Lewis Hamilton e o racismo na Fórmula 1

Nos recentes atos antirracistas, motivados pelo assassinato de George Floyd, tem chamado a atenção o posicionamento de grandes celebridades negras esportivas pelo mundo. Talvez a grande novidade é o posicionamento de um piloto de Fórmula 1. Nesse caso, é Lewis Hamilton, primeiro e único piloto negro da categoria, hexacampeão, inglês, que recentemente conclamou seus colegas do meio a se posicionar. Resultado: vários pilotos se posicionando pelo “black lives matters”, a própria categoria lançando a campanha “we race as one” e a equipe de Lewis, a alemã Mercedes, dominante nos últimos anos da categoria, expressando a disposição em defender essa política dentro da equipe. Simbolicamente, até mesmo mudou as já consagradas pinturas das Flechas de Prata para a cor preta (carinhosamente, pantera negra para alguns).

Esse provavelmente é um movimento inédito da Fórmula 1. Se posicionar politicamente em qualquer tema é muito pouco usual no esporte. Pode-se dizer até mesmo que é um assunto proibido nas entrelinhas. A razão disso? Precisamos primeiro entender a categoria.

Lewis Hamilton e o racismo na Fórmula 1
Foto: Mark Thompson / various sources / AFP)

A Fórmula 1 é provavelmente o esporte mais caro do planeta. Pois não envolve somente o atleta em si, a disputa entre pilotos, mas é uma competição tecnológica, de engenharia, com grandes e famosas montadoras do mundo. Um atleta não pode ter sucesso sem um bom carro e custa caro tê-lo. O menor orçamento de uma equipe de Fórmula 1 em 2019 foi o da Williams, em torno de 440 milhões de reais. Para Mercedes e Ferrari, equipes que mais gastam, esse valor passa de 1,5 bilhão de reais. E cada equipe comporta 2 pilotos. Sem falar nos custos de realização de cada evento. Quanto aos pilotos, dois requisitos são essenciais para se alçar e se manter na categoria: talento e dinheiro.

As equipes vivem de patrocínio e o piloto pode ser um dos responsáveis por levar esse aporte para sua equipe. Se tornou bastante comum pilotos conseguirem uma vaga, em detrimento de outros, por serem capazes de abarcar uma quantidade maior de recursos. Lance Stroll é o exemplo extremo atualmente. Ele é o atual piloto da equipe Racing Point que, recentemente, após quase falir, foi comprada pelo seu pai, o bilionário canadense Lawrence Stroll. Certamente, 10 em 10 pessoas que acompanham a Fórmula 1 não acham exagero afirmar que Lance está na categoria principalmente porque o pai é dono da equipe. Não somente Lance Stroll, mas também pilotos já teriam sido substituídos por outros com mais habilidade esportiva, se o critério único fosse talento. Entretanto, bom destacar, que há sim pilotos que estão lá por puro talento, geralmente muito acima da média. É o caso de Lewis.

Outra característica importante para entender a Fórmula 1 é que, por envolver competição, dinheiro e montadoras, a categoria é recheada de disputas políticas. Como qualquer atividade comercial do mundo, vive o dilema dos altos custos, que têm afastado equipes e tornado a competição desigual. Assim, é muito difícil para uma equipe que está no topo abrir mão da sua vantagem financeira mesmo para favorecer o esporte. Para as montadoras, a Fórmula 1 não é só um laboratório, mas uma vitrine comercial. O domínio da categoria reflete-se diretamente na imagem dentro do mercado automobilístico. Atualmente, o donos da categoria têm tentado a duras penas mudar esse cenário, sempre sofrendo a resistência das grandes equipes.

Esse ambiente fundamentalmente comercial, de extrema competição, que é regido por quem tem os recursos, é um ambiente propício para o silenciamento de todos os profissionais, de mecânicos a pilotos. Ou seja, um piloto se posicionar fora do script, pode significar um caminho mais complicado na categoria e no próprio ambiente de trabalho da equipe. A não ser que ele seja capaz de apresentar uma das duas coisas mais importantes para um piloto se manter ali, como já mencionado, dinheiro ou talento.

Voltemos então a Lewis Hamilton. Ele tem muito talento, sendo um dos maiores gênios da história da categoria. Sempre foi tímido no início de carreira, mas quase faturou o primeiro mundial em sua primeira temporada, superando seu companheiro de equipe pela Mclaren, o espanhol bicampeão Fernando Alonso, piloto sensação da época, considerado o mais completo e com potencial para ser um dos melhores da história. No ano seguinte, Lewis foi campeão superando o brasileiro Felipe Massa, da Ferrari. Mas o principal salto na carreira, veio quando foi para sua equipe atual, a Mercedes. Tinha a missão de substituir ninguém menos que o alemão Michael Schumacher, o piloto com mais títulos da história, e liderar um projeto que prometia ser vitorioso. E foi. Lewis, conquistou desde então seus outros 5 títulos na carreira, estando a 1 de igualar em números o até então insuperável heptacampeão Schumacher. Bateu vários recordes, piloto disparado com maiores poles positions na história e estando a 8 de ser o maior com número de vitórias. Esse ano pode se tornar em números o maior piloto da história da Fórmula 1.

Lewis Hamilton e o racismo na Fórmula 1

Até então, durante toda a sua carreira, uma coisa passou praticamente despercebida: Hamilton é negro. Ele chegou a comentar esporadicamente sobre racismo que já sofreu antes de chegar na F1, sobre ser um piloto negro. No círculo da categoria, nunca se soube de um relato ou mesmo queixa de Lewis de ter sofrido algum tipo de racismo. No máximo manifestações odiosas de torcedores. Provavelmente porque dentro do círculo da Fórmula 1 não duvidavam do seu talento, sempre foi bastante respeitado, era um piloto fora da curva. Sempre desejado pelas equipes, recebeu todo apoio e incentivo, tinha talento suficiente para isso. Sendo assim, não existe racismo na Fórmula 1? A resposta é não. Pelo menos não da maneira que se imagina.

Porque para manter-se na Fórmula 1 é difícil. Agora chegar lá é muito mais. E é onde Lewis provavelmente mais sentiu o que é ser um negro em um mundo onde a classe mais alta é branca. Nas categorias de base, a criança (sim, a carreira se inicia na infância) precisa de muito recurso para poder competir. Não é barato andar de kart nem para um adulto que quer brincar no fim de semana, imagina para bancar uma criança fazer isso várias vezes. Então a criança precisa ter uma família bastante abastada ou no mínimo um mecenas para que haja uma possibilidade de ao menos praticar o esporte. Lewis era rico então? A resposta é não. Hamilton era filho de operário. Parece uma narrativa do icônico seriado de “Todo Mundo Odeia o Chris” mas seu pai Anthony Hamilton chegou a ter três empregos para patrocinar a carreira do filho. Isso para que ele corresse com os piores equipamentos, mais desgastados e mais velhos. Ainda assim, Hamilton se mostrava um prodígio, um fenômeno no kart. Sofria rejeição e bulling na escola, tendo que aprender karatê para se defender e aprender a conviver com o preconceito.

Lewis é inglês. Mas seu ídolo, pasmem, apesar de vários grandes pilotos ingleses na categoria, é o brasileiro Ayrton Senna. Quando criança e em boa parte da carreira da Fórmula 1 correu com um capacete amarelo muito semelhante ao do lendário capacete de Ayrton, essa imitação não era coincidência. Talvez por isso, quando criança, num ato ousado para um menino tímido, encontrou com Ron Denis, chefão da equipe Mclaren, e disse que um dia queria correr para ele. Mclaren é a equipe inglesa onde Ayrton se tornou lenda. Ron pediu para ligar em 10 anos. Pois foi ele quem ligou pra Lewis. Foi então contratado e patrocinado desde então para seguir carreira nos monopostos. Assim, de categoria a categoria, vencendo todas elas, chegou à Fórmula 1.

Lewis não é unanimidade em seu país. O maior piloto inglês da história, sempre orgulhoso de carregar a bandeira britânica, não é o mais idolatrado por lá. Dizem que é porque ele mora em Mônaco, paraíso fiscal, para não pagar imposto. De fato, faz sentido, uma vez que patriotismo por lá é muito mais que bandeira. Entretanto, outros pilotos ingleses mais amados como Nigel Mansell ou Jenson Button fizeram a mesma coisa de morar em paraísos fiscais. Dizem também que sua origem dentro da Inglaterra influenciou seu jeito de falar e postura, sendo considerado fora dos padrões ingleses. Ser patriota também parece um caminho rugoso por lá.

Pois se a Fórmula 1 não é um ambiente explicitamente racista, o caminho para chegar lá certamente sim. A trajetória é racista e classista, como é normalmente a história de pessoas pobres negras que se tornam rara exceção de sucesso em alguns ambientes esportivos. O caminho para a Fórmula 1, não é um caminho que pessoas pobres podem fazer normalmente. Acontece, mas é uma raridade. Piloto negro operário então, mais raro ainda, é único. E isso não vale somente para pilotos, mas para engenheiros, mecânicos, técnicos e os profissionais que trabalham nas fábricas e no circuito. E a categoria, mesmo não se expressando de forma racista, certamente silencia.

Hamilton sempre foi muito tímido em se posicionar. Ultimamente tem se envolvido em campanhas pelo meio ambiente, se solidarizou com as queimadas na Amazônia, mas a própria categoria, seguindo uma tendência de mercado, já segue essa linha, adota motores híbridos (combustão é elétrico). Também aderiu ao veganismo. E hoje ele só pode se posicionar sobre um tema tão espinhoso para a fórmula 1 como o racismo porque ele está no topo. E mesmo quando começou a ser mais incisivo no movimento “black lives matters”, Bernie Ecclestone, que comandava a Fórmula 1 antes de ser vendida para a Liberty Media (atual dona), reagiu recentemente aos atos de Lewis afirmando que “algumas vezes, pessoas negras são mais racistas que brancas”.

Ainda bem que Lewis hoje é maior que do que Bernie já foi. Ele tem planos de interferir diretamente na categoria de base, de modo a pensar como dar acesso a pessoas com poucos recursos ao esporte, missão essa muito difícil. Engenheiros e mecânicos, na pista ou na fábrica, também são parte do esporte e precisam ser alvos dessa política. Mas há um movimento na categoria graças a Lewis. Ele é o cara da Fórmula 1. Mas ainda não é a cara, já que a cara da Fórmula 1 é branca. E o caminho para chegar lá é racista e classista.

Por Diogo Ikeda
Engenheiro Mecânico e Mestre em Engenharia Mecânica, piloto amador de kart, entusiasta da Fórmula 1

Colaboração e revisão: Thiales Barbosa Madalena, Luis Felipe Noronha, Rafael Casaril

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