JONES MANOEL: Lênin, a Internacional Comunista e a questão negra

Diversos pensadores do século XX apontam que Lênin significou uma ruptura fundamental no marxismo: pela primeira vez na história do movimento operário, seu principal líder (o Lênin depois de Outubro de 1917) coloca a questão colonial e a exploração da maioria da humanidade no centro da sua crítica e atuação política. Como se sabe, só com a Revolução de Outubro, a URSS e a Internacional Comunista é que o marxismo se torna realmente mundial com a constituição de várias organizações comunistas sendo criadas na Ásia e África.

Com influência direta de Lênin, em 1922, a Internacional Comunista lança o histórico documento “Tese sobre a questão negra”. No documento, dentre outras coisas, se destacam três aspectos fundamentais: a) o racismo é uma arma de divisão da classe trabalhadora e unidade burguesa; b) o racismo é um instrumento fundamental para potencializar a exploração da classe trabalhadora; c) o racismo é fundamental para produzir e legitimar a violência estatal contra a classe trabalhadora no geral e a população negra em especial.

Essas três afirmações, que hoje parecem óbvias, na época não eram. O mesmo documento afirma a ligação histórica orgânica entre liberalismo, escravidão, acumulação primitiva de capital e o racismo na transição e consolidação do capitalismo nas sociedades periféricas. Novamente, hoje isso parece óbvio, mas no começo do século XX não era.

JONES MANOEL Lênin, a Internacional Comunista e a questão negra
Cartaz soviético dos anos 1930: “O Grande Lênin ilumina nosso caminho” (traduzido do russo)

A conclusão da IC era que em países de origem colonial, como Brasil e Estados Unidos, era IMPOSSÍVEL pensar a LUTA DE CLASSES sem a QUESTÃO RACIAL. Por isso, o PCB e o PCUS, especialmente durante a década de 1920 do século passado, foram cobrados duramente sobre seu trabalho na luta antirracista.

Lênin e a IC, bem longe do Brasil e 100 anos atrás, entenderam a centralidade da questão racial na luta de classes em países de origem colonial com capitalismo dependente.

Hoje no Brasil, 100 anos depois da “Tese sobre a questão negra”, há quem afirme que a questão negra ou a luta antirracista é “identitarismo”. E acha que afirmar em abstrato a posição estratégica da classe operária é defender a centralidade de classe do marxismo.

Estão, apenas, 100 anos atrasados. Um dia chegam lá!

O documento da IC de 1922: https://www.marxists.org/portugues/tematica/1922/11/30.htm

Identidade, identitarismo e a crítica marxista das opressões:

1 Comentário

  • Parece que essas Teses não eram de Lenin, mas foram propostas por Otto Huiswoud, nascido no suriname e fundador do PC americano. Mas ainda assim interessante: as Teses são realmente valiosas.

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