JONES MANOEL: Marxismo anticolonial, contra-história e contra-hegemonia

O nosso amigo Althusser trabalhava com o conceito de problemática para pensar o “corte epistemológico” na obra de Marx. Esse negócio de “corte epistemológico” é equivocado, mas tem algo interessante na reflexão do francês.

Althusser pensa problemática como um conjunto de conceitos e categorias que se articulam de forma específica criando determinada forma de compreender a realidade. Não é só sobre as respostas, mas também – e talvez principalmente – sobre que perguntas são feitas.

No meu mestrado eu peguei essa reflexão de Althusser para pensar a questão da hegemonia.

A questão não é disputar as formas ideológicas, correntes de opinião, temáticas ou conceitos de sucesso hoje – todos articulados num determinado plano de fundo teórico-metodológico e cultural.

A questão real é apresentar um todo alternativo, não só novas respostas, como novas formas de pensar os problemas. Destruir um quadro referencial de pensamento criando outro. Nesse processo, a leitura da história joga papel central.

O ponto fraco hoje da ideologia dominante é o foco quase exclusivo na história do século XX a partir da realidade europeia e estadunidense. A partir disso se conta a história do liberalismo, keynesianismo, experiências socialistas, Estado de bem-estar social, neoliberalismo, crise de 2008, democracia, republicanismo, liberdades etc. A história da periferia do sistema não é bem uma história, mas um acessório sem significação teórica, política e epistemológica na hora de pensar a realidade.

Contar a história da modernidade burguesa com centralidade da questão colonial e da periferia do mundo é não só “recuperar uma história esquecida”. É bem mais que isso: é atuar no sentido de destruir o quadro referencial, a hegemonia dominante, no caminho da construção de outra.

Por isso que autores comprometidos com a reconstrução do movimento comunista, como Domenico Losurdo, Jean Salem e Michael Parenti ou líderes de revoluções anticoloniais, como Amilcar Cabral, Frantz Fanon e Thomas Sankara, tinham tanta preocupação com a disputa da história.

A história é, digamos, a base da contra-hegemonia. Sem uma contra-história é impossível pensar seriamente numa contra-hegemonia (ou outra hegemonia).

Nesse sentido, falar em marxismo anticolonial não é uma contradição ou um exotismo. Assim como não tem qualquer relação com decolonial, pós-colonial ou essas modas acadêmicas.

Marxismo anticolonial é destacar a necessidade de um processo de destruição criativa de marcos referenciais da ideologia dominante a partir de uma análise a contrapelo da história, colocando a questão colonial no centro do balanço da modernidade burguesa.

As resistências são compreensíveis. Inclusive dentro do próprio marxismo. Mas vão ser superadas. Simbora!

JONES MANOEL Marxismo anticolonial, contra-história e contra-hegemonia

3 Comentários

  • Gostei do texto. Mas você poderia me dar um exemplo do que é o marxismo anti colonial? O marxismo em si não já é anticolonial e contra hegemônico?

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  • Matheus, talvez você possa procurar pelo artigo “Como nasceu e como morreu o ‘marxismo ocidental'”, de autoria de Domenico Losurdo, em que ele expõe como e por que o marxismo ocidental abdicou de denunciar o colonialismo, ignorando a contra-história anticolonialista.

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