Linchar não é a solução

Uma das manifestações de rua que participei e que mais encheu-me de esperança, mesmo com um número reduzido de pessoas, ocorreu em 2015 quando Eduardo Cunha, então presidente da Câmara dos Deputados, prometera trazer a pauta da redução da maioridade penal à baila. Nos dias seguintes aqui em São Paulo, na Avenida Paulista, marcou-se um ato contra a medida claramente demagógica e nele, ato, havia crianças, jovens, adultos e idosos. Muitas palavras de ordem bonitas reiterando como a vingança e o ódio não são a resposta pra nada. Um dos gritos era “prender não é a solução”. Eu vi ali um novo Brasil que parecia estar surgindo e que se diferenciava da tradição autoritária que marca fortemente nossa História.

Ledo engano.

Eis que agora com um vídeo de brasileiros na terra da Copa induzindo uma aparentemente russa a cantar músicas de teor sexual sem que a mesma soubesse do que se tratava ganhou as redes e também a indignação das pessoas. A indignação é justa. Justíssima. Tratou-se de um ato de muito mau gosto, uma ação deselegante que sempre foi tratada no Brasil como exemplo de irreverência, alegria e que por isso jamais foi colocada em pauta de maneira crítica. Além do evidente machismo da ação dos homens no vídeo, há também um caráter racista. É óbvio que é algo péssimo e deve ser condenado. A ação deve ser condenada e não as pessoas, porém. E aí está o X da questão: já se passou há muito tempo a linha entre condenar a ação e promover linchamento puro e simples, até mesmo com apoio de veículos jornalísticos engajados. Porque é claro que é um problema estrutural. E que não é nada novo. Na Copa do Brasil ocorreu inúmeros atos parecidos. A diferença, a única, é que não viralizou na internet. É uma questão que diz respeito à formação de todas as pessoas no Brasil. No entanto a visão punitivista e reacionária já prevaleceu: elegemos naqueles homens os culpados pelo machismo no Brasil, o feminicídio e precisamos acender as tochas e queimá-los pra purificar a nação.

É indiscutível que agir assim se trata de um grande erro que não corrige problema estrutural algum. Pelo contrário: só expõe mais ainda nossos dilemas, nossas mazelas, nossas vísceras. Essa víscera autoritária que acredita que tudo pode ser resolvido na violência e atropelando o bom senso. A mesmíssima fonte da compreensão anti-humanista que “bandido bom é bandido morto” e “que pau que nasce torto nunca se endireita” — daí a ideia de que não adianta dialogar, tem que acabar com a pessoa, porque se ela erra, ela não tem conserto. Essa visão, como todo problema estrutural, não está apenas num grupo político específico. Ela é geral. Como o machismo. Não adianta grupos associarem as pessoas do vídeo à direita e aos “homens de bem”, aquele famoso estereótipo do cínico conservador de classe média. Alguém em sã consciência acha que só pessoas de direita fazem algo parecido ou são machistas? Ora, isso é uma sub-narrativa que tenta auto-afirmar um grupo condenando o outro. Não é apenas equivocada como é moralista, porque acredita que resolver problema estrutural depende apenas da boa vondade e do caráter das pessoas. Disso se poderia concluir, por exemplo, que o problema da violência em países pobres e desiguais não é causado por essas mazelas. Mas porque as pessoas são ruins — e nos países ricos elas seriam boas, corretas, não importanto pois a educação, a qualidade de vida, enfim, os diversos fatores que compõem uma sociedade e a orientam. O mais fervoroso reacionário consentiria.

Um exemplo aleatório que vem também bebendo nessa tradição autoritária que desrespeita qualquer espaço de mediação é o discurso da anti-política, o antipetismo e a expressão político-judicial disso, a Lava-Jato. Crê se piamente que os acusados já são culpados de antemão, que não devem ter direito de se defender, de responder um processo justo, que os fins justificam os meios, que o estado de direito pode ser deturpado, que todo mundo é culpado a priori até que se prove o contrário. Quando vejo um conservador culpando o Lula por todos os problemas do Brasil que existem há séculos e quando vejo um progressista culpando os rapazes do vídeo infeliz por todos os problemas de gênero no Brasil e que em ambos os casos eles, tanto Lula quanto os envolvidos no vídeo, deviam ser imolados pra pagar por todos esses problemas eu não consigo deixer de ver a enorme semelhança entre os dois grupos e na forma que compreendem o mundo e agem.

É preciso pontuar também que parte considerável dos movimentos identitários no Brasil, que direcionam muitas vezes a reação a esses causos, inclusive com jornalistas militantes, tem uma compreensão liberal e conservadora a respeito desses dilemas. Há uma forte influencia da literatura estadunidense a respeito, numa ótica revanchista, igualmente conservadora e punitivista, que incide fortemente na maneira de enxergar essas questões. Juntou-se uma visão equivocada com uma tradição autoritária. O resultado não poderia ser diferente.

E é bastante emblemático que num país que grupos à esquerda e à direita, politizados e despolitizados, de gente que se diga humanista e anti-humanista, enfim, tudo junto e misturado que se entende por sociedade civil no Brasil clame por vingança, sangue, justiçamento, escracho, linchamento. Não é perdoado o acusado de machismo e nem o professor marxista, não se perdoa o político no restaurante e nem no aeroporto, não se tolera a cobertura da jornalista e nem quem critica o jornalismo, não se aceita até mesmo que algumas pessoas se não se juntem aos linchamentos públicos (aí ou você vira defensor de bandido, assassino ou defensor de machista). Não é surpreendente, como pontuou um amigo ontem, que o Bolsonaro esteja liderando as pesquisas. O Bolsonaro é a síntese perfeita desse Brasil 2.0 que todos se unem pra linchar em nome de um mundo melhor — seja pra supostamente eliminar a corrupção, o latrocínio ou o machismo.

Mas sempre lembrando: linchar não é e nunca será a solução.

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