Museu Nacional em chamas: o Brasil sem história e sem projeto

Em tempos sombrios da história do Brasil, no qual assistimos a destruição dos direitos trabalhistas, sociais, das empresas nacionais, da Constituição Federal, mais uma perda irreparável: o Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, é consumido pelas chamas de um incêndio de grandes proporções, que representa o verdadeiro descaso com a memória, história e ciência desse país.

Fundado por Dom João VI em 6 de junho de 1818, o museu, que completou 200 anos este ano, foi tema do samba-enredo da escola de samba Imperatriz Leopoldinense no carnaval carioca. Os três andares da mais antiga instituição científica e museu brasileiro, abrigam um acervo de 20 milhões de itens, com os mais relevantes registros das ciências naturais e antropológicas da memória do Brasil, incluindo documentos da época do Império; fósseis, como o de “Luzia”, o mais antigo esqueleto humano já encontrado nas Américas e um esqueleto gigante de uma baleia Jubarte; coleções de minerais; o meteorito Bendegó, o maior já encontrado no país; e a maior coleção egípcia da América Latina, que começou a ser adquirida pelo imperador Dom Pedro I.

incêndio no museu nacional na quinta da boa vista no rio de janeiro

O Museu Nacional, desde 1892, localiza-se no interior do parque da Quinta da Boa Vista, Rio de Janeiro, no Palácio de São Cristóvão. O local, de 1808 a 1821, abrigou a família real portuguesa e, de 1822 a 1889, foi residência da família imperial brasileira. Além disso, foi sede da primeira Assembleia Constituinte Republicana, de 1889 a 1891. O edifício é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Ele é, atualmente, subordinado à UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e há tempos passava por dificuldades ocasionadas pelo corte em seu orçamento de manutenção. Desde 2014, a verba destinada à instituição pelo governo federal, no valor de R$ 550 mil anuais, não era integralmente repassada. Em 2015 o Museu teve até mesmo que ser temporariamente fechado pela ausência de pagamento aos terceirizados dos serviços de vigilância e limpeza.

orçamento do museu nacional no rio de janeiro
Fonte: Folha de São Paulo

Os sinais de abandono já eram perceptíveis, com goteiras, infiltrações, salas vazias, paredes descascadas, fios elétricos expostos, área de visitação reduzida – menos de 1% do acervo estava exposto, e o público recebido estava muito abaixo da capacidade. Para reabrir uma das salas mais importantes do acervo, onde está o Maxakalisaurus topai, conhecido como “dinoprata”, primeiro dinossauro de grande porte já montado no Brasil, o museu anunciou até mesmo uma “vaquinha virtual” na intenção de arrecadar recursos junto ao público.

Em maio deste ano, Alexander Kellner, diretor do Museu Nacional já alertava sobre as condições do local. Vinha tentando audiência com a Presidência da República, sempre sem sucesso. Na mesma época, a UFRJ afirmou que todos os esforços para garantir o funcionamento do museu estavam sendo feitos e que, ainda, estavam buscando outros meios de obtenção de recursos, como um financiamento de R$ 20 milhões do BNDES para garantia de uma restauração.

Aliás, o último presidente a visitar o Museu foi Juscelino Kubitschek, em 1958.

A Fapesp, outro exemplo de instituição que tem lutado para sobreviver em meio à falta da destinação de recursos orçamentários, divulgou uma minuciosa reportagem, na ocasião dos 200 anos do Museu, onde constam detalhes a respeito da magnitude e importância do seu acervo.

A destruição da residência da família real, do local onde foi assinada a Independência, onde ocorreu a primeira Assembleia Constituinte Republicana, e todo um incrível acervo reunido ao longo de 200 anos, é a concretude insofismável da destruição do Brasil que está sendo levada a cabo por um governo ilegítimo e pelas forças políticas hegemonizadas pelo capital financeiro internacional. Este incêndio é diretamente causado pela política orçamentária neoliberal, de ajuste fiscal nos gastos públicos com investimentos produtivos, sociais e culturais.

Ao invés de combater os privilégios de corporações desproporcionalmente remuneradas como o Ministério Público e o Poder Judiciário, e os ganhos financeiros privados gerados por uma política de juros absolutamente descolada das necessidades econômicas brasileiras, os governos brasileiros, de esquerda e de direita, insistiram nos “ajustes” fiscais realizados apenas sobre os setores menos remunerados e, paradoxalmente, mais importantes do funcionalismo público, como professores e pesquisadores, e também nos gastos mais básicos, como manutenção dos prédios dos órgãos responsáveis pela preservação e divulgação da cultura nacional.

O triste fato é que o Museu Nacional em chamas é a metáfora perfeita do momento político, econômico e social brasileiro. O Brasil é hoje um país no qual suas elites dirigentes, estatais ou não, sequer têm consciência de sua própria história. A importância da preservação da memória e da cultura nacional, não é apenas para a educação e criação da identidade de um povo, mas para que uma nação pense sobre si mesma, e projete um futuro melhor para seu povo. A ausência de um projeto nacional para o Brasil é, ao mesmo tempo, causa e consequência da destruição da história, da identidade e do futuro nacional.

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