O liberalismo e a invisibilidade do poder

Eu dizia ontem que o liberalismo é uma falsificação da realidade. De um ponto de vista objetivo, não há qualquer consistência filosófica ou científica nos fundamentos principais da visão liberal de homem e de sociedade.

Qual o sentido em falar de um indivíduo “cartesiano”, iluminista, ou atomizado, singular e anterior a qualquer internalização sócio-cultural? Que verdade há na ideia de Contrato Social, seja para falar das origens, natureza ou funcionalidade dos grupos humanos?

Nunca houve um tempo em que os homens não tenham vivido em coletividades, internalizando a partir de experiências compartilhadas todo um mundo de significados. Filósofos como Quine duvidam até da viabilidade de se falar de “dados sensoriais primários”, já que desde sempre a percepção é acompanhada de linguagem, e a linguagem veicula um mundo de nomes, prenhe de uma metafísica específica. “Há muitos mundos diferentes/muitos sóis diferentes/e somos um só planeta/mas vivemos em mundos diferentes”.

O homem é o único animal verdadeiramente humanizável.

Mesmo a afirmação muito mais restrita de que o individualismo é uma forma de recorte epistemológico falha miseravelmente diante da âmbito próprio do fenômeno social, que diz respeito sempre a uma realidade partilhada. Comunitaristas notaram que a pessoa pressupõe uma comunidade e portanto de vínculos significativos entre sujeitos.

Não tendo qualquer valor como explicação do mundo social, o liberalismo se estabelece tão somente como ideologia, no sentido alienante que o termo pode adquirir. É uma superimposição destinada a criar determinado experimento social por meio do combate sem tréguas às comunidades orgânicas, justamente aquelas que fornecem os referenciais que permitem a construção da identidade pessoal.

Desse modo, não há exagero algum em considerar o liberalismo como um projeto despersonalizador e desumanizador. Nele, o ser humano é mutilado dos laços que lhe capacitam a entender seu lugar no mundo dos homens, e se torna um vazio, desvinculado de religião, sexo, gênero, classe, família, todos estes fatores sendo lidos pela ótica do “contrato”. O indivíduo é um número sem singularidade, uma peça descartável e intercambiável similar à do processo fordista.

O que resta desse sujeito é apenas a paixão, o desejo incessante que é hiper-estimulado pelo marketing. É a partir dessa sede ontológica, só passível de ser satisfeita no mercado, que o liberalismo impulsiona o refazimento artificial do indivíduo — a pessoa mutilada cujos vínculos de sentido se tornaram irrelevantes sob a ideologia do contrato –, vinculando sua necessidade de ser ao imperativo da participação em “nichos de consumo”.

A liberdade prometida pela ideologia liberal militante, que se afirmou por meio da violência política contra as instituições e sociedades tradicionais, sempre foi apenas uma “sensação” passageira, uma transição para o férreo grilhão da “identidade-marca” proporcionada pelo consumismo.

Para Marx, as liberdades individuais proclamadas pelo liberal-capitalismo — e que em alguns escritos ele se recusou a chamar de “democracia”, preferindo o termo “República’ — possuíam um caráter positivo exatamente por serem uma ficção. A liberdade formal aceleraria a consciência da escravidão diante da inexistência da materialidade dessa liberdade mesma.

Assim, a ficção jurídica serviria a uma forma de tomada de consciência da opressão social. Toda vez que um policial entrasse atirando em uma favela do Rio, invadindo casas e fazendo visível a nossa Casa Grande e Senzala, o expropriado e o despossuído estariam mais próximos de compreender a opressão real em que viviam.

Marx subestimou o potencial de alienação do liberal-capitalismo. Nenhuma ideologia foi tão eficiente em tornar invisível o poder. Expropriando o sujeito não só de propriedades mas também de identidade, o novo tipo de sociedade modelou os grilhões mais poderosos já vistos a fim de manter os homens no reino da necessidade, vendida doravante como a única esfera em que a liberdade pode ser exercida e reconhecida.

Mesmo uma autora liberal como Arendt captou a contradição de uma vida pública que é marcada pela prisão do consumismo e do economicismo, numa inversão do ideal de democracia da Antiguidade Clássica, em que o homem, para ser considerado livre e entre iguais na praça, tinha de superar os liames que o prendiam à vida doméstica, ou seja, à luta pela sobrevivência. Se Arendt já havia percebido que a democracia liberal inventou uma nova dimensão da vida, e que ela vai chamar de “social” [invasão da esfera pública pela vida privada e econômica], o que diria de um momento em que a própria discussão tida por política se dá com curtidas em redes sociais, cujos donos vendem informações para empresas, órgãos de inteligência, e realizam de maneira plena a abolição da distinção entre público-privado que alguns diziam ser o perigo do Estado fascista?

Ao politizar tudo e reduzir o todo politizado à economia, o liberal-capitalismo se revela como o maior dos totalitarismos.

Os próprios direitos políticos são aceitos no liberalismo na medida em que se tornam irrelevantes. Em sua gênese revolucionária, os liberais limitaram a esfera de participação política. Até o sufrágio, signo da participação no novo conceito de democracia representativa inaugurada pelos Estados europeus, foi limitado por mecanismos censitários. A teoria da duplicidade de vontades entre eleitores e representantes, bem como o mandato imperativo, geraram uma teoria da representação ‘aristocrática’ em pleno mundo liberal-capitalista. Ou melhor, plutocrática. O sufrágio universal só se afirmou nos países do Ocidente após a segunda guerra mundial, depois de quase um século de pressões de uma militância orientada pela sociologia do conflito.

Mas a democracia de massas, intermediada pela grande mídia e pela nova burocracia dos partidos financiada por contribuições empresariais em campanhas multimilionárias, permite que tudo seja discutido pelos cidadãos-consumidores, desde que eles não possam efetivamente decidir coisa alguma.

A chave para a livre-expressão é que as opiniões sejam dadas dentro de um consenso liberal, e que as diretivas do Estado não sejam fortemente influenciadas por irrupções populares. Quando isto acontece, há um impasse, já que o núcleo do sistema não foi construído para a intromissão do povo. [dois exemplos recentes: a recusa das elites políticas e sociais em flexibilizar o acesso a armas no Brasil ainda que a população tenha se recusado a legitimar o circo midiático feito para consagrar o desarmamento; ou a aparente incapacidade inglesa de levar a efeito os resultados do plebiscito que decidiu pelo Brexit.]

Pois para se fazer uma democracia, não importa apenas que qualquer um possa dizer qualquer coisa – e nem isso podem – e sim que tenha alguém no poder disposto a ouvir a reivindicação. Sem isso, a participação popular se limita a referendar o sistema periodicamente, fazendo da eleição pouco mais que a vivência coletiva de um pseudo-mito de inauguração do Estado.

É irônico que liberais pretendam monopolizar o termo democracia, como se ele não fosse mais antigo, como se não existissem outros parâmetros para que ela seja construída, e ocultando os limites férreos e o descompromisso histórico que sempre possuíram com o conceito. Pois tudo no liberal-capitalismo é instrumentalização para o lucro, redução à mercadoria, fetichização, massificação, despersonalização e cacofonia.

Por: André Luiz Dos Reis.

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