Nietzsche e o triunfo do super-homem

“O essencial numa boa e sã aristocracia é que esta não se sinta como função, seja de um rei ou de uma comunidade, mas último significado e a mais alta justificação deles, e que recebe de boa consciência o sacrifício de inumeráveis indivíduos, que, por causa dela, devam reduzir-se a serem homens incompletos, escravos, instrumentos. O seu credo fundamental deve resumir-se nisso, que a sociedade não deva existir pela própria sociedade, mas simplesmente como base, como alicerce, para servir de sustentáculo, de meio de elevação para uma espécie eleita de ser para que possam atingir os seus altos misteres e de modo geral, uma existência mais elevada; ao lado do cipó fixado ao solo da Ilha de Java, o cipó matador — que se prende ao carvalho para subirem acima dele e para lançar à esplêndida luz do sol a pompa de suas flores e expor então ao mundo a sua felicidade.” (NIETZSCHE. Além do bem e do mal. §258)

O projeto nietzschiano do super-homem (übermensh) é para a aristocracia sem culpa ou receio ter coragem de exercer sua função natural de liderança e controle da humanidade. Em Assim falou Zaratustra, Ecce homo e Gaia Ciência, Nietzsche descreve o übermensch, alguém com coragem de exercer o poder livre de toda a culpa cristã e da inconveniente ideia de igualdade cristã e moderna. “Só esses são os meus leitores, os meus autênticos leitores, os meus predestinados leitores: que importa o resto? O resto é simplesmente a Humanidade. Há que ser superior à humanidade em força, em grandeza de alma – e em desprezo…” (NIETZSCHE. O Anticristo.)

É exatamente o que presenciamos hoje. Pela última contagem da revista Forbes, publicada em 5 de março de 2019, existem 2153 bilionários no mundo, 55 a menos que no ano passado. Jeff Bezos tem a maior fortuna, 131 bilhões de dólares. Estão na lista Bill Gates, Warren Buffet, Bernard Arnault, Carlos Slim Helú, Armancio Ortega, Lary Ellison, Mark Zuckerberg, Michael Bloomberg, Larry Page, Charles e David Koch, Mukesh Ambani, Sergey Brin, Françoise Bettencourt Meyers, os Walton, Steve Ballmer, Ma Huateng etc. No total concentram 8,7 trilhões de dólares, algo em torno de 70% da riqueza global. Essas pessoas se conhecem, mesmo que não pessoalmente, sabem quem são, um verdadeiro clubinho fechado.

Alguns ainda se esforçam para terem uma imagem de bonzinhos, fazem doações, participam de programas de TV, doam bolsas de estudo para jovens do terceiro mundo etc. Alguns, por outro lado, não tem esta preocupação e exercem sem constrangimento sua natureza predadora que os levou a esta posição no ranking da acumulação. Gina Rinehart, uma bilionária australiana, em reportagem publicada no UOL economia em 5 de setembro de 2012, declarou que o salário ideal é o africano, de 2 dólares por dia. Segundo ela, a Austrália está ficando muito cara por que as mineradoras tem que lidar com salários mais altos e direitos trabalhistas e perde competitividade, por isso quer importar trabalhadores da África para trabalhar na Austrália. Outra pérola da bilionária foi bradar contra os “invejosos” que ao invés de trabalhar passam o tempo reclamando, bebendo e fumando. Esta é apenas uma bilionária que não perde a oportunidade de ficar calada e acaba expondo o clubinho ao ridículo.

Minha preocupação é com aqueles que operam de maneira silenciosa. Robert Mercer é um bilionário fundador da Cambridge Analytica, uma empresa de marketing digital que prestou serviço às campanhas do Brexit, Trump e outros candidatos em diversos países, incluindo o Brasil. A Cambridge não foi diretamente contratada pela campanha de Bolsonaro, pois à época o Observer já havia divulgado a invasão das 87 milhões de contas no Facebook com o conhecimento da Mark Zuckerberg. No entanto, seu ex-funcionário Steve Bannon operou (e ainda opera) como conselheiro da família Bolsonaro. A manipulação dos eleitores tanto no Brexit como na eleição de Trump já foi vastamente comprovada, inclusive sendo objeto de filme. Recomendo fortemente que todos assistam The Great Hack e Brexit: the uncivil war. O The Guardian, em reportagem de 4 de janeiro de 2020, avisou que vai publicar mais uma série de vazamentos da Cambridge Analytica que inclui a operação em mais de 68 países, uma infraestrutura global capaz de manipular eleitores numa escala industrial. Ocorre que os agentes desta operação não foram presos, pelo contrário, estão soltos e, considerados gênios do marketing digital, estão sendo contratados para campanhas vindouras, incluindo Trump.

Estes são exemplos de como este seleto clube de bilionários corrompe, manipula e controla governos e pessoas. Espoliam a humanidade, transferem trabalho e renda das pessoas para seus bolsos, sugam tempo de vida, e fazem isso sem qualquer culpa ou constrangimento. Não há hipótese de qualquer dessas pessoas ter concentrado esta quantidade descomunal de dinheiro sem ter explorado muita gente, corrompido agentes públicos, controlado e usado informação das pessoas e das empresas de maneira leviana e, para manterem sua posição no ranking, tem que continuar com essas práticas. Só que para Nietzsche isto não é corrupção. Corrupção é algo fundamentalmente diferente. Corrupção seria se esses bilionários renunciassem a seus privilégios, prerrogativas e se rebaixassem ao nível do resto da humanidade. (NIETZSCHE. O Anticristo).

Sim, Nietzsche fundamenta e justifica essa concentração de renda, a premeditada manipulação das consciências e o impedimento da liberdade. Afinal, esta classe superior de pessoas deve ser orgulhosa e “Não escondais mais a cabeça na areia das coisas celestes, mas portai-a livremente: cabeça terrena, que cria, ela sim, o sentido da terra.” E mais: “O super-homem é o sentido da terra! Proclamai a vossa vontade: que o super-homem seja o sentido da terra!” (NIETZSCHE. Assim falou Zaratustra).

Culpa? Responsabilidade? Isso é coisa de cristão. “O advento do Deus cristão, o deus máximo até agora alcançado, trouxe também ao mundo o máximo de sentimento de culpa. Supondo que tenhamos embarcado na direção contrária, com uma certa probabilidade se poderia deduzir, considerando o irresistível declínio da fé no Deus cristão, que já agora se verifica o considerável declínio da consciência de culpa do homem; sim, não devemos inclusive rejeitar a perspectiva de que a vitória total e definitiva do ateísmo possa livrar a humanidade desse sentimento de estar em dívida com seu começo, sua causa prima.” (NIETZSCHE. Genealogia da moral)

Nietzsche e o triunfo do super-homem

Empatia? Compaixão? Isso também é coisa de cristão. “O que é bom? – Tudo aquilo que desperta no homem o sentimento de poder, a vontade de poder, o próprio poder. O que é mau? – Tudo que nasce da fraqueza. O que é a felicidade? – A sensação de que o poder cresce, de que uma resistência foi vencida. Nenhum contentamento, mas mais poder. Não a paz acima de tudo, mas a guerra. Não a virtude, mas o valor (no sentido de Renascimento: virtu, virtude desprovida de moralismos). Quanto aos fracos, aos incapazes, esses que pereçam: primeiro princípio da nossa caridade. E há mesmo que os ajudar a desaparecer! O que é mais nocivo do que todos os vícios? – A compaixão que suporta a ação em benefício de todos os fracos, de todos os incapazes: o cristianismo…” (NIETZSCHE. O Anticristo)

Segundo Nietzsche, “De facto, a raça submetida adquiriu o predomínio com sua cor, a sua forma de crânio e os seus instintos intelectuais e sociais. Quem nos garante que a democracia moderna, o anarquismo, ainda mais moderno, e sobretudo esta tendência para a Comuna, para a forma social mais primitiva, para o socialismo não são essencialmente senão um monstruoso efeito de atavismo, de tal modo que a raça dos conquistadores e senhores, a raça ariana esteja a caminho de sucumbir por completo?…” (NIETZSCHE. Genealogia da moral)

E para evitar este trágico fim, é preciso criar uma nova narrativa. Hoje, criticar os nobres e a aristocracia, suas práticas e concentração de renda passou a ser considerado recalque, inveja, rancor ou ressentimento. Exatamente o que Nietzsche pregava (Genealogia da moral). A narrativa aceitável é de que a maioria da humanidade é folgada, vagabunda, fuma e bebe, e por isso não consegue ser bilionária, e alguns membros da classe média e pobres ainda reproduzem este discurso.

Qual o fundamento filosófico desta ideologia? A diferença. A tese fundamental de que não há igualdade, de que somos todos diferentes. Ontologicamente diferentes. O natural é a diferença. Há pessoas melhores e piores, mais fortes e mais fracas, mais inteligentes e mais estúpidas, mais capazes e menos capazes. E o natural é que a humanidade esteja a serviço dos superiores. Nietzsche distingue duas categorias de homens: os nobres e os escravos. Os nobres são os aristocratas, fortes, saudáveis, superiores; os escravos são plebeus, fracos, doentes, inferiores. Os nobres estão predestinados a dominar, sua autoridade não é responsável, mas louvável. Os escravos, incapazes de resistir pela força, reagem com ressentimento, ódio e vingança. Esse, para Nietzsche, é o fundamento da moralidade ocidental fundada na doutrina judaico-cristã.

É possível interpretar isto apenas como uma crítica à moralidade cristã? Sim, mas esta interpretação não se sustenta diante de uma leitura de sua obra. Como o próprio Nietzsche alerta: “A palavra «superhomem» para a designação de um tipo de suprema perfeição, em contraste com homens «modernos», com homens «bons», com cristãos e outros niilistas – uma palavra que, na boca de um Zaratustra, do aniquilador da moral, se torna uma palavra muito ponderada, foi entendida quase em toda a parte com plena ingenuidade, no sentido dos valores cujo contrário se manifestou na figura de Zaratustra, isto é, como tipo «idealista» de uma espécie superior de homem, meio «santo», meio «génio»…” (NIETZSCHE. Ecce homo.) Não se trata de bondade, genialidade, mas tão somente de vontade de poder exercida sem limite, o “Eu quero!” de Assim falou Zaratustra. Trata-se de um claro projeto de poder, a justificação do comando da humanidade por uma classe superior de homens destinados a cumprir seu papel de übermensch. Pois é exatamente o que vivemos hoje. A realização do projeto nietzschiano e aqueles que tão ferozmente combatem a ideia de igualdade tanto cristã como moderna prestam um imenso favor ao clubinho de bilionários.

Por Nathalie de la Cadena

8 Comentários

  • Interpretar o “super-homem” como equivalente ao sujeito movido pela cobiça, é um erro. O super-homem é, justamente, o oposto. É a superação de valores mundanos como os que norteiam os bilionários citados. É a afirmação de uma liberdade última, alheia à vida gregária não por um egoísmo vil e materialista, como o que conduz à acumulação, mas pela recusa de amarras morais que mantém os indivíduos atrelados às fraquezas do grupo a que pertence, fraquezas como a cobiça, por exemplo. Nietzsche não recusou o exemplo de Cristo, recusou sua degeneração, presente na moralidade superficial do cristão. O super -homem é expressão de uma moralidade radical, não de sua ausência. A ausência de moral é coisa de bilionários.

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  • Igor Lucas, desafio vc a demonstrar o fundamento desta interpretação altruísta do super homem postando uma citação de Nietzsche de, no mínimo, 3 parágrafos seguidos. Não vale comentadores ou frases soltas.

    N. é um filósofo coerente e em NENHUMA de suas obras vai encontrar uma proposição que enalteça a razão, o bem comum, a igualdade ou a compaixão nem intelectual nem econômica.

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  • Igor

    Toda crítica que faço a N. recebo comentários desse tipo. Sem qualquer citação, invocando o princípio da autoridade sem citar nomes de comentadores e, principalmente, que demonstram um rasa leitura de N.

    N. não reconhece a razão ou o intelecto, é um irracionalista, debocha da ciência, do progresso e de todo saber racional. Isto desde o Nascimento da Tragédia até O Anticristo.

    Se tem uma coisa que se pode afirmar sobre N. é que é um filósofo coerente.

    Rejeita a razão e o altruísmo, nega a igualdade e qualquer forma de compaixão.

    Desafio vc a encontrar um trecho que no mínimo 3 parágrafos seguidos que sustente sua interpretação acima.

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  • Igor, todas às vezes que faço uma crítica a Nietzsche sempre aparece alguém para dizer exatamente isso, mas SEM QUALQUER CITAÇÃO. Simplesmente não há em Nietzsche um trecho se quer que compreenda o super homem como uma elite intelectual. Nietzsche tem aversão à razão e ao intelecto, é um irracionalista, debocha da ciência e do progresso. Isto desde o Nascimento da Tragédia até O Anticristo. O super homem é o homem capaz de agir livre da culpa cristã e da ideia de igualdade cristã e moderna. Não tem limites para exercer seu EU QUERO.

    Nietzsche reconhece a coragem de Cristo, e só. Ponto final. Não concorda com o conteúdo de seus discursos, não concorda com seus exemplos, compaixão e doação. Não concorda com o apóstolo Paulo a quem chama de apóstolo da vingança.

    Nietzsche quer apenas que esta aristocracia aja sem qualquer freio em busca da satisfação de seus desejos. Desejos que não envolvem qualquer altruísmo, mas são tão somente a satisfação do egoísmo mais visceral justificado pela eleição, pela raça e pela natural superioridade.

    Desafio a encontrar em Nietzsche um trecho de no mínimo 3 parágrafos seguidos em que haja uma compreensão do super homem como elite intelectual, ou qualquer trecho que defenda a razão, ou mesmo qualquer atitude de tolerância ou altruísmo.

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  • Seria bem interessante que a autora Nathalie de la Cadena, além de citar as obras, indicasse as edições consultadas, com detalhes: editora e data, tradução etc. Nietzsche, como se sabe já há algumas décadas, teve muitas obras suas alteradas por interesse de sua irmã Elisabeth e do seu marido, Bernhard Forster, precursor do nacional-socialismo, que desaguaria no nazismo. Ela administrava o arquivo do irmão. Décadas atrás equipes de estudiosos na Alemanha e na Itália passaram anos trabalhando no desmonte dos estragos que a Elisabeth cometeu contra o conjunto da obra do irmão, restabelecendo originais e organizando todo o acervo. Hoje, qualquer obra do Nietzsche que não esteja baseada no chamado Arquivo Nietzsche ou no grupo da Itália publicado pela Mondadori, não é confiável. Quanto ao conceito de Ubermensh aconselho consultarem os escritos do professor Osvaldo Giacoia Jr., da Unicamp. Aviso que não estou propondo polêmica, mas sugerindo aprofundamento de pesquisa e complementação de informes. Aqui um pequeno poema de minha autoria:

    übermensh (ou a utopia Nietzsche)

    O ‘além do homem’ é o ser/ que se descobre ridículo/ dá um passo adiante/ na direção do abismo/ e se estabelece mutante/ sob a regência do gozo/ a versão que se espalhou/ fruto de má consciência/ impingiu-lhe a estúpida/ tradução de ‘super-homem’. (Coisas: poemas etc. Linguaraz Editor, 2015).

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  • Sobre o equívoco ensejado pelo título do texto, qual seja, que a dominação do capitalismo monopolista encarregada por um “pequeno clube de bilionários” fizesse parte de um “projeto” político de sociedade apresentado na obra de Nietzsche:

    “vemos agora surgir, de várias maneiras, a cultura de uma sociedade em que o comércio é a alma, assim como a peleja individual para os antigos gregos, e a guerra, a vitória e o direito para os romanos. O mercador sabe estimar o valor de tudo sem produzi-lo, e estimar o valor segundo a necessidade dos consumidores, não segundo suas próprias necessidades; ‘quem e quantos consomem isto?’ é sua grande pergunta. Esse gênero de estimativa ele emprega instintivamente e incessantemente para tudo, também para as realizações da arte e da ciência, dos pensadores, doutores, artistas, estadistas, de povos e partidos, de épocas inteiras: em relação à tudo que é produzido ele pergunta pela oferta e a demanda, a fim de estabelecer para si o valor de uma coisa. Isto alçado em caráter de todo uma cultura, pensado com o máximo de amplidão e sutileza, e impondo-se a toda vontade e capacidade: é disso que vocês homens do próximo século [XX], estarão orgulhosos: se os profetas da classe mercadora tiverem razão em coloca-lo na sua posse! Mas eu tenho pouca fé em tais profetas”. NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Aurora. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2004, p. 127-128 (aforismo 175) [grifos no original].

    Com relação à busca por trechos em que o autor apresente ideais que traduzam, de alguma forma, noções de “altruísmo” e “bem comum” como valores de um devir histórico desejável e socialmente menos desastroso que os valores apresentados pelo liberalismo conservador, pela socialdemocracia, etc., sistemas democráticos representativos, ou, dito de outra forma, a democracia burguesa (seja ela “liberal” ou “social”), podemos pensar em algumas passagens da Segunda Consideração Intempestiva:

    “Aquele que não sabe repousar no limiar do momento, esquecendo todo o passado, aquele que não sabe se soerguer, como o gênio da vitória, sem vertigens nem temor, nunca vai saber o que é a felicidade e, o que é pior, nunca vai fazer algo que possa tornar felizes os outros”. NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Da utilidade e do inconveniente da história para a vida (Segunda Consideração Intempestiva). Trad. Antônio Carlos Braga; Ciro Mioranza. São Paulo: Escala, 2008, p. 21,

    Aqui Nietzsche critica a exploração daqueles que não são considerados iguais, “irmãos”:

    “Para que serve o ‘mundo’, para que serve a ‘humanidade’? isso não deve provisoriamente nos preocupar, a menos que queiramos nos alegrar com um pequeno gracejo, pois, a presunção dos pequenos répteis humanos é o que há de mais tolo e de mais alegre no teatro da vida. Mas para que serves, tu, indivíduo? Pergunta-o a ti mesmo e se ninguém mais pode dizê-lo, tenta justificar o sentido de tua existência, de algum modo a posteriori, impondo-te a ti mesmo um objetivo, um ‘serviço’ superior e nobre. Que esse serviço te leve a morrer! Não conheço melhor fim na vida do que se arrebentar contra o sublime e o impossível, animae magnae prodigus (pródigo de alma grande). Se, em contrapartida, as ideias do devir soberano, da fluidez de todas as concepções, de todos os tipos e todas as espécies, da ausência de toda a diversidade entre o homem e o animal – doutrinas que tenho por verdadeiras, mas por mortais – com a loucura do ensino que reina hoje, são jogadas ao povo durante mais uma geração, ninguém deverá se surpreender se o povo perecer de egoísmo e mesquinharia, ossificado unicamente na preocupação de si mesmo. Começará por se esgotar e por cessar de ser um povo. Em seu lugar, veremos aparecer, na cena do futuro, um emaranhado de egoísmos individuais, de confraternizações em vista da exploração total daqueles que não são ‘irmãos’ e outras criações semelhantes do utilitarismo comum”. NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Da utilidade e do inconveniente da história para a vida (Segunda Consideração Intempestiva). Trad. Antônio Carlos Braga; Ciro Mioranza. São Paulo: Escala, 2008, p. 108-109.

    Nietzsche também apresentava crítica à noção burguesa de “sucesso”:

    “O sucesso histórico do cristianismo, seu poder, sua persistência, sua duração histórica, tudo isso não demonstra felizmente nada, com relação à grandeza de seu fundador e seria, em suma, antes feito para ser invocado contra ele. Entre ele e o sucesso histórico se encontra uma camada obscura e muito terrestre de poder, de erro, de sede de paixões e honras, se encontram as forças do império romano que continuam sua ação, uma camada que proporcionou ao cristianismo seu gosto de terra, seu resto terrestre. Essas forças tornaram possível a continuidade do cristianismo e lhe deram, de alguma forma, sua estabilidade. A grandeza não deve depender do sucesso e Demóstenes tem grandeza, embora não tivesse sucesso”. NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Da utilidade e do inconveniente da história para a vida (Segunda Consideração Intempestiva). Trad. Antônio Carlos Braga; Ciro Mioranza. São Paulo: Escala, 2008, p. 110.

    Espero que ajude no debate!

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  • Sobre o equívoco ensejado pelo título do texto, qual seja, que a dominação do capitalismo monopolista encarregada por um “pequeno clube de bilionários” fizesse parte de um “projeto” político de sociedade apresentado na obra de Nietzsche:

    “vemos agora surgir, de várias maneiras, a cultura de uma sociedade em que o comércio é a alma, assim como a peleja individual para os antigos gregos, e a guerra, a vitória e o direito para os romanos. O mercador sabe estimar o valor de tudo sem produzi-lo, e estimar o valor segundo a necessidade dos consumidores, não segundo suas próprias necessidades; ‘quem e quantos consomem isto?’ é sua grande pergunta. Esse gênero de estimativa ele emprega instintivamente e incessantemente para tudo, também para as realizações da arte e da ciência, dos pensadores, doutores, artistas, estadistas, de povos e partidos, de épocas inteiras: em relação à tudo que é produzido ele pergunta pela oferta e a demanda, a fim de estabelecer para si o valor de uma coisa. Isto alçado em caráter de todo uma cultura, pensado com o máximo de amplidão e sutileza, e impondo-se a toda vontade e capacidade: é disso que vocês homens do próximo século [XX], estarão orgulhosos: se os profetas da classe mercadora tiverem razão em coloca-lo na sua posse! Mas eu tenho pouca fé em tais profetas”. NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Aurora. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2004, p. 127-128 (aforismo 175) [grifos no original].

    Com relação à busca por trechos em que o autor apresente ideais que traduzam, de alguma forma, noções de “altruísmo” e “bem comum” como valores de um devir histórico desejável e socialmente menos desastroso que os valores apresentados pelo liberalismo conservador, pela socialdemocracia, etc., sistemas democráticos representativos, ou, dito de outra forma, a democracia burguesa (seja ela “liberal” ou “social”), podemos pensar em algumas passagens da Segunda Consideração Intempestiva:

    “Aquele que não sabe repousar no limiar do momento, esquecendo todo o passado, aquele que não sabe se soerguer, como o gênio da vitória, sem vertigens nem temor, nunca vai saber o que é a felicidade e, o que é pior, nunca vai fazer algo que possa tornar felizes os outros”. NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Da utilidade e do inconveniente da história para a vida (Segunda Consideração Intempestiva). Trad. Antônio Carlos Braga; Ciro Mioranza. São Paulo: Escala, 2008, p. 21,

    Aqui Nietzsche critica a exploração daqueles que não são considerados iguais, “irmãos”:

    “Para que serve o ‘mundo’, para que serve a ‘humanidade’? isso não deve provisoriamente nos preocupar, a menos que queiramos nos alegrar com um pequeno gracejo, pois, a presunção dos pequenos répteis humanos é o que há de mais tolo e de mais alegre no teatro da vida. Mas para que serves, tu, indivíduo? Pergunta-o a ti mesmo e se ninguém mais pode dizê-lo, tenta justificar o sentido de tua existência, de algum modo a posteriori, impondo-te a ti mesmo um objetivo, um ‘serviço’ superior e nobre. Que esse serviço te leve a morrer! Não conheço melhor fim na vida do que se arrebentar contra o sublime e o impossível, animae magnae prodigus (pródigo de alma grande). Se, em contrapartida, as ideias do devir soberano, da fluidez de todas as concepções, de todos os tipos e todas as espécies, da ausência de toda a diversidade entre o homem e o animal – doutrinas que tenho por verdadeiras, mas por mortais – com a loucura do ensino que reina hoje, são jogadas ao povo durante mais uma geração, ninguém deverá se surpreender se o povo perecer de egoísmo e mesquinharia, ossificado unicamente na preocupação de si mesmo. Começará por se esgotar e por cessar de ser um povo. Em seu lugar, veremos aparecer, na cena do futuro, um emaranhado de egoísmos individuais, de confraternizações em vista da exploração total daqueles que não são ‘irmãos’ e outras criações semelhantes do utilitarismo comum”. NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Da utilidade e do inconveniente da história para a vida (Segunda Consideração Intempestiva). Trad. Antônio Carlos Braga; Ciro Mioranza. São Paulo: Escala, 2008, p. 108-109.

    Nietzsche também apresentava crítica à noção burguesa de “sucesso”:

    “O sucesso histórico do cristianismo, seu poder, sua persistência, sua duração histórica, tudo isso não demonstra felizmente nada, com relação à grandeza de seu fundador e seria, em suma, antes feito para ser invocado contra ele. Entre ele e o sucesso histórico se encontra uma camada obscura e muito terrestre de poder, de erro, de sede de paixões e honras, se encontram as forças do império romano que continuam sua ação, uma camada que proporcionou ao cristianismo seu gosto de terra, seu resto terrestre. Essas forças tornaram possível a continuidade do cristianismo e lhe deram, de alguma forma, sua estabilidade. A grandeza não deve depender do sucesso e Demóstenes tem grandeza, embora não tivesse sucesso”. NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Da utilidade e do inconveniente da história para a vida (Segunda Consideração Intempestiva). Trad. Antônio Carlos Braga; Ciro Mioranza. São Paulo: Escala, 2008, p. 110.

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