Sobre “No Intenso Agora”, de João Moreira Salles

1. Apenas no processo de edição de “Santiago”, João Moreira Salles pôde se dar conta de que, a despeito do seu interesse consciente e manifesto de dar voz a Santiago, acabara, inconscientemente, ele próprio, sendo também personagem do documentário, já que as relações com o antigo mordomo de sua família permaneceram permeando tudo, o tempo todo.

2. As imagens, indiscretamente, digamos assim, mostravam não só as intenções conscientes do autor. Mostravam também que as antigas relações afetivas e de poder que marcaram a relação de JMS com Santiago estavam lá, mesmo contra as intenções de um e de outro. João julgou por bem enfrentar esta “contaminação” inconsciente, expondo-a no plano narrativo do documentário, numa espécie de uma sofisticada e estética “expiação de culpa” pública.

3. Encontram-se aí, a meu ver, dois dos pilares que irão constituir “No intenso agora”. O primeiro deles pode ser resumido nesta pergunta: quanto há de verdade, de uma verdade emudecida, nos materiais de arquivos, à espera de “redenção”? Trata-se de um dos temas mais caros a Walter Benjamim…

4. JMS deu-se conta de que há um “sujeito inconsciente” em toda e qualquer produção de imagens, fazendo com que elas preservem “conteúdos de verdade” que em geral escaparam não só ao autor das imagens, como aos coetâneos. Tirar da mudez parte da verdade contida em materiais de arquivo é um das motivações explícitas de “No intenso agora”. JMS toma, para este fim, materiais imagéticos produzidos no ano de 1968 acerca dos acontecimentos políticos de então, em Paris e em Praga.

5. Outro pilar foi a necessidade de dar sequência à “expiação de culpa” contida no plano narrativo de “Santiago”. Isto é, tornar empreendimento consciente o que apareceu de modo inconsciente em “Santiago”, falar de seu mundo, do mundo da alta burguesia. “No intenso agora” fala de seu mundo, ainda que de modo limitado, por se restringir à sua mãe, e por se restringir às imagens de uma viagem desta à China, em plena Revolução Cultural maoísta, em 1966.

6. Um terceiro pilar de “No intenso agora”, e este não deriva de “Santiago”, são os acontecimentos do “Maio de 1968” e da “Primavera de Praga”, momentos de sonhos intensos que produziram imagens que se tornariam icônicas. JMS lança sobre estas imagens o olhar atento às “produções do inconsciente” que foi chamado a desenvolver quando da edição de “Santiago”.

7. O documentário “No intenso agora” configura a tentativa de articulação destes três pilares: a atenção às “produções do inconsciente” presente nas imagens, de modo a retirar da mudez o conteúdo de verdade preservado nelas, a necessidade de tomar o seu mundo, o mundo de um milionário filho de banqueiro, ainda que discretamente, como objeto de documentário, e a “intensidade” dos sonhos, e suas frustrações, vividos em Paris e em Praga, em 1968.

8. A avaliação crítica de “No intenso agora” tem que levar em consideração até que ponto os três pilares, tomados isoladamente, e a articulação entre eles, foram levados a cabo com êxito. Tomemos, de início, cada um dos três pilares isoladamente.

9. O documentário é estruturado pelo emparelhamento de imagens de acontecimentos políticos, do “maio francês” e da invasão da Tchecoslováquia pelas das forças sob o comando soviético, e de imagens de acontecimentos privados, da viagem da mãe de JMS à China. O que justificaria o emparelhamento de imagens com conteúdos tão distintos?

10. Reside no fio oculto que liga este conjunto de imagens tão distintas o sentido mesmo do documentário. O documentário trata das utopias que não se sustentam, dos sonhos que se frustram, do tempo que amansa as intensidades e que tudo “normaliza”. Numa palavra: o documentário trata da fugacidade da felicidade, seja a felicidade coletiva, cívica, seja a felicidade individual.

sobre no intenso agora de joão moreira salles

11. João realiza bem o intento benjaminiano de dar voz ao que está mudo nas imagens dos acontecimentos políticos, e o faz de modo didático, pertinente e bem articulado. Mas, surpreendentemente, tendo em vista a intenção de flagrar o “sujeito oculto” nas imagens, ele se cala quanto às imagens familiares nas quais aparece a sua mãe, e possivelmente ele próprio, seus irmãos e o seu pai banqueiro. O silêncio quanto a isto é o “som” mais eloquente de todo o documentário. JMS simplesmente não foi capaz de dar continuidade ao que pareceu conquistar em “Santiago”, no que diz respeito a si próprio e ao seu mundo.

12. Se em “Santiago”, JMS faz com que o plano narrativo consiga “corrigir” as imagens, ao verbalizar o autoritarismo que percebeu em sua atitude perante o antigo mordomo da família, em “No intenso agora” o “sujeito oculto” permanece oculto. JMS, cotejando as imagens com as anotações que sua mãe fez durante a viagem, nos mostra, comovido e, talvez, melancólico, a alegria e o encantamento da mãe. Alegria e encantamento dos quais ela iria se distanciar crescentemente nos anos seguintes.

13. Mas JMS não nos mostra nada mais do que isto, a felicidade e o encantamento de sua mãe, nas imagens familiares que exibe em seu documentário. Deste modo, “No intenso agora” documenta, de viés, a dificuldade de JMS, a despeito de sua intenção, de tomar si mesmo, e o seu mundo, como objeto de suas reflexões e de sua obra. O fracasso deste intento é inquietante e se soma a outras inquietações.

14. A mãe de JMS, nunca nomeada no documentário, cuidado este digno de nota e de louvor, foi “intensa” no “agora” de sua viagem à China da Revolução Cultural. Vivência semelhante a esta foi a dos estudantes franceses, “intensos” no “agora” do maio de 1968, em Paris. Contudo, diante da ausência de um projeto de poder, ausência esta salientada mais de uma vez na fala do documentário, o sonho de 1968 não poderia ser mais do que um sonho, ainda que intenso.

15. As terrivelmente sombrias imagens da Tchecoslováquia mostram o fim de outro sonho intenso. Estas imagens não representam apenas a frustração do povo tchecoslovaco pela derrota da “Primavera de Praga”. Representam também a frustração dos estudantes franceses, da mãe de JMS, ao voltar para a mesmice de seu mundo burguês, e de parte dos espectadores que viveram os sonhos e desejos de 1968.

16. Narrativamente, o documentário se realiza pelo encontro, e confronto, das imagens com a palavra. JMS se cala diante de boa parte das imagens de momentos íntimos de sua família, mas ele “comenta” de modo agudo e não raro pertinente as imagens dos acontecimentos políticos. Muita coisa vem à fala diante das imagens, não apenas o contexto político, mas também as aflições, os desejos, os limites, o pitoresco, as contradições… Sobretudo, o que vem à fala é o fato de que à “intensidade” do “agora” sucedeu a restauração do status quo.

17. “No intenso agora” é um belo, inquietante e melancólico documentário. Melancólico, sobretudo para quem, como eu, se tornou “gente” em meio ao sonho intenso de 1968, e nunca se afastou dele. “Se lembra do futuro que a gente combinou?” Certamente, não foi este que temos diante dos olhos. Nós, os que continuamos “soixante-huitardes”, temos diante de nós a tarefa de dar sentido ao fato de que agora todos somos conscientes: as paixões dos indivíduos e dos coletivos têm que acertar as contas com o tempo da história. O tempo das conjunturas históricas, não raro, é muitas vezes mais largo do que o tempo das nossas vidas individuais. Como nos situar nas conjunturas cujo império nos atravessa, sem negar os nossos sonhos e os nossos desejos?

18. Era bom pensar que as nossas paixões estavam em sintonia com as razôes da história. Isto trazia mais intensidade ao que já era em si intenso. É desconcertante perceber que nossas paixões e as razões da história não estavam em sintonia e que, talvez, ainda não estejam. Mas não há como não apostar, intensamente, que, neste agora que é o nosso, as nossas paixões ainda podem ter lugar. De que modo? Cabe descobrirmos, tanto no plano individual como no plano coletivo.

19. JMS, em entrevista a Pedro Bial, disse que nos momentos de intensidade, o sentido nos é imposto pelos próprios acontecimentos. Parece-me adequada esta formulação. Os coetâneos, digo eu, recebem o sentido com alegria ou com temor, dependendo da associação ou da repulsa que estabelecem com os acontecimentos em curso. Este é o “agora” do “intenso”. Enquanto não surgir outra intensidade, cada um de nós tem que buscar o máximo de intensidade na miséria do “agora” que é o nosso…

20. Muitas das intuições que orientaram as palavras acima vieram da entrevista de JMS a Pedro Bial. Chamo a sua atenção sobretudo para o que ele disse sobre o sentido que há em ser botafoguense.

PS: Marcos Veras de Faria me informou que a mãe de JMS matou-se em 1988, vinte e dois anos depois da viagem à China. Este fato, do qual eu não tinha notícia, acrescenta mais intensidade ao “agora” da viagem e mais tensão ao “agora” de JMS ao lidar com aquele material, tendo em vista a produção do documentário que pretendia tratar do seu mundo. O silêncio a que aludi acima ficou ainda mais eloquente. Não sem razão…

Por Luiz Carlos de Oliveira e Silva

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