necessariamente realizarem um filtro político e cultural quando exercitam a comparação. Nesse sentido, não realizam a prática da “redução sociológica”, acreditam que as ciências também não possuem fronteiras. São incapazes de produzir uma nova universalidade.

O entreguismo cultural, ao não se perceber como constituinte da ideologia entreguista, contribui para o fortalecimento das forças reacionárias e anti-nacionais. Entregam de bandeja as categorias universais para as minorias empoderadas e endinheiradas, que trabalham com tais conceitos de forma retórica e demagógica. O entreguismo político e econômico se vê diante da ausência de um “inimigo de trincheira”, uma vez que as forças que procuram a libertação nacional não assumem a disputa e o combate de interpretação da realidade brasileira. Muitos entreguistas, inclusive, são parcimoniosos com tais grupos.  Realizam concessões identitárias com o objetivo de ampliar seus tentáculos. Afinal, sabem que os seus sócios-maiores – o imperialismo e seus empresários internacionais, colonizadores por excelência – surfam na onda da “inclusão representativa” e na segmentação discursiva, uma vez que, ao abocanharem o culturalismo, podem fazer dele um importante “nicho de mercado” lucrativo.

Os entreguistas radicais e autoritários –  fração da classe dirigente e que hoje se encontra no poder – ao perceberem o vácuo da disputa de categorias universais, assumem a dianteira e incorporam, sem muitos problemas, a dimensão nacional, “o patriotismo” e o culto demagógico à bandeira brasileira. O “verdadeiro patriotismo” para o entreguismo radical não vê contradição entre o culto pátrio e a subordinação aos interesses estadunidenses. Uma vez que acreditam na “utopia da poupança alheia” como salvação para o desenvolvimento nacional – fórmula essa também não diferente para o entreguismo “moderado e democrata” – os Estados Unidos são estratégicos para a sua manutenção no poder.

Nesse sentido, a vitória do entreguismo radical está em concretizar a plataforma de subordinação colonial com categorias universais que se identificam diretamente com as grandes maiorias, empobrecidas e revoltadas com sua condição subdesenvolvida, desintegrada à revolução tecnológica, comendo uma vez por dia, vivendo de forma rudimentar, sem ter a opção de escolher qual roupa usar, sem geladeira e eletrodomésticos que poderiam facilitar sua condição. E que, mais ainda, poderiam aumentar sua expectativa de vida.  No entanto, ao ver a chama de um “patriotismo” retoricamente “antissistêmico” nascer, acreditou que o país poderia sair da lama, depositando a confiança do destino de suas vidas em seus algozes.

O “inimigo interno” que o entreguismo radical identifica é a “política de identidades” e o “politicamente correto”. Para eles cabe hiperbolizar esse inimigo, criar caricaturas. Uma vez identificado com o espectro da esquerda, o movimento do entreguismo cultural tornou-se um “espantalho” para a ideologia colonialista forjada de “patriota”. O inimigo ainda diz que esse movimento é vinculado “aos globalistas” e “comunistas” que “querem transformar o Brasil numa Venezuela”. Caricaturas bem pensadas pelo setor militar dos entreguistas, que possui uma pulsão anexionista de diluição de fronteiras entre nós e estadunidenses por meio da ideologia do “livre mercado”.  Mais preocupados com seus salários, os militares entreguistas se utilizam da retórica da contrarrevolução de 1964 para se manterem no poder. Retórica essa pensada com o objetivo de criar dissuasões e divisões no seio da própria população brasileira. É um movimento sofisticado, bem pensado estratégica e taticamente.

Fica a pergunta: como combater o entreguismo cultural? Ele é realmente um inimigo? Como neutralizar a relação implícita e simbiótica entre os entreguistas radicais e os entreguistas culturais? É possível superar tais adversários da libertação nacional no médio-longo prazos?

Esse será o tema para uma futura discussão.

Contribuições Bibliográficas para esse Ensaio em Construção

UNGER, Roberto Mangabeira. Depois do colonialismo mental.

WEINSTEN, Barbara. History without a Cause? Grand Narratives, World History and the Postcolonial Dilemma.

RAMOS, Alberto Guerreiro. A Redução Sociológica

YOUNG, Robert. Postcolonialism.

SUN TZU. A Arte da Guerra.

Linha de Massas das Brigadas Populares.

 

1 Comentário

  • Off course not. You don’t have what it takes to become a Venezuela. You’re going to become another Haiti

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