O triunfo de Nietzsche, ou a esquerda esquizofrênica e neurótica

Nietzsche é um dos pensadores mais citados por intelectuais de esquerda, mas será a finalidade nietzschiana compatível com aquilo que a esquerda diz defender em seus discursos? Vivemos hoje o triunfo de Nietzsche, com a criação publicitária de “novos valores”, logramos substituir o telos da razão pelo telos da vontade e a humanidade está à serviço do 1%.

1. Telos
O significado frequente da palavra grega télos é finalidade última, termo, perfeição, direção para a qual se move a realidade. A palavra traz um sentido de atividade, de decisão daquele que no exercício do seu livre arbítrio resolve tomar determinada direção, algo que se move e não é movido.

Temos alguns exemplos na História da Filosofia: a República de Platão, a Cidade de Deus de Agostinho, Utopia de Moore, Paz perpétua de Kant, o ‘comunismo’ de Marx e Engels ou o ‘estágio científico ou positivo’ de Comte.

2. Nietzsche
Nietzsche também tem um telos. O telos não é necessariamente um conceito derivado da razão, pode ser derivado da superação da razão e satisfação da vontade. A negação da razão e dos valores da modernidade são substituídos pela vontade de poder e pelos valores vitais.

Trata-se da superação de uma humanidade obsoleta que acredita na igualdade, pela realização do super-homem, livre das amarras racionalistas, agindo para satisfação do ‘eu quero’ em busca de saciar sua vontade de poder sem culpa. Nesta trajetória, o reconhecimento da diferença é inevitável e a afirmação da igualdade uma artificialidade construída pelo autoritarismo da razão. O natural é a diferença e o reconhecimento do mais forte como senhor, a moral dos nobres submetendo o mais fraco, o incapaz.

Nietzsche não é um niilista, ele não quer o nada, mas propõe a realização de valores vitais, no lugar dos valores racionais universais. Ele não tem vontade de nada, uma vontade deprimida e inerte, mas uma vontade de vida, de poder, livre de toda a culpa artificialmente imposta por uma razão que nos queria escravos.

A apropriação de Nietzsche por Foucault nos oferece uma interpretação de Nietzsche como irracionalista e niilista. Foucault enfatiza a crítica à razão e convenientemente esquece do projeto nietzschiano que nada mais é do que a realização da lei do mais forte.

3. Não é telos
O telos não é e não se confunde com um conceito transcendente, posto de fora, não se confunde com destino, providência ou predestinação. Portanto, é equivocada, para não dizer desonesta, a tentativa deliberada de confundir os dois conceitos. Telos não é transcendente, não é posto ou imposto por alguém externo à humanidade, por Deus, por exemplo.

Mesmo a Cidade de Deus de Agostinho depende do livre arbítrio, quando o cidadão peregrino ama o que deve amar cumprindo o mandamento.
Telos também não se confunde com ordem. O mover ordenado não é necessariamente direcionado, mas tem na própria ordem seu sentido sem buscar qualquer finalidade, por exemplo, a dialética hegeliana.

O telos é acima de tudo um projeto, muitas vezes irrealizável, mas que cumpre o papel de motivar e justificar ações, políticas e medidas no sentido do telos.

4. O triunfo de Nietzsche
Vivemos hoje uma sociedade que realizou o telos nietzschiano. Nietzsche triunfou, abandonamos os valores racionais, universais, necessários, a priori. Jogamos fora o telos racional e no lugar colocamos o telos da vontade que valoriza a diferença e age sem culpa. Vivemos sob a lei do mais forte.
Vivemos hoje a liberdade permitida pelo 1%.

Controlam nossas informações, manipulam opiniões, fomentam desejos e consumo, ocupam nosso tempo com distrações e trabalho ininterrupto, alimentam cada minuto do dia com imagens. Não sabemos seus nomes e seus patrimônios, os Estados não os alcançam, não são tributados ou detidos em sua ganância e voracidade por recursos naturais. Sua influência sobre os governos é imensa, impedem a regulamentação de suas atividades, corrompem agentes públicos e manipulam eleições. Estão acima da lei.

Enquanto isso, aqueles que abandonaram o telos racional e os valores da modernidade vivem orgulhosamente sua ilusão de liberdade, aquela parcela de liberdade permitida pelo 1%. O usuário é livre para desejar e não ter dinheiro para consumir, é livre para dizer e não ser ouvido ou ser ouvido apenas pelos seus. A ilusão da liberdade é alimentada diariamente pelas mídias sociais – se é que podem ser chamadas de sociais – que hipnotizam e anestesiam. A inteligência artificial é programada para encontrar padrões de comportamento e afogar as pessoas em uma avalanche de falsas opções, enquanto recolhem cada dot de informação sobre suas vidas. Posteriormente, esta informação serve para fomentar mais consumo e desejos, manipular opiniões e pensamentos.
Nesta pequena parcela de liberdade também é permitido ocupar o seu tempo (e o tempo dos outros) com a afirmação da diferença, a exposição de suas peculiaridades, a demanda por aceitação, a preocupação com a aparência, o comportamento e a vestimenta. É permitido preocupar-se consigo mesmo, o foco é sempre o ‘eu’. Afinal, enquanto as pessoas se preocupam e ocupam com o ‘eu’, não se preocupam com o ‘nós’.

5. A esquerda esquizofrênica e neurótica
A esquerda, numa atitude esquizofrênica, segue se valendo de Nietzsche, talvez o crítico mais feroz da razão e dos valores racionais, tais como, igualdade, liberdade e fraternidade. Alguém que desprezava a ideia de direitos sociais, diminuição da desigualdade e intervenção estatal na economia.

No discurso, a esquerda diz defender estes valores, mas está perdida e sufocada num discurso de satisfação do desejo e valorização da diferença. Para alguns, o tema mais importante é ter a liberdade de realizar os desejos do seu baixo ventre, “dar o cu”, “ser puta”, ou ter sua peculiar diferença reconhecida e “empoderada”, poder se vestir ou identificar de tal ou qual maneira, e ter seu “lugar de fala” preservado.

Alguns militantes de esquerda parecem padecer da “histeria” freudiana: um distúrbio narcisista neurótico (portanto, autocentrado) causado por lembranças ou pensamentos reprimidos, de grande intensidade emocional, que os fazem perder o controle diante de crises de pânico causadas pela ameaça de emergência consciente desse conteúdo reprimido.

Enquanto a esquerda segue perdida em suas neuroses, o telos nietzschiano é realizado, e a sociedade sem alternativa se afoga em depressão, ansiedade, apatia e desespero.

A esquerda neurótica presta um grande serviço à realização do telos nietzschiano, a satisfação da lei dos mais forte, o controle do 1% sobre os 99%. A esquerda neurótica distrai a todos com suas demandas ventrais e seus discursos lacradores que sequer arranham a atual estrutura de poder.
A pergunta que me faço é: o quanto disso é ignorância e o quanto é má-fé?

Por Nathalie de la Cadena

Ver Comentários (4)

  • Parabéns Nathalie, bela reflexão.

    Ignorância e má-fé raramente são coisas que andam separadas, costumam formar um composto explosivo.

    Tenho cá pra mim que a única via de escape é uma nova modernidade, um "resgate da razão", por assim dizer. Porque o irracionalismo, que hoje é uma força dominante em todos os setores, nos leva a situações altamente disruptivas, grandes crises sociais.

    Nesse momento, ser racional (moderno) é nadar contra a maré. Mas, pensando bem, no fim todas as vanguardas políticas e de pensamento são grupinhos minoritários que têm de lutar contra o "Golias" da má-fé, ignorância, conformismo, etc. e tal.

    Força para nós! Um abraço.

  • Muito bom lembrar ao pessoal de orelha e índice o que realmente dizia Nietzsche. Só discordo que a adesão a esse besteirol seja tão esmagadora.

  • "A propriedade pode se conciliar com a justiça? — Se a injustiça da propriedade é fortemente sentida — o ponteiro do grande relógio está novamente nessa posição —, fala-se em dois meios para remediá-la: primeiro, uma distribuição igual; depois, a abolição da propriedade e o retorno dos bens á comunidade. Esse último é particularmente caro aos nossos socialistas, que estão zangados com aquele antigo judeu, por haver dito: "não roubarás". Segundo eles, o sétimo mandamento deveria ser: "não possuirás". A primeira receita foi experimentada com frequência na antiguidade, sempre em pequena escala, é verdade, mas com um insucesso que também para nós pode ser instrutivo. — "Lotes de terra iguais" é coisa fácil de dizer; mas quanta amargura não é gerada pelo dividir e separar que então se faz necessário, pela perda de bens há muito venerados, quanta devoção não é ferida e sacrificada! Revolve-se a moralidade, quando se revolvem os marcos de limites. E quanta amargura, novamente, entre os novos proprietários, quanto ciúme e olhar oblíquo, pois jamais existiram dois lotes de terra exatamente iguais e, se existissem, a inveja humana ao vizinho não acreditaria em sua igualdade. E quanto tempo durou essa igualdade malsã e já envenenada na raiz? Em poucas gerações, aqui um lote foi legado em herança para cinco pessoas, ali passaram cinco lotes para uma pessoa: e, se esses males fossem evitados mediante severas leis de herança, continuaria havendo os lotes iguais, mas também necessitados e insatisfeitos que nada possuiriam, exceto o desgosto com parentes e vizinhos e o desejo de subversão das coisas. — Mas, se, conforme a segunda receita, pretende-se restituir a propriedade à comunidade e fazer do indivíduo apenas um rendeiro temporário, destrói-se com isso a terra de cultivo. Pois o homem lida sem cuidade e sacrifício com o que possui apenas provisoriamente, age de forma predadora, como bandoleiro ou negligente esbanjador. Se Platão acha que o egoísmo é abolido juntamente com a abolição da propriedade, devemos lhe responder que, retirado o egoísmo do ser humano, de todo modo não lhe restarão as quatro virtudes cardinais — assim como se deve dizer que a pior peste não prejudicaria tanto a humanidade quanto se a vaidade desta desaparecesse um dia. Sem vaidade e egoísmo — que são as virtudes humanas? Com o que nem de longe se pretende dizer que sejam apenas nomes e máscaras daqueles. O refrão básico da utopia de Platão, que ainda hoje continua a ser cantado pelos socialistas, repousa num conhecimento falho do ser humano: nele falta o exame histórico dos sentimentos morais, a penetração na origem dos atributos bons e úteis da alma humana. Como toda a Antiguidade, ele acreditava no bem e no mal como no preto e no branco: ou seja, numa radical diferença entre homens bons e maus, atributos bons e ruins. — Para que, de ora em diante, a propriedade inspire mais confiança e se torne mais moral, mantenham-se abertas as vias que, pelo trabalho, levem à pequena fortuna, mas impeça-se o enriquecimento repentino sem esforço; sejam tirados das mãos de particulares e sociedades privadas todos os ramos do transporte e do comércio que favorecem o acúmulo de grandes fortunas, sobretudo o comércio de dinheiro — e sejam vistos como seres perigosos para a comunidade tanto aquele que possui demais como aquele que nada possui."

    (Aforismo 285, "O Andarilho e sua Sombra", "Humano, Demasiado Humano II", Nietzsche.)

    Taí o cara que "desprezava a intervenção estatal na economia". Ele provavelmente se admiraria de uma China ou de uma Cuba contemporâneas, pós-reformas. E se enojaria de uma sociedade violentamente desigual e analfabeta funcional como a nossa, em que o "grande líder socialista" se jacta de ter feito os bancos lucrarem como nunca antes na história!

    • Lo esencial en una buena y sana aristocracia es que ésta no se sienta como función, sea de un rey o de una comunidad, sino el último significado y la más alta justificación de ellos, y que reciba de buena conciencia el sacrificio de innumerables individuos, que, a causa de ella, deban reducirse a ser hombres incompletos, esclavos, instrumentos. Su credo fundamental debe resumirse en ese. Que la sociedad no deba existir por la propia sociedad, sino simplemente como base, para servir de sustentáculo, de medio de elevación para una especie elegida de ser, para que pueda alcanzar sus altas habilidades y de modo general, una existencia más elevada; al lado del bejuco fijado en el suelo de la Isla de Java, el bejuco matador - que se ata al roble para que asciendan por encima de él y para lanzar a la espléndida luz del sol la pompa de sus flores y exponer de esa manera al mundo su felicidad. (NIETZSCHE. Más alla del bien y del mal)

      De facto, a raça submetida adquiriu o predomínio com sua cor, a sua forma de crânio e os seus instintos intelectuais e sociais. Quem nos garante que a democracia moderna, o anarquismo, ainda mais moderno, e sobretudo esta tendência para a Comuna, para a forma social mais primitiva, para o socialismo não são essencialmente senão um monstruoso efeito de atavismo, de tal modo que a raça dos conquistadores e senhores, a raça ariana esteja a caminho de sucumbir por completo?.. (NIETZSCHE. Genealogia da Moral.)

      O que é bom? – Tudo aquilo que desperta no homem o sentimento de poder, a vontade de poder, o próprio poder. O que é mau? – Tudo que nasce da fraqueza. O que é a felicidade? – A sensação de que o poder cresce, de que uma resistência foi vencida. Nenhum contentamento, mas mais poder. Não a paz acima de tudo, mas a guerra. Não a virtude, mas o valor (no sentido de Renascimento: virtu, virtude desprovida de moralismos). Quanto aos fracos, aos incapazes, esses que pereçam: primeiro princípio da nossa caridade. E há mesmo que os ajudar a desaparecer! O que é mais nocivo do que todos os vícios? – A compaixão que suporta a ação em benefício de todos os fracos, de todos os incapazes: o cristianismo... (NIETZSCHE. O Anticristo.)

      Nietzsche admite o Estado como instrumento da classe dominante, dos nobres, para facilitar e garantir a realização de seu projeto, super homem. No entanto, como os Estados influenciados pela ideologia da "comuna" se tornaram instrumentos de limitação da classe dominante, de distribuição de renda e promoção da igualdade, se tornaram um obstáculo e por isso são depreciados.

      Não adiante ler um obra, um capítulo e achar que entendeu Nietzsche. Aliás, nenhum filósofo.