Memórias do jogo de 2002

Com os campeonatos de futebol do país parados por causa da quarentena, a Rede Globo transmitiu nesse domingo, em seu horário tradicionalmente reservado ao esporte, a final da Copa do Mundo de 2002, ocorrida em 30 de junho daquele ano. Em tempos de crise pandêmica com tenebrosas perspectivas de futuro, rever junto a milhares de compatriotas o pentacampeonato do Brasil sobre a Alemanha foi um alento, comemorado por todo o país, inclusive com extemporâneos fogos de artifício em diversas cidades.

Mas a imagem dos dois gols de Ronaldo e de Cafu levantando a taça trouxe outras lembranças, da época em que a camisa amarela da seleção ainda não tinha sido tirada da nação brasileira para fins pouco nacionais. E diante do atual funesto cenário político do país, cujo símbolo maior é justamente a camisa surrupiada do povo, não foi possível evitar a memória política daquele outro período, quando, no Brasil, as articulações para as eleições presidenciais de 2002 se intensificavam.

No começo de junho, as pesquisas mostravam Lula na liderança isolada da preferência dos eleitores, com 43% das intenções de voto, seguido do candidato do governo, José Serra, com 21%, Anthony Garotinho com 16% e Ciro Gomes, em quarto lugar, com 11%. Em 22 de junho, um dia após o Brasil eliminar a Inglaterra nas quartas de final por 2×1, com um gol de Ronaldo e um de Rivaldo, Lula leu a histórica Carta ao Povo Brasileiro, na qual se comprometia com a manutenção da política econômica do governo FHC.

No fim de julho, o cenário se alterou complemente, com o candidato da Frente Trabalhista tendo uma surpreendente subida nas pesquisas. Dizia a matéria do Datafolha, que trouxe pesadelos a todo o consórcio PTucano, indo do Planalto à Avenida Paulista, passando por São Bernardo do Campo, que:

O candidato da Frente Trabalhista (PPS-PTB-PDT) à presidência, Ciro Gomes, continua em curva ascendente e está a cinco pontos de Luiz Inácio Lula da Silva (da coligação formada por PT-PL-PCdoB-PMN-PCB), que, por sua vez, encontra-se em curva descendente, mostra pesquisa realizada pelo Datafolha nesta terça-feira, 30 de julho de 2002.[1]

Na pesquisa, Ciro aparecia em segundo lugar com 28% das intenções de voto e Lula havia caído para 33%. Serra aparecia em terceiro lugar, com 16%, seguido por Garotinho, com 11%. Essa pesquisa agitou os salões e Ciro virou, imediatamente, alvo.

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Em 20 de agosto, a Folha de São Paulo trazia a manchete: “Após encontro com Lula, banqueiros cogitam até apoiá-lo no 1º turno”:

Os banqueiros e economistas que participaram hoje de um encontro com o candidato à Presidência pelo PT, Luiz Inácio Lula da Silva, saíram satisfeitos com as afirmações feitas pelo presidenciável sobre o sistema financeiro.
‘’Ele se superou. Se houvesse aqui hoje uma eleição entre ele e o Ciro [Gomes, candidato da Frente Trabalhista], o Lula levava’’, disse o representante de um banco estrangeiro.
Alguns dos presentes também comentaram a situação do candidato do governo José Serra (PSDB). ‘Se o Serra continuar caindo e chegar a 8% nas pesquisas, tem gente aqui que já vota no Lula no primeiro turno mesmo’’, disse o representante de um outro banco após o encontro.
Entre os banqueiros com os quais a Folha Online conversou, não houve nenhum que se manifestasse contra o candidato petista. ‘O encontro foi muito bom. Acho que os dois lados ficaram muito surpresos um com o outro’, afirmou um representante de um dos cinco maiores bancos de varejo do Brasil.
[2]

No dia seguinte, a Folha relatava outro encontro de Lula, dessa vez na Federação Brasileira das Associações de Bancos: “Banqueiros elogiam Lula após encontro na Febraban”[3]

Da parte da campanha de José Serra, de acordo com relatos de Ciro Gomes, além de reuniões fechadas com setores da elite articuladas por FHC para tentar minar a candidatura trabalhista, ainda teria sido montado um comitê multidisciplinar que identificou possíveis fragilidades a serem exploradas no adversário. Os episódios mais conhecidos conseguidos por essa “força-tarefa”, que foram amplamente utilizados pela campanha de Serra e reproduzidos à exaustão por todos os veículos de comunicação, além de pautar as entrevistas de Ciro (na verdade, pautam as entrevistas do político aos grandes órgãos de mídia até hoje) foi o fato de ter chamado um ouvinte de uma rádio de burro e a fala infeliz sobre o ‘papel da esposa na campanha’, ambos os eventos ocorridos na última semana de agosto. E no dia 30 daquele mês, a nova pesquisa mostrou o reflexo dessas movimentações: Lula havia subido para 38%, Ciro tinha 20% e estava em empate técnico com Serra, que aparecia com 19% das intenções de voto, seguido de Garotinho com 10%.

Até o fim da campanha, Ciro passou respondendo praticamente apenas sobre esses dois eventos em entrevistas, criando a imagem do “destemperado” que o deixou em quarto lugar no primeiro turno daquela eleição, ocorrido em 6 de outubro de 2002, quando a Folha de São Paulo estampou uma manchete tranquilizadora para a pax bandeirante: “FHC dá apoio a Serra, mas faz acenos a Lula”[4].

Com o conhecido resultado do segundo turno, os novos gestores do neoliberalismo seguiram firmes em seu projeto até a Copa das Confederações realizada no Brasil em junho de 2013, que serviu como teste para realização da Copa do Mundo de 2014, quando a seleção brasileira foi eliminada pela Alemanha na semifinal por 7×1, com gols de Müller, Klose, Khedira, Schürrle e Kroos, estes últimos marcando duas vezes cada. Pelo Brasil, o gol foi feito por Oscar aos 45 do segundo tempo.

[1] http://datafolha.folha.uol.com.br/eleicoes/2002/07/1198880-ciro-chega-a-28-e-se-aproxima-de-lula-sem-garotinho-ocorre-empate-tecnico-entre-os-dois-candidatos.shtml

[2] https://www1.folha.uol.com.br/folha/dinheiro/ult91u53901.shtml

[3] https://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc2108200218.htm

[4] https://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc0610200211.htm

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