JONES MANOEL: O Irã, as mulheres e o imperialismo ocidental

Uma página muito boa de esquerda (Imagem e História) publica uma foto de uma mulher de biquíni numa praia do Irã e coloca a legenda mais ou menos assim “Em 1960, antes da Revolução Islâmica”.

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É muito comum esse tipo de “crítica” ao Irã. Eu, sinceramente, não acho esse tipo de abordagem aceitável. Ela fortalece um ocidentalismo hipócrita que acredita ter uma superioridade moral e civilizatória frente ao “orientalismo” islâmico. Pior: é uma simplificação grosseira da história.

Explico em poucas linhas.

Todos os projetos políticos nacional-populares modernizantes total ou parcialmente laicos do Oriente Médio e África foram combatidos pelas potências imperialistas usando, dentre outros instrumentos, grupos fundamentalistas islâmicos. O imperialismo ocidental, com destaque para Inglaterra e EUA, nunca teve pudores em armar, treinar, financiar e oferecer cobertura diplomática para o pior esgoto que se possa imaginar.

O caso da paixão estadunidense pelo Talibã (chamados de “Guerreiros da Liberdade” pela mídia ocidental) é apenas o exemplo mais famoso, mas está longe de ser uma situação isolada.

Quando o Irã buscou construir um projeto nacionalista e tendencialmente laico liderado por Mohammed Mossadegh, o resultado foi um golpe de estado com articulação direta da CIA.

A história do Irã pós-golpe não é uma trajetória de direitos humanos e respeito às liberdades individuais das mulheres.

Durante a ditadura pró-Ocidental do Xá Reza Pahlevi, cresceu a pobreza, miséria, desigualdade, entrega dos recursos naturais, prostituição, violência e afins. E não existe liberdade para as mulheres onde elas não têm emprego, saúde, educação etc. etc. etc.

A Revolução Islâmica, em muitos aspectos, significou regressões em termos de liberdades individuais. Mas ela é produto do histórico de agressões imperialistas. É uma reação em bloco e compreensível a tudo que pareça com imposição cultural ocidental.

Mesmo assim, o Irã tá longe de ser o maior exemplo de opressão sobre as mulheres do Oriente Médio e dos países de maioria islâmicas. No ensino superior, por exemplo, as mulheres são um pouco mais que 50%. Estão inseridas no mercado de trabalho e têm vários direitos civis reconhecidos.

Está longe, bem longe, do ideal, mas não é comparável com a situação terrível da reacionária monarquia da Arábia Saudita. E pior: esse “imperialismo dos direitos humanos” que usa a pauta dos direitos das mulheres para agredir, isolar e difamar o Irã, não ajuda em nada a luta das mulheres no país (que existe!).

Ao contrário. Ajuda na difusão de um difuso sentimento antiocidental em bloco. O que eles querem mesmo é a volta da época do Xá quando o país era um grande prostíbulo do Ocidente e as mulheres tinham a liberdade de serem prostitutas.

A melhor forma de ajudar a luta pela emancipação da mulher no país é não aceitar, normalizar, esse discurso intervencionista e ocidentalista. É proclamar o direito do país à sua soberania nacional e da auto-organização, sem interferência do onguismo gringo, das mulheres do país.

Por Jones Manoel

2 Comentários

  • A campanha contra os iranianos já dura quatro décadas e se tornou caudatária de uma fobia de natureza xenofóbica definida como `iranofobia. ` Fobia que se caracteriza por uma `guerra fria` sem limites transformada em um nefasto vale-tudo no intuito de demonizar e desumanizar os iranianos por meio de propaganda maciça: Goebbels e Edward Bernays não fariam melhor.
    A despeito de qualquer crítica que possa ser feita ao regime iraniano, as conquistas da República Islâmica do Irã são inquestionáveis. Em situações similares, outras nações pereceram ou caíram de joelhos para sobreviver, mas os iranianos resistiram e se fortaleceram. Certamente, os arquitetos da iranofobia, ao contrário dos incautos que sucumbem a propaganda iranofóbica, estão cientes do custo de uma agressão ao Irã. Os inimigos da República Islâmica, após décadas habituados com os `tigres de papel` do nacionalismo árabe, sabem que um conflito militar com os iranianos não seria um passeio no parque, aliás como advertiriam do Além, Reza Pahlevi e Saddam Hussein.
    As tentativas de mudança do atual regime iraniano, como foram outras no passado, se pautam em interesses escusos e não nos interesses do povo iraniano. Na lista de possíveis mudanças de regime que poderiam tornar o Oriente Médio de novo habitável há candidatos bem mais `qualificados` que os iranianos. A começar pela Arábia Saudita, os vários emirados árabes, Israel e o atual `homem-enfermo` na região: o Egito. Não por coincidência, todos aliados estratégicos dos EUA.
    Portanto, as ambições expansionistas dos iranianos no Oriente Médio me preocupam bem menos que as ambições de americanos, israelenses e sauditas. Ao contrário, vejo o Irã e a Turquia como uma potências regionais, que juntamente com a Rússia e em menor escala a China, constituem forças estabilizadoras e contra-hegemônicas em uma região que parecia, após o termino da Guerra Fria, ter ficado à mercê de predadores geopolíticos, capitaneados pelos EUA e secundados por seus proxies regionais: israelenses, sauditas e outros árabes do Golfo. No entanto, refletindo sobre a total inversão de valores que prevalece na discussão sobre o tópico, são os iranianos, que desde 1979, estão sob cerco norte-americano.
    Notem, que o `expansionismo` persa na região no tempo de Xá Reza Pahlevi não deu origem a uma campanha iranofóbica. Nem seu programa nuclear na época, nem seus investimentos maciços no aparato militar e tampouco a repressão da terrível Savak motivaram sanções ao Irã. Ao contrário, o `mundo livre` aplaudia e se beneficiava do frenesi e devaneios modernizantes do Xá. Porém, após a Revolução Islâmica, a influência regional iraniana deixa de ser vista como uma continuidade geopolítica e passa a ser vilificada. Afinal, um personagem de ópera-bufa como Reza Pahlevi era bem mais palatável as `viúvas` de Max Weber no Ocidente do que os austeros e religiosos aiatolás.
    Por outro lado, não custa lembrar: os iranianos é que foram atacados pelo famigerado Saddam Hussein. O ditador iraquiano foi recrutado e armado pelo Ocidente para estrangular no berço uma revolução legítima e popular. O saldo desta estratégia mórbida: mais de 1 milhão de mortos, entre iraquianos e iranianos descartáveis com direito a milhares de civis curdos exterminados pelas armas químicas do aliado das democracias ocidentais no Oriente Médio.
    Alguns sugerem que iranofobia tem origem na rivalidade étnica entre árabes e persas, que ao longo do tempo é ressignificada em uma rivalidade sectária entre muçulmanos sunitas e xiitas. No entanto, definições simplistas e generalizantes tendem a ter mais furos que um queijo suíço. Esta não é exceção. Afinal, existem árabes xiitas e iranianos sunitas, mas, sem dúvida, as rivalidades etno-sectárias pretéritas servem como justificativa na tentativa de impor uma narrativa histórica que possa legitimar uma rivalidade contemporânea.
    A iranofobia surge no rastro da Revolução Islâmica em 1979 e se acentua com a política iraniana de proteger e apoiar as populações xiitas e o suporte à causa palestina. Este quadro, por certo insuportável para interesses americanos, israelenses e sauditas resulta em uma feroz campanha iranofóbica.
    Todavia, para desespero de muitos e conforto de tantos outros, o Irã não é o Iraque. Nem a Arábia Saudita. Não é um país inventado pelo passatempo preferidos colonialistas europeus de rabiscar fronteiras em mapas aleatoriamente criando `nações` a seu bel-prazer sobre o defunto do Império Otomano. Tampouco é Israel, uma colônia de invasores imposta aos nativos pelo maquiavelismo pós-colonial europeu temperado com chantagem e culpa no mundo pós-guerra. O Irã, “caricatural e bárbaro” é, na realidade, uma riquíssima civilização milenar, sofisticada na era pré-islâmica que, com o advento do Islã, especificamente a partir da dinastia Abássida, passa a ocupar uma posição de vanguarda cultural do mundo islâmico. Graças, em grande parte aos iranianos, a civilização islâmica permaneceu, por cerca de 700 anos, como bússola cultural para a humanidade.
    Os iranianos, não obstante, o cerco feroz do Ocidente, incluindo boicotes, sanções, intensa propaganda falaciosa e constante ameaça militar sobreviveram a uma guerra sangrenta, redesenharam o mapa geopolítico no Oriente Médio, desenvolveram e diversificaram sua economia, possui uma cultura vibrante e uma indústria cinematográfica de altíssima qualidade.
    Como comparações são inevitáveis em tais situações, vejamos a situação no reino saudita. O país é controlado por uma tribo oriunda dos sertões inóspitos da Arábia central cujo poder se alicerça em uma versão radical do Islã sunita, surgida no século XVIII, com pretensões puritanas. Navega num `mar de almirante` por décadas, graças a receita fabulosa do petróleo, do controle das cidades-santas e a infinita boa-vontade de seus padrinhos norte-americanos. A dinastia saudita se mantem no poder por intermédio de um sistema clientelista e corrupto que sustenta a extravagancia já lendária de um clã beduíno auto-coroado.
    Aos campeões da democracia, que aliás, está em baixa no Ocidente, não esqueçam que há eleições no Irã. Contudo, se a versão xiita de democracia, baseado na doutrina religiosa do wilayat al faquir, não agrada aos arautos do “mundo livre” observem a situação deplorável na `Arábia dos Sauditas. ` No Irã as minorias religiosas, inclusive os judeus-iranianos, tem representação popular no Parlamento. O que dizer da situação das minorias na Arábia Saudita? Bom, lá as minorias ganham visibilidade e quando são decapitados em praça pública. Perguntem aos xiitas e sufis, que por qualquer desventura, habitam em terras sauditas. Para os que acham que existe exagero nas alegações de suporte financeiro e ideológico do sauditas a grupos extremistas, mais uma vez, a história recente, convenientemente esquecida, nos ensina que a moda radical, do Isis e congêneres, de explodir monumentos históricos, considerados pagãos ou hereges é cópia fiel da prática saudita de destruir criminosamente qualquer herança histórica que não esteja de acordo com a interpretação oficial do credo wahabita.
    O que dizer sobre o tratamento das mulheres? Ok, elas usam hijabs, niqabs entre outras vestimentas consideradas símbolos de opressão no Ocidente, mas mesmo `oprimidas` as iranianas são atuantes na esfera pública, são maioria nas universidades e pasmem sauditas e seus aliados: elas dirigem seus próprios carros! Enquanto isso na terra dos milhares de “príncipes” parasitários a situação das mulheres dispensa comentários. Poderíamos, num esforço de analogia, compará-las ao que os antigos romanos chamavam de instrumentum vocale (o instrumento que fala).
    Convém não esquecer da vasta legião de trabalhadores estrangeiros, homens e mulheres, que vivem em condições de servidão e vítimas de abusos inimagináveis no `paraíso` wahabi. Há relatos capazes de comover até as pedras mais duras. Talvez, devêssemos relativizar estas práticas nefastas e levar em consideração a história recente daquele país que se imagina como exemplo de religiosidade e rotula outros muçulmanos como hereges. Afinal, com doses cavalares de relativismo injetadas na veia poderíamos nos abster de fazer ilações óbvias, como por exemplo, relacionar o tratamento a trabalhadores no reino wahabita ao fato de que naquele país a escravidão tenha durado até a década de 1960!
    No entanto, ironias à parte, a realidade é que os sauditas usurparam o controle dos lugares-santos, no Hijaz, dos seus legítimos guardiães, a dinastia Hachemita, goste-se deles ou não. Por sua vez, os últimos receberam como prêmio de consolação a Jordânia, mais um país de faz-de-conta, entre outros no Oriente Médio, inventado pelos criativos britânicos sempre prontos para criar estados artificiais para seus amigos e aliados.
    Aos que destilam uma retórica iranofóbica, que tenta imputar os infortúnios da humanidade aos iranianos, seria mais benéfico para todos, que encorajassem os sauditas a realizar reformas profundas. No que diz respeito as acusações que buscam condenar a política externa iraniana em outros países da região, soam hipócritas e parciais com pitadas de ignorância. No Oriente Médio, as populações xiitas são minorias historicamente marginalizadas e perseguidas pela maioria sunita. Isto é indiscutível. Obviamente, esses arranjos mudaram nas últimas décadas principalmente pela conscientização das massas xiitas e o apoio decisivo do Irã. De quebra, a República Islâmica apoia resolutamente a criação de um estado palestino cuja solução implementação não ocorreu pela incompetência do nacionalismo árabe combinado com a hipocrisia descarada do Ocidente e o arsenal interminável de velhacarias do sionismo.
    Outrossim, as políticas de alianças e outras artimanhas geopolíticas no Oriente Médio e além são feitas desde do Dilúvio, mas isso não vale para os iranianos. A lista de países, envolvido em conflitos, governados por regimes de gosto duvidoso e que possuem arsenais nucleares e misseis balísticos é extensa. No entanto, estes países nunca se submeteram a algo parecido com o controle internacional que se impõe ao Irã.
    Por último, sobre a intervenção do Irã na Síria. O sequestro de uma rebelião popular por radicais, inclusive estrangeiros, vinculados ao jihadismo inerente ao wahabismo e aos interesses americanos e israelenses resulta na intervenção na Síria. Iranianos, xiitas libaneses e russos salvam o regime de Assad e derrotam os jihadistas e seus apoiadores, sejam eles conhecidos ou não. O conflito sírio torne-se em uma `escolha de Sofia`: o que seria pior? O regime baathista ou os jihadistas? Se não fosse o `expansionismo` persa, o `terrorismo` do Hezbollah e o `imperialismo russo`, a Síria se transformaria em uma miríade de emirados fundamentalistas e um natimorto protetorado curdo. Com as bênçãos dos EUA e bem ao gosto dos sauditas, emiratis e israelenses. A iranofobia, assim, se junta a outros produtos nefastos produzidos pela “Era dos Hipócritas.” A era que a história da caçada, infelizmente, ainda é contada pelo caçador, não pelos leões.

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