GILBERTO MARINGONI: Sem querer, Safatle converge para o caminho de Lula

Há um artigo de Vladimir Safatle circulando pela bolha progressista das redes sociais. Está colhendo variados elogios. Intitula-se “Como a esquerda brasileira morreu” e foi publicado pelo El País.

Safatle sempre merece ser lido, seja por sua inteligência e extensa cultura, seja por seu compromisso com a democracia e com as causas populares.

MAS ESSAS SUAS LINHAS não ajudam. Trata-se de um desabafo desanimado, mostrando a total incapacidade de a esquerda reagir à escalada fascista. Curioso é que o texto faz sucesso não apenas entre críticos do PT, mas entre apoiadores da agremiação do ex-presidente Lula.

Após valer-se da palavra “terminal” para classificar o atual estado das vertentes progressistas e falar de sua passividade diante da reforma previdenciária, o articulista escreve: “Isso é apenas um sintoma de que a esquerda brasileira não é mais capaz de impor outro horizonte econômico-político”.

Há trechos extremamente pertinentes, como este: “A esquerda governa estados, municípios grandes e pequenos, mas de nenhum deles saiu um conjunto de políticas que fosse capaz de indicar a viabilidade de rupturas estruturais com o modelo neoliberal que nos é imposto agora. Houve época que a esquerda, mesmo governando apenas municípios, conseguia obrigar o país a discutir pautas sobre políticas sociais inovadoras, partilha de poder e modificação de processos produtivos. Não há sequer sobra disto agora”.

SIM, É VERDADE A esquerda governa cinco estados da federação e neles mimetiza reformas pautadas pela extrema-direita no governo central. Destaque vai para Rui Costa, que fecha e privatiza escolas sem que seu partido emita uma vírgula sequer. Comportamentos como esses abrem espaço para que Bolsonaro governe praticamente sem oposição.

Além disso, o autor mostra a lassidão – quase beirando a cumplicidade – dos governos petistas diante dos crimes da ditadura, ao contrário do que ocorreu na Argentina, Chile e Uruguai. Isso contribuiu em muito para que a turma dos porões voltasse com energia redobrada ao Planalto.

O ARTIGO TERMINA com uma quase-sentença: “Numa situação como essa, a esquerda nacional ainda paga o preço de ter sido formada para a coalizão e para a negociação. Esse é seu DNA, desde a política de alinhamento do PCB aos ditames anti-revolucionários do Soviete Supremo. (…) Foi assim que ela morreu. Se ela quiser voltar a viver, toda essa história tem que chegar a um fim. Ela deverá tomar ciência de seu fim”.

A crítica ao PCB era usual nos primeiros anos do PT. Mas é algo genérico. Afirmar que um partido político foi formado “para a coalizão e negociação” não quer dizer muita coisa se não se detalhar a agenda e o programa que tal agrupamento persegue. Qual o programa do PT? Qual o programa da esquerda para o Brasil, além de austeridade fiscal e a esperança num novo boom das exportações? Fora do PT há algumas elaborações em curso.

AO NÃO PROPOR SAÍDAS ou esperanças, o artigo de Safatle se mostra reconfortante, no sentido do antigo ditado de mau gosto: “Se o estupro é inevitável, relaxe”.

Sim, Safatle nos convoca a relaxarmos, pois não há o que fazer. Qualquer inquietação, crítica ou tentativa de avaliar concretamente o que ocorreu nos 13 anos em que o PT governou o país não adianta de nada. “A esquerda morreu”, sentencia.

É curioso perceber que – de forma involuntária e com argumentos diversos – Vladimir Safatle nos leva ao mesmo beco sem saída proposto por Lula pós-prisão. Para o ex-presidente, seu partido não deve fazer autocrítica pelo desastre representado pelo governo Dilma II e pelo estelionato eleitoral. Em suas mais de trinta entrevistas ao longo do último ano, o ex-presidente nos incita a olhar para o passado, para como era boa a vida em seus governos (claramente ele exclui os de sua sucessora) e em como ele foi acusado e preso injustamente por querer apenas o bem do povo.

HÁ MUITO DE VERDADE no que Lula diz. Mas ao não apontar caminhos, ao não falar da vida concreta das pessoas e ao se dedicar essencialmente a montar chapas para prefeituras, Lula também convida todos à paralisia.

Ao não examinar criticamente o que foi feito num passado recente, quais as se torna impossível olhar para a frente. Ao dobrar a taxa de desemprego em dois anos (2015-16), o PT tem extremas dificuldades em sair ás ruas e divulgar seu excelente Programa Emergencial de Emprego e Renda. Sabe que será cobrado por suas ações que redundaram na tragédia no mercado de trabalho que vivemos hoje.

De forma inusitada, Safatle e Lula – involuntariamente, repito – confluem no niilismo e no desânimo que acomete grande parte dos setores progressistas hoje. Esse não é um bom caminho.

Por Gilberto Maringoni

7 Comentários

  • Maringoni, objetivamente, o que fazer para tirar a esquerda dessa condição de inércia? Logo, o Sr. , de forma inusitada, Safatle e Lula … confluem no niilismo e no desânimo que acomete grande parte dos setores progressistas hoje. Reconheço não ser tarefa fácil dada a complexidade num contexto globalizado. Daí que sugiro chamada à 6a. Internacional.

    1

    0

  • Eis um trecho dele: “A esquerda governa estados, municípios grandes e pequenos, mas de nenhum deles saiu um conjunto de políticas que fosse capaz de indicar a viabilidade de rupturas estruturais com o modelo neoliberal que nos é imposto agora.”
    Tá… e o Ceará? Será que o governo cearense não tem dado o retorno social, em matéria de saúde e de educação, que se é de esperar da esquerda? Será que tem deixado o dinheiro público à disposição do rentismo? Deixou de realizar investimentos em obras?
    Essa realidade político-administrativa não é representada por um candidato à presidência da República?
    A crítica dele é uspiana, do tipo que confunde o Brasil com São Paulo e a esquerda com o PT.

    1

    0

  • Culpar o PT pelo retrocesso econômico de 2015/16, quando o governo estava sequestrado pelo congresso, mídia, judiciário e elite empresarial, é desonestidade intelectual.

    1

    0

  • No Festival dos 40 anos do PT, em seu discurso, Lula reconheceu o grande erro do PT: se afastar de sua base. Ele chegou a dizer que mais importante do que pensar nas eleições é o partido olhar para e lutar pelos desfavorecidos, pelos moradores de rua, pelos desempregados que hoje precisam trabalhar de Uber, pelas mulheres em situação de vulnerabilidade (principalmente as mulheres negras), pela comunidade LGBTQI++. Confesso que não esperava ouvir isso dele, mas saí de lá com esperança. Acima de tudo, ele falou da importância de se mostrar aos jovens e a todos que desistiram da política que não há solução para sairmos dessa situação, a não ser fazendo política. E nesse sentido ele chama toda a sua base para dizer o que espera da política e, principalmente, a participar das transformações necessárias. Ele ainda fechou sua fala falando a importância de apoio a novas lideranças políticas. Achei importante destacar isso. Não vamos conseguir mobilizar as pessoas falando mal da própria esquerda em redes sociais. Precisamos nos concentrar nos movimentos de base e no que temos em comum, deixando nossas diferenças de lado. Não se trata de saber quem deve chegar ao poder, mas sim de acabar com os jogos de poder! Apenas um modelo coletivo, voltado para potencialidades e representatividade efetiva poderá nos tirar desse caos. O resto é mais do mesmo.

    1

    0

  • Precisamos construir um NOVO CONSENSO MOBILIZADOR democrático e anti-fascista, articulando as principais lideranças vivas dos movimentos sociais.

    0

    0

Deixe uma resposta