Manhattan Connection: o início, o fim e o meio

Neste domingo, após quase 3 décadas no ar, o programa Manhattan Connection exibiu sua última edição transmitida pela rede Globosat.

O programa evidentemente é de sucesso. Contam-se nos dedos de uma mão as atrações que sobreviveram na caótica TV fechada brasileira.

Da formação inicial, sobraram Lucas Mendes e Caio Blinder. Lucas era chefe de redação da Globo em Nova Iorque desde a conversão “à esquerda”de Paulo Henrique Amorim e sua (in)consequente guinada. Mendes sempre deu o tom morno da conversa. Um piquenique de barões ao céu fechado da 3ª Avenida de NY. Caio Blinder, por sua vez, é um escuso professor de relações internacionais e eterno escada do programa. Sua função sempre foi defender o partido democrata e tomar paulada de Fracis, Jabor e Mainardi, em épocas distintas.

O programa sempre exigiu um polemista para temperar a pauta insossa. O primeiro deles era Paulo Francis.

Francis, um dos idealizadores de “O Pasquim” – e, provavelmente, a pena mais voraz do Brasil durante décadas – já se apresentava no programa da forma vulgar que a má velhice lhe ofereceu. O jornalista revolucionário, crítico de arde mordaz – preso uma dezena de vezes pela ditadura – dava lugar ao americanófilo ultraconservador. Ainda que velhaco, era um homem sofisticado. Francis, que morreu repentinamente, foi substituído pelo ex-cinema novo Arnaldo Jabor.

Jabor começou ali sua carreira de comentarista político que se consolidaria como voz passiva do jornal mais editorial das organizações Globo, o “Jornal da Globo”. Seu jeito teatral mal humorado trouxe ao programa um ar menos sofisticado e mais rabugento.

Fez também parte da bancada, desde o início, o incriticável Nelson Motta, de quem este escriba é fã assumido e não saberá tecer quaisquer comentários minimamente imparciais. Nelsinho é um patrimônio do Brasil e assim deve ser tratado.

Anos depois da morte de Francis, convidaram seu herdeiro intelectual para a vaga de protagonista, já que Jabor agora estava no Jornal da Globo. Diogo Mainardi, prêmio Jabuti e crítico de arte promovido à articulista político por Mário Sérgio Conti, deu o tom reacionário que havia arrefecido com a morte de Francis. Mainardi é inescrupuloso, antiético, provocativo e cínico. O homem perfeito para o cargo, em definitivo.

Somou-se ao plantel o faria-limer Ricardo Amorim. Alguém com pouco brilho e com aquele vocabulário de coach financeiro de Instagram.

O fim

O outrora sonho americano dava lugar ao programa desconectado da realidade contemporânea. As pautas eram cada vez mais frias e as análises cada vez mais obsoletas. A agilidade da vida digital exigiria um programa mais profundo. Não era e nunca foi. Se antes era um papo de pessoas cultas e bem informadas, a idade trouxe um excesso de vira-latismo e exigências maiores do que a capacidade de seus apresentadores.

Mainardi era um ressentido voraz, Mendes um senhor muito mais nova iorquino do que brasileiro e Caio Blinder parecia cada vez mais inofensivo, no mau sentido. Ricardo Amorim cumpria o papel de encantador do mercado financeiro. O “Primo Rico”, Youtuber, o substituiu no imaginário popular com maestria.

Por todas as dificuldades já citadas, não foi difícil para a Globo pôr fim ao programa. Em tempos de vacas magras, um programa de salários astronômicos para resultados modestos não cabia mais no orçamento. Provavelmente o antigo horário será ocupado por alguma sitcom barata, com atores acomodados em roteiros mal ajambrados e antiquados.

Ou seja, não mudará muito.

O meio

Os Manhattans acabaram sua estada na Globo com um programa muito melhor do que a média, com destaque para o último plano, em que a música de Frank Sinatra gritava uma Nova York sumindo ao fundo. Um velho clichê televisivo, mas simbólico neste caso.

No dia seguinte ao término, o próprio Diogo Mainardi, via O Antagonista, anunciou que o programa iria para a TV Cultura.

A Cultura vive dias mais tranquilos do que em outros tempos. O governador João Dória pode não entender nada de administração pública, mas entende minimamente de TV. Botou uma gama de executivos da velha guarda e a emissora passou a ter suas contas sanadas, podendo assim, investir em contratações como as de Vera Magalhães, Mário Sérgio Cortella, Luiz Felipe Ponde, Dani Lima, Marcelo Taz e etc. Para uma emissora que vivia em greve, é uma guinada e tanto. A audiência também pareceu dar sinais de vida, bem como a repercussão de seus programas nas redes sociais.

Segundo o próprio Mainardi, o programa já opera vendido. Uma prática normal do mercado. A emissora loca o horário para um programa que é operacionalizado com seus próprios patrocinadores, sem vínculo com a casa. Normalmente este procedimento ocorre muito com igrejas e programação religiosa.

Verdade ou não, a TV Cultura aparentemente se deu bem. Terá um programa consolidado por baixo custo e de quebra ainda pode arrumar umas inserções jornalísticas diretas, de Nova Iorque. A Globo se livrou de um programa caro e com resultado modesto para seus padrões. Os Manhattans receberam uma sobrevida e agora defenderão o liberalismo anti-estado dentro de uma emissora estatal. Os fins justificam os meios, neste caso, literalmente.

Por: Renato Zaccaro.

Neste domingo, após quase 3 décadas no ar, o programa Manhattan Connection exibiu sua última edição transmitida pela rede Globosat.

5 Comentários

  • Fascistas gourmet. A Cultura não pode ser casa desses trastes.

    0

    0

  • Chama disparada, mas podia chamar queixada de burro, calanquinho, xique-xique, Corisco, Caatinqueira, bem pé na poeira né?

    0

    0

  • São todos ótimos,em especial os comentários do jornalista q está na Itália, veneza

    0

    0

Deixe uma resposta