Itamar e a Geração Dunga na final da Copa do Mundo de 1994

Com os campeonatos de futebol parados, seguindo a programação esportiva para levantar a bola do Brasil de quarentena, a Rede Globo transmitiu hoje a final da Copa do Mundo de 1994. Mais uma conquista da seleção brasileira, que venceu o mundial sobre a Itália de Roberto Baggio.

No jogo truncado, o Brasil da dupla Bebeto e Romário dominou, mas não conseguiu marcar. Como ‘bola na trave não altera o placar’, o zero a zero levou a partida para uma tensa disputa de pênaltis.

A seleção brasileira não vinha de um grande momento. Havia começado mal as eliminatórias no ano anterior, empatando com o Equador por 0x0 e perdendo para a Bolívia por 2×0. A “Geração Dunga”, como ficou conhecida a seleção dos anos 90, sucessora das grandes equipes montadas por Telê Santana, sempre enfrentou muitas críticas.

Além disso, a tensão na disputa de pênaltis de 1994 ainda era aumentada pelos intermináveis paralelos com a traumática derrota do Brasil para a Itália na Copa de 1982, que eliminou a considerada ‘seleção das seleções’ com três gols de Paolo Rossi. Amarga lembrança de um ano amargo para o Brasil.

Dois meses depois da derrota para a Itália, o país enfrentou o ‘setembro negro’, resultado da crise da dívida dos países latino-americanos, o que submeteu o governo brasileiro a um acordo com o FMI. A conta do projeto de desenvolvimento da ditadura, baseado em crédito externo barato, que não mais existia, abertura descontrolada do país às multinacionais e extrema concentração de renda chegou com juros e correção monetária. Coube ao presidente Figueiredo o papel de coveiro do já agonizante nacional-desenvolvimentismo brasileiro, que, ao fim, não resistiu à vulnerabilidade externa a que foi submetido após a traição das Forças Armadas ao país em 1964 em conluio com a burguesia bandeirante.

Mesmo com duas Copas de distância da ‘tragédia do Sarriá’, como foi batizada a fatídica derrota do Brasil para a Itália em 1982, em referência ao nome do estádio espanhol que sediou o jogo, o fantasma dos gols de Paolo Rossi eliminando a seleção de Cerezo, Sócrates, Falcão, Junior e Zico assombrava aquela disputa de pênaltis de 1994.

Toda essa pressão que pesou sobre os ombros de Romário, Márcio Santos, Branco e Dunga na cobrança de pênaltis podia ser menor se, em 1986, a seleção de Telê Santana tivesse se redimido da tragédia anterior. No entanto, fora eliminada pela França nas quartas de final, justamente numa disputa de pênaltis, com ninguém menos que Sócrates e Júlio César perdendo suas cobranças. Uma tristeza, mas, pelo menos dessa vez, o trauma do futebol nacional tinha sido amenizado pela prosperidade momentânea experimentada pelo povo brasileiro após o lançamento do Plano Cruzado, em fevereiro daquele ano.

Em resposta à explosão inflacionária herdada do período militar, o novo presidente, José Sarney, mudou a moeda do país, fixando o câmbio e congelando os preços, o que deu a ele imensa popularidade em seu início de mandato. O resultado político disso foi a acachapante vitória do PMDB nas eleições estaduais daquele ano, elegendo 22 governadores do partido e dando origem ao pemedebismo, cujos efeitos foram sentidos até 2018. Já o resultado econômico, todos sabemos o que ocorreu tão logo se fecharam as urnas.

O time de Romário e Bebeto também poderia ter tido dias melhores se, em 1990, a Copa do Mundo na Itália tivesse sido vencida pelo Brasil. A falta de resultados do futebol arte de Telê Santana em duas Copas fez a seleção brasileira optar pelo futebol sem arte de Sebastião Lazaroni, que deu menos resultados ainda: Brasil eliminado pela Argentina nas oitavas de final.

No mundo político, naquele período tínhamos na presidência Fernando Collor de Mello em seu terceiro mês de governo, aplicando uma fórmula para conter a inflação que parecia ter sido criada numa reunião entre Paulo Guedes e Pol Pot. Da parte de Chicago veio abertura econômica indiscriminada, privatização indiscriminada, redução da máquina pública indiscriminada. Da Kâmpŭchéa, o confisco indiscriminado dos depósitos bancários (incluindo aí os em conta corrente com o capital de giro das empresas).

Quase uma década de hiper-inflação predispõe o país a acreditar em todo tipo de mandinga econômica. Zélia, PC, Globo, Pedro, supositório, Elba, a volta da inflação galopante e Zeca Pagodinho cantando: “Eu vou botar teu nome na macumba/Vou procurar uma feiticeira/Fazer uma quizumba pra te derrubar/Oi, Iaiá”. Conhecemos bem o filme e a trilha sonora.

“Partiu Baresi, pé direito… beteeeeeuuu! Pra fora e muitooo!” – berrou Galvão Bueno naquele primeiro pênalti batido em 94, perdido pela Itália tricampeã de Paolo Rossi. Festa aqui na casa da minha vizinha. Pelo palavrão que saiu logo em seguida, creio que ela tinha se esquecido que Pagliuca defende o chute seguinte, de Márcio Santos, e tudo volta à estaca zero na sequência de cobranças.

Zero a zero no tempo normal, zero a zero na disputa de pênaltis, zero a zero também no campo político, que tinha tentado reiniciar o processo eleitoral tirando Collor e colocando no lugar o discreto mineiro, Itamar Franco, para conduzir o país até a próxima eleição.

Itamar e a Geração Dunga na final da Copa do Mundo de 1994

Itamar iniciou a carreira política, em 1958, no PTB de Juiz de Fora. Com o golpe, filiou-se ao MDB, sendo eleito prefeito de sua cidade por duas vezes e senador também duas vezes. Como não conseguiu a indicação do partido para concorrer à sucessão de Tancredo ao governo de Minas Gerais, migrou para o PL, mas foi derrotado. Isolado fora do, agora, PMDB, conseguiu voltar ao cenário das disputas nacionais se aliando ao então desconhecido governador de Alagoas, Fernando Collor, de quem foi vice na chapa vitoriosa à presidência em 1989.

Ideologicamente, Itamar sempre foi um político ligado à questão nacional e defensor do protagonismo do Estado na economia, como sempre mostrado não só em sua filiação inicial ao PTB, mas, especialmente, em sua atuação no senado durante os governos Geisel, Figueiredo e Sarney. Os percalços na conjuntura local que o levaram a associação com Collor, quando este ainda nem era mencionado nas pesquisas eleitorais, não mudaram algumas convicções, o que o fez ficar totalmente isolado no Palácio do Jaburu, até 1993.

Apesar do papel esperado do governo Itamar ser o de conduzir o país sem instabilidades políticas até a eleição do ano seguinte, o consenso em torno da saída de Collor, aliado ao fato de não haver possibilidade de reeleição, permitiu a ele organizar um governo livre de algumas pressões eleitorais e coeso na solução de problemas emergenciais. Mas nenhum problema era mais emergencial que evitar o caos da hiper-inflação que o país enfrentou no fim do governo Sarney. Foi nesse contexto que foi gestado o Plano Real.

Apesar do domínio político dos paulistas na elaboração e negociação do plano, o governo Itamar não era homogêneo e a implantação do Real refletia, em alguma medida, as tendências presentes dentro dele. A história oficial do Plano Real dá pouco relevo à atuação de Itamar e, quando o apresentam, é para apontar um bruto que atrapalhava a execução se opondo a privatizações e tentando impor controle de preços. A história não-oficial, elaborada pelos opositores do Plano, também oculta alguns aspectos importantes desse período, ao não mostrar a intensa disputa interna que ocorria no governo entre dois grupos com posições distintas em diversos pontos centrais.

Essa disputa só foi de fato vencida com o golpe da reeleição, que afundou o projeto ‘Itamar 98’, levando o grupo derrotado no plano nacional a se organizar em torno do governo de Minas. Foram saudosos os anos dos históricos comícios na Praça da Liberdade tomada de bandeiras vermelhas, dos funcionários da CEMIG promovendo um forró dançado em cima da bandeira estadunidense na porta da empresa, do patrocínio ao Congresso da UNE em BH com direito a palestra de Fidel Castro no Mineirinho, do calote de Minas na dívida externa[1], da cena de Itamar em trajes militares na represa de Furnas, ameaçando desviar o rio com dinamite se FHC privatizasse a empresa[2] e do governador discursando no colóquio da ATTAC:

O governador de Minas, Itamar Franco (PMDB), chega a Paris na segunda-feira (18). Ele é o convidado de honra do colóquio internacional que a Associação pela Taxação das Transações Financeiras para a Ajuda dos Cidadãos (Attac) realizará nos próximos dias 23 e 24 na cidade de La Ciotat, sul da França, perto de Marselha. A ‘resistência à política econômica do FMI’, ‘a ditadura dos mercados financeiros’ e o ‘caráter despótico e nefasto da Organização Mundial do Comercio (OMC)’ serão os principais temas dos debates. (…) O presidente da Attac, Bernard Cassen, igualmente diretor do jornal ‘Le Monde Diplomatique’, justificando hoje o convite ao colóquio que formulou ao governador mineiro, declarou à Agência Estado: ‘Itamar Franco encarna o Brasil que disse ‘não’ ao FMI. São raríssimos hoje no mundo os responsáveis políticos de estatura nacional que ousam, como ele, assumir uma posição de resistência ao neoliberalismo dominante e desastroso’. Segundo Cassen, no pronunciamento que fará na sessão plenária do colóquio, dia 24, o governador ‘explicará por que Minas se insurgiu contra a política do FMI adotada por Brasília e destinada a recolonizar o Brasil e condenará o programa de privatizações’.”[3]

Mas, lá em 1994, no retrato pregado pela grande mídia, Itamar era apenas o líder da República do Pão de Queijo, que se deixou fotografar no Carnaval ao lado de uma modelo que não usava calcinha e que vivia de atrapalhar os racionais gestores da nova ordem, a ‘Geração Dunga’ destinada a ocupar o Planalto por 20 anos, como profetizava Sérgio Motta.

Roberto Baggio chutou pra fora e o Brasil se sagrou campeão mundial depois de longos 24 anos de espera. Da cabine de transmissão, Galvão Bueno bradou emocionado o tetra abraçado ao Rei, e futuro ministro do governo FHC, Pelé, que vestia uma gravata nas cores da bandeira nacional dos EUA. Uma singela homenagem aos anfitriões.

[1] https://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc2601200002.htm

[2] https://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc1310199906.htm

[3] https://www.folhadelondrina.com.br/geral/itamar-e-convidado-de-honra-em-encontro-na-franca-212093.html

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