Museu Nacional, não tinha água para apagar o incêndio

Estive no Museu Nacional na Quinta da Boa Vista, zona norte da cidade do Rio de Janeiro.

Resolvi ir ao Museu triste que estava pela perda de seu acervo de maneira tão drástica e possivelmente evitável. No dia anterior ao dia em que cheguei ao Rio para um pequeno descanso de cinco dias devido ao recesso escolar na USP relativo à semana da pátria tomei conhecimento de um ato convocado pela comunidade da UFJR em apoio à Universidade e ao Museu.

Estava na dúvida se ia ou não ao Rio devido às comemorações do dia 7 de setembro no Museu do Ipiranga que prometiam ser muito interessantes. E como este semestre ministro uma disciplina sobre o distrito do Ipiranga estava bastante interessada no significado simbólico desse lugar. Tinha interesse de participar das festividades.

As notícias desde o domingo, dia do incêndio, principalmente as veiculadas pela rede Globo, buscavam os responsáveis pela triste tragédia que atingiu o Museu. E a certa altura do noticiário na madrugada acusavam a direção da UFRJ como responsável pela tragédia. E eu decidi que iria ao Rio e verificaria no local os limites dessa tragédia. O Rio é minha segunda cidade por afeto, pois tenho família que visito com frequência, aproveitando sempre para visitar lugares significativos da urbanização da cidade, bem como de sua história.

Mas o Museu não era qualquer lugar, era o depositário do maior acervo sobre a nossa civilização, sobre o Brasil, América Latina, em diversos campos da ciência e da cultura.

Fica localizado no bairro de São Cristóvão ao lado do estádio do Maracanã, na Quinta da Boa Vista, cujo parque era referência de lazer para a população da zona norte. A população que usava a área verde e aproveitava as visitas para levar as crianças a mergulharem no mundo do conhecimento, com animais pré-históricos, meteoritos, insetos, mapas, esqueletos, objetos de arte e utensílios da nossa cultura antepassada.

img museu nacional após incêndio
Lago da Quinta da Boa Vista. Foto por Rosana Miranda

Um lugar rico. 200 anos, 20 milhões de peças. Cultura e ciência num só lugar. Local da assinatura da nossa primeira Constituição em 1824.

O edifício construído no topo de uma colina de um parque bem ajardinado e projetado como um jardim de um grande palácio encomendado por Dom Pedro II ao paisagista francês Auguste Francois M. Glaziou em 1862 era atração por si só. Podia ser observado de todos os locais do jardim em localização privilegiada. Uma construção do século XIX onde residiu a família real no período de 1822 até 1989, depois de sua primeira moradia no Paço Imperial na Praça XV, e que ajudou a desenvolver a ocupação da cidade no sentido norte ocupando e buscando as terras planas em direção ao canal do mangue.

museu nacional após incêndio
Prédio do Museu Nacional. Foto por Rosana Miranda

Hoje sua localização ao lado da estação de Trem e do Metrô de São Cristóvão era um local de fácil acesso para a cultura e o lazer. Só me dei conta dessas facilidades agora nessa visita. Também agora me dei conta da importância e do tamanho do acervo pelo noticiário após o incêndio.

Visitei o acervo uma única vez, em 2015, depois de estudar a transferência do paço imperial e interessada no papel do museu para o desenvolvimento da região. Fiquei encantada com as salas dos mapas das cidades coloniais do Brasil e de outras colônias de Portugal. O esqueleto do dinossauro por si só já era a atração maior e os insetos de diferentes formatos e idades. Um encantamento em cada sala.

Cheguei ao Rio com um sentimento de luto, querendo fazer o que fosse preciso para ajudar a recuperar o acervo. Ao saber do ato da UFRJ resolvi ir ao local, pois sabia que poderia chegar perto do Museu e ver com meus próprios olhos os fatos. Ao chegar ao parque de táxi tive que passar por uma barreira policial, que só permitiu a entrada do carro pois eu ia à reunião. O motorista do táxi me comoveu ao ficar em silêncio e me dizer quando estávamos chegando ao edifício que ele estava bem abalado e teria um “treco” de tanta tristeza de estar ali. Pois frequentava com sua família e estava muito triste com o que tinha ocorrido. Isso já me deixou mais triste do que já estava e disse a ele que eu estava indo para aquela reunião em defesa da Universidade e do Museu e que se ele quisesse poderia ficar também. Conversei com uma funcionária da UFRJ e lhe expressei que minha vontade era sentar no chão e separar fragmentos e comparar com fotografias para ajudar no resgate do acervo em meio aos escombros. Emocionei-me com seu cuidado e delicadeza e choramos juntas, estavam todos em luto, e ela me informou que qualquer iniciativa de ajuda deveria ser enviada através de um e-mail para o endereço falecomdiretor@mn.ufrj.br e fotos ou documentos devem ser enviados para http://museunacional.ufrj.br/memoria

Assisti ao ato que, na verdade, era um ato de resistência em defesa da UFRJ, responsável por administrar o Museu e que vinha sendo atacada pela grande mídia com se tivesse negligenciado os cuidados com o Museu.

A mesma Universidade que no dia do incêndio teve seus pesquisadores e funcionários colocando em risco a própria vida para salvar peças e acervos de pesquisa com suas próprias mãos.

Foi um ato político singelo, mas com muita emoção e que terminou com uma dança folclórica e com a participação dos indígenas da aldeia Maracanã.

Depois do ato fotografei o edifício do Museu o mais próximo que pude e vi com tristeza as janelas vazadas, sinal que o conteúdo já se fora.

Prédio do Museu Nacional devastado pelo incêndio. Foto por Rosana Miranda
Prédio do Museu Nacional devastado pelo incêndio. Foto por Rosana Miranda

Os bombeiros que chegaram ao local rapidamente, não venceram o fogo porque não havia água nos hidrantes próximos ao Museu e se não houvesse um belo lago nos jardins do palácio talvez a demora fosse maior ainda.

Os edifícios antigos que naturalmente se tornam museus e locais de guarda e gestão de acervos carecem de tecnologia para evitar riscos. Mas, sobreviveram por longos anos acumulando conhecimento e cultura. A legislação avançou e a preservação do patrimônio exige que se adotem soluções especiais que não descaracterize o patrimônio preservado.

Tenta-se culpar os gestores das universidades e os órgãos de patrimônio como obstáculos para a modernização dos edifícios museológicos. Mas, por trás dessas investidas, está um projeto de privatização das universidades públicas e de redução do papel dos órgãos de preservação que inúmeras vezes são a resistência à depreciação e destruição das referências históricas e culturais e paisagísticas de nossas cidades contra os interesses mesquinhos de mercados.

Iniciativas de dedicados funcionários adaptavam soluções temporárias para a preservação do acervo do Museu Nacional, como a notícia de que os pesquisadores vaziam vaquinhas para pagar o transporte do pessoal da limpeza. Só servidores públicos conscientes do seu papel social tomam medidas desse tipo mesmo diante da redução drástica de recursos financeiros.

A visão neoliberal que pretende atingir o papel do Estado naquilo que de mais precioso é sua função de preservar a cultura e o conhecimento, o que significa a independência e autonomia no campo da ciência e tecnologia, ameaça às instituições nos momentos trágicos, as quais levaram anos construindo pesquisas e uma politica cultural.

A falta de água num momento tão crucial que só levou ao combate do incêndio após três horas mostra em que estado se encontra a companhia de água do Rio, CEDAE, cuja lei de privatização foi imposta pelo governo federal para fornecer ajuda financeira para o Estado do Rio de Janeiro.

O mecanismo é sempre este, se deixa os órgãos sucateados, sem servidores, sem novos concursos públicos e sem recursos financeiros para depois justificar sua privatização, principalmente as instituições que podem ser de grande lucro no mercado privado devido ao grande volume de atendimento.

Isso acontece ainda no Brasil na contramão do processo de reestatização que vem ocorrendo na Europa.

O governo federal sem se responsabilizar pelo repasse de recursos que deixou o Museu Nacional com um orçamento pífio nesse ano edita a medida provisória que cria uma agencia nacional como solução mágica que pretende tirar da UFRJ a gestão do Museu Nacional e estingue o Instituto Brasileiro dos Museus para futuramente entregar sua gestão para OSs. ( Organizações Sociais não governamentais).

Essa é uma medida de reorganização da Universidade que fere sua autonomia e separa a atividade de pesquisa da atividade de gestão, o que coloca em risco o desenvolvimento da ciência e tecnologia das áreas que se desenvolvem a partir dos acervos e contribuem para a organização e guarda dos mesmos.

Os museus ligados às universidades são fontes de pesquisa e as pesquisas retroalimentam a atividade museológica, esse fluxo não pode depender de tecnocratas e empresários fora do âmbito da Universidade. Em nome de uma comoção nacional pela perda de um dos mais importantes museus do Brasil buscam-se soluções quixotescas em nome de eficiência gerencial, sem ouvir a comunidade acadêmica de ciência e tecnologia.

Diante desse quadro considero de grande importância à defesa da UFRJ na gestão do Museu Nacional, pois se trata de instituição cabalmente competente para cuidar desse acervo com as medidas de: 1) aumento e fixação de recursos mínimos anuais voltados para essa atividade, 2) com o aumento do quadro de funcionários através de concursos públicos para que se formem novas gerações de pesquisadores e museólogos, o mesmo valendo para o fortalecimento dos órgãos de preservação de patrimônio cultural artístico paisagístico e cientifico do Brasil.

A preservação, a guarda e a gestão da cultura e da ciência é atribuição do poder público por excelência, pois se trata do interesse de todos e não podem ser geridos pelos interesses de alguns. É a identidade de um povo e sua independência que está em jogo.

A tão propalada gestão privada mostrou-me a sua má eficiência na estação do metrô de São Cristóvão onde o lixo se amontoava na porta da estação logo após as rampas de acesso,  com o trem e o metrô privatizados no Rio, é evidente o desrespeito para com a população que transita pela aquela estação tão popular e tão importante para a acessibilidade ao Museu Nacional.

Por Rosana Helena Miranda, arquiteta e pesquisadora em urbanismo e memória. Professora Doutora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo.

 

 

 

 

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