“A ilha dos dados” para as crianças pensarem através da arte

Um jogo em que os jogadores são também as peças do jogo, porém, mais do que isso, um jogo nunca pronto, construído passo a passo, a partir das jogadas em cada lance inesperado. Se o presente é gerúndio, o futuro são páginas em branco para serem preenchidas por nós mesmos – e mais ninguém. A vida pode ser um lance de dados, mas não como destino determinado ou transcendente, e sim porque o jogo não para – e não basta resolvermos, mas sim também construirmos o problema.

Esse é o desafio condutor do enredo do livro infantil “A ilha dos dados” (Chiado Kids, 2019), que será lançado às 18h do dia 3 de setembro, na Bienal do Livro, e no dia 10 setembro, no Museu da República, no Rio de Janeiro. Depois, será lançado no dia 19, na Feira do Livro, na cidade do Porto, e em 5 de outubro, no Clube Literário Chiado, em Lisboa. Para quem acha que a reflexão filosófica pode ser difícil para crianças, pergunta-se: mas quem disse que devemos facilitar as coisas para as crianças? Desde quando histórias infantis devem ser suporte para mimimi melodramático ou de contos de fadas inverossímeis com finais felizes?

Para além do velho chavão de que precisamos resolver em vez de formularmos novos problemas, outras indagações seriam pertinentes, tais como: desde quando devemos dar de bandeja situações imaginadas prontas para degustação / entretenimento das crianças? Quer maior prazer e desafio para o desenvolvimento pessoal do que a descoberta pela própria criança de que sua imaginação pode construir a história? E de que a imaginação faz parte da construção das nossas possibilidades de vida?

Com um narrador oculto, o livro conta as peripécias de três crianças ou adolescentes em situações diferentes na procura de caminhos – em terra firme e em águas agitadas: um surfista, um garoto que o acorda porque a maré está subindo enquanto o primeiro descansa ao pé de uma árvore, ambos depois alertados pelos gritos de socorro de uma menina no comando de um barco à deriva nas ondas revoltas.

Fruto da sinergia de um trabalho coletivo escrito por Valéria do Carmo Ramos (psicóloga e professora universitária), Eloísa de Souza Sabóia Ribeiro (professora, pedagoga e arte-educadora), Auterives Maciel Júnior (professor universitário com estudos em Filosofia, Arte e Psicanálise) e Peter Pál Pelbart (filósofo com vários livros publicados dedicados ao pensamento de Deleuze e Foucault), o livro tem ilustrações de Renan Pinto Alves e um acabamento editorial primoroso da Chiado Kids.

Dividida em 10 capítulos, a história é apresentada mais por texto do que imagens, o que chama atenção num livro infantil não só em termos de originalidade, mas por seu próprio espírito imanente, que é o de incentivar a imaginação do leitor, brindado no percurso final com as duas últimas páginas em branco para escrever como o enredo deve continuar.

Numa época em que as pessoas têm vivido, pensado, compartilhado, aprendido e sentido as coisas da vida individual e coletiva mais por imagens, aqui temos o apreço pela palavra e o texto, o exercício da leitura como instrumento lúdico e estruturante da imaginação e do pensamento. A pergunta é também: quem disse que as crianças não gostam de textos lidos para além de imagens que oferecem tudo de bandeja?

Se cores e traços nos levam a determinados efeitos de pensamento, a palavra escrita, mesmo sem ser na base da metáfora, pode funcionar como essa figura de linguagem para nos provocar reflexões, “como o surfista e o mar brincavam com o movimento”, no trecho em que narrador descreve o primeiro personagem surfando nas ondas em sua sinergia com o próprio movimento do mar.

Acordado por outro garoto quando descansava à sombra de uma árvore na praia porque a maré subia, ambos ouvem o pedido de socorro e se jogam no mar para ajudar a garota no barco descontrolado. Em meio às águas revoltosas, o narrador faz uma provocação, dizendo ser precária a ideia de que o homem é o mais importante no reino da natureza e também o mais sabido:

“Mas como vocês podem ver, as coisas não são bem assim… Os outros seres da natureza – como a chuva e o vento – têm sempre um jeito de mostrar a sua importância e a sua força também. A gente sempre deve pensar sobre o que se ouve – seja de gente grande ou até mesmo de uma criança.”

Na correnteza das mudanças, o barco segue para situações inimagináveis, e a garota exclama: “Olhem! A paisagem não é mais a mesma!” A navegação à deriva os leva, enfim, para uma ilha, outra ilha, onde tudo tinha forma de dados. De repente, para estupefação dos três, diversos dados atravessam seu caminho, rolando e repetindo a expressão: “o jogo não para, construa o problema.”

Os dados então convidam as crianças ao grande jogo da trilha, caminho que as levaria possivelmente à saída da ilha. O narrador nos convida a pensar com quais dados os personagens vão jogar para seguir a trilha, pois, afinal, são dados e mais dados espalhados na paisagem. Jogadas podem significar prêmios ou punições. E pergunta: “vocês já perceberam que a vida parece um grande jogo? E que cada um joga de um jeito diferente?” E mais ainda: “que também há outros jogos – talvez – menos jogados: com muitos começos e muitos fins e sem direção certa, que apostam mais na surpresa, no risco e na invenção?” E uma pergunta mais instigante: “haveria na Ilha dos Dados apenas aquele tipo de jogo?”

Enfim, um vendaval e o fim da trilha, como as areias que se movimentam nas intempéries e apagam rastros e caminhos. “Se for assim, o vendaval e o desaparecimento daquela trilha não foram coisas tão ruins. Nem mesmo era o final de nosso jogo! Era o começo, quem sabe? E achar a saída pode ser só uma possibilidade”, pondera o surfista. O outro menino propõe que “em alguns jogos, as regras já estão prontas. Mas em outros, elas são inventadas.” Em determinado momento, um pequeno dado sussurra algo às crianças que fica entre elas – e os leitores ficam sem saber o que é… vindo então as duas páginas em branco do livro para que cada um invente uma continuação ou um fim para a história.

 

Por Álvaro Miranda.  Jornalista, poeta, mestre e doutor em Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento pela UFRJ, prestes a lançar seu quinto livro de poesia. Autor de “A casa toda nave cega voa” e “Pra que serve a palavra nunca”.

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