Neoliberalismo e futebol: como o poder do dinheiro está matando o jogo

Não existe síntese melhor dos efeitos do neoliberalismo que o futebol. Até 1995 os jogadores, os direitos federativos deles, pertenciam aos clubes, havia leis rígidas de transferência e limites de estrangeiros. Após a Lei Bosman em 95 e a consolidação da UE, com abertura total, isso acabou: jogador como mercadoria tem fluxo livre. A partir disso o jogo mudou para sempre.

E qual seu maior retrato? A discrepância, a desigualdade. Todos os principais craques do mundo atuam em meia dúzia de times que ano após ano partilham entre eles os principais campeonatos — para o resto, os farelos. Na Espanha só Real Madrid e Barcelona com o Atlético correndo por fora (em 14 temporadas, 13 títulos ficaram entre a dupla e só 1 com o Atlético); na Itália vem de um hexa a Juventus; na Alemanha, o Bayern vai para o hexa pela primeira vez; em Portugal só Benfica e Porto ganharam nesta década; e sobra a Inglaterra, a única liga mais nivelada.

Mas se há problemas, e há, são evidentes, ainda falamos do centro do capitalismo futebolístico. A coisa é desastrosa porém quando se olha para a periferia da bola: na América do Sul, que até 20 anos tinha times tão bons quanto europeus, atua a quarta divisão do futebol. Times médios já não conseguem mais competir com os grandes porque a discrepância também está entre nós. E os pequenos, sobretudo os do interior, estão morrendo.

Vocês não percebem a desgraça? O esporte mais democrático de todos, o mais fantástico, a melhor criação da humanidade está se esfacelando, está se afastando dos rincões e se concentrando só em grandes centros. Eis o produto mais bem acabado do neoliberalismo.

E é bom inclusive pra entender como as pessoas podem aceitar um estado tão absurdo de coisas, como torcedores de times que antes brigavam por canecos hoje se conformam com tão pouco. É o esporte sendo vendido como espetáculo, a glamourização, o fetiche e a propaganda. Não são poucos os amigos de esquerda, por exemplo, que babam toda semana com o Barcelona impiedosamente vencendo seus adversários fragilizados por 6 a 0 na Espanha. Ora, isso é tudo menos esporte.

Não é diferente na sociedade como um todo. Fomos sendo convencidos na sociedade da espetacularização, inclusive do que é ruim, de que as mazelas estão aí pra serem aceitas. E vamos aceitando passivamente…

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