JONES MANOEL: Lênin e a ‘frase revolucionária’

Quando comecei a estudar o marxismo, gostava muito de alguns teóricos de uma certa tradição marxista brasileira. Com o tempo, porém, algo começou a incomodar. A toda conjuntura, não importa o que o acontecimento ou a correlação de forças, a proclamação era sempre a mesma: a ontonegatividade da política e a necessidade de ocupar as fábricas e parar a produção (György Lukács não tem responsabilidade nenhuma por isso).

Note, é óbvio que na luta de classes, ocupar fábricas e parar a produção é uma tática fundamental. A questão, porém, é que falar “temos que ocupar as fábricas” é não dizer, na prática, nada. De qual ramo industrial estamos falando? Qual sua localização geográfica? A composição social do operariado? A experiência sindical? Nível de consciência? Enfim, dizer que precisamos ocupar as fábricas sem falar de MEDIAÇÕES TÁTICAS, pensar CONCRETAMENTE no como, é não dizer nada – uma abstração vazia.

Por exemplo, é conhecido como muitas fábricas em Pernambuco saíram dos grandes centros urbanos, como os bairros operários de Paulista, e foram para beira de BRs, longe da dinâmica de bairros e possibilidade de solidariedade comunitária. O que essa reestruturação geográfica das fábricas muda na aplicação dessa tática? (para ficar apenas em um exemplo).

Não responder essas perguntas – ou pior, não fazê-las – é uma forma fácil de simular análise política. Não tem nada de “análise concreta de situação concreta”. Não é política no sentido leninista da política.

Claro que em algumas situações, é fundamental debater no nível dos princípios, defendo em maior grau de abstração, uma política radical contra perspectivas conciliatórias e reformistas. Mas quem apenas fica proclamando palavras radicais, sem nunca tocar na materialidade da sua realização, comete o desvio que Lenin chama de “frase revolucionária”.

Análises que nunca conseguem pensar a ação política, caminhando do céu para o céu sem tocar na terra, são tudo, menos marxismo. É uma espécie de sociologia com conceitos marxistas. Mas está bem longe do marxismo.

Dito isso, leiam V. I. Lenin e estudem a sua realidade concreta!

Lênin e a frase revolucionária

Deixe uma resposta