Mackenzie censura palestras sobre diversidade e proíbe editoras “subversivas”

A Universidade Presbiteriana Mackenzie, uma das maiores do Brasil, surpreendeu a todos nesta semana ao proibir a participação de editoras na feira do livro organizada pelo Centro Acadêmico João Mendes Júnior (Faculdade de Direito). As editoras censuradas foram a Boitempo e a Contracorrente. Ambas lançaram uma nota repudiando a censura.

O Mackenzie, localizado no bairro do Higienópolis, ficou conhecido pelo apoio institucional aos arbítrios dos anos de chumbo. A instituição denunciou alunos, entregando-os às torturas dos porões da ditadura. Sua reitora, Esther de Figueiredo Ferraz, ordenou a sicários que agredissem os alunos da USP (localizada, então, em frente ao Mackenzie) por considerá-los subversivos. Tal reitora tornou-se ministra depois. Quem quer rir tem que fazer rir.

A guinada

Durante os governos do PT, a instituição remou conforme a maré. O Instituto Presbiteriano, ligado à Igreja Presbiteriana, em busca dos trocados advindos de programas educacionais como ProUni e FIES, colocou na reitoria um homem mais liberal e flexibilizou alguns arcaísmos que permeavam a universidade da Rua Maria Antônia. As faculdades também tiveram mudanças significativas.

Durante os primeiros quinze anos deste século, o Mackenzie viveu seus melhores tempos. O ambiente universitário minimamente aberto e plural trouxe grandes nomes do pensamento nacional para lecionar na Universidade. O movimento estudantil tinha autonomia necessária e conseguiu grandes vitórias, com negociações respeitosas e pouca ingerência da Universidade – e da Igreja Presbiteriana – nos debates no campus. Os resultados foram evidentes. A pesquisa triplicou, a colocação dos rankings idem. Atitudes inovadoras nasceram dentro daqueles muros (como este Portal, por exemplo). Parecia que finalmente a universidade cúmplice do golpe de 64 havia se aberto para uma educação moderna e para a democracia.

Com a guinada conservadora dos últimos anos, o passado da violência e do arbítrio voltam a rondar os muros do Higienópolis.

O arbítrio contra-ataca

Desde o ano passado, com o crescimento da candidatura de Jair Bolsonaro, alguns figurões ligados à Igreja Presbiteriana voltaram aos antigos hábitos. No começo deste ano, censuraram a “Semana do Empoderamento Feminino”, sem justificativa aparente. Logo após, ainda neste ano, censuraram a “Semana da Diversidade”, com a justificativa de que os temas eram “sensíveis aos princípios da Universidade”. Desta vez, passados os temas identitários, mais sensíveis de fato à fé cristã, o instituto mostra que sua preocupação vai muito além da preocupação com a “moral”.

As editoras Boitempo e Contracorrente são conhecidas por possuírem títulos de autores críticos e por organizararem traduções competentíssimas num mercado editorial tão feito ao beabá. Possuem também relevante produção na área do direito, inclusive dogmática. Durante a organização da feira do livro, evento tradicional do Centro Acadêmico João Mendes Júnior, os alunos foram surpreendidos com um veto expresso às duas editoras.

Além disso, os estudantes também reclamam de uma suposta “perseguição ideológica” que acarretaram em demissões de professores do mais alto gabarito sem motivo aparente, ocorridas no ano passado.

A censura aos eventos e às editoras, além de possíveis demissões políticas, são fatos graves a se denunciar diuturnamente. Este espaço lamenta que o Centro Acadêmico não tenha se posicionado firmemente na defesa da permanência das editoras e palestras, cedendo aos arbítrios da reitoria e do Instituto Presbiteriano. E lamenta, mais ainda, que uma Universidade tão importante conviva com ideais pré-iluministas e autoritários. Os mesmos que mancharam a Rua Maria Antônia de sangue, em 1968.

Confira a íntegra da nota das editoras:

Feira de Livros do Centro Acadêmico João Mendes Jr. | Nota de repúdio

Nesta semana ocorre a Feira de Livros do Centro Acadêmico João Mendes Jr., órgão representativo das alunas e dos alunos da Faculdade de Direito da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Da lista de editoras convidadas a participar da feira, duas foram vetadas pela Reitoria: Boitempo e Contracorrente. Duas editoras que, de maneira aberta e franca, estão engajadas na disseminação de pensamento crítico no Brasil, inclusive no âmbito jurídico, são justamente as atingidas pela decisão.

Segundo o Centro Acadêmico, a Reitoria assim o fez porque Boitempo e Contracorrente não trabalham com “livros doutrinários e legislação de uso acadêmico”. Talvez tivesse sido melhor não motivar a decisão, tamanho o absurdo. Ambas as editoras ostentam um consistente catálogo na área do Direito, composto, aliás, por obras de professores da Faculdade de Direito do Mackenzie.

Lamentamos profundamente a ocorrência de tal episódio no ambiente universitário, onde, por definição, deve prevalecer o pluralismo de ideias, e registramos publicamente o nosso mais veemente repúdio a este ato de censura.

Editora Contracorrente

Boitempo Editorial

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