Onde está nossa mesa, lugar de encontros e dissensões?

Num tempo em que a película de vidro do celular virou sinônimo de proteção de nossas ilusões, nada mais instigante do que sentarmos à mesa com Clarice Lispector. Talvez esses olhos nos olhos (conosco mesmo) são mais do que urgentes para encararmos o escombro da vida e o estranhamento da falsa normalidade de toda essa nuvem escura que estamos vivendo. Quem sabe, assim, vislumbramos, pelo menos, que a vida pode ser de outra maneira.

“Ao redor da mesa, com Clarice Lispector”, espetáculo inédito em cartaz no Sesc de Copacabana, no Rio de Janeiro, até 29 de março, nos proporciona essa luz do encontro-desafio-escombro. A peça mostra a autora de “A paixão segundo GH”, “A hora da estrela” e de tantas outras obras-primas plasmadas de gêneros diversos em vários espelhos de tempos sobrepostos.

Trata-se de um diálogo da escritora consigo mesma, porém, mais do que isso. Não um monólogo simplesmente, mas sim, diálogo com ela que já é outra, que já foi outra e que será outra em tempos diferentes.

Ou seja, exercício denso e profundo da procura de si e de sentidos possíveis da vida. Viagem que não é, sem dúvida, para qualquer um, porém somente para os corajosos, mesmo que nas frágeis condições de uma Macabea, a personagem de “A hora da estrela”, datilógrafa alagoana que migra para tentar sua vida no Rio de Janeiro.

Mais do que urgentes esses olhos nos olhos num tempo em que sentar à mesa, hoje em dia, pode denunciar mais o abismo profundo entre as pessoas do que entrelaçamentos genuínos de afetos. Isso, além do abismo, ou deserto silencioso, no interior de si mesmo, quando, por exemplo, podemos ver, num restaurante, famílias, casais de namorados ou grupos de amigos, cada um manuseando seu celular, sem tempo para concórdias ou dissensões.
Nosso ícone maior da contemporaneidade nos engoliu de vez, condensando todo o “dispositivo” da reificação capitalista enunciado por Michel Faucault e tratado com síntese aguda por Giorgio Agamben no ensaio “O que é um dispositivo”, um dos textos do livro “O que é o contemporâneo” (Chapecó, SC, Argos, 2009). Nesse “assujeitamento” involuntário, com a ilusão de estamos livres, antenados e conectados, nem temos tempo, muito menos sabedoria, para olharmos para nós mesmos e muito menos para o outro.

“As duas Clarices, densas e intensas, trocam experiências de linguagem e vida: gênero, corpo, solidão, preconceito, memória, palavra e Deus. Misturam-se ‘coisas” de forte poder evocativo, como a pedra ancestral (‘o tempo era o duro material da pedra’); a mesa, lugar de encontros e dissensões; a máquina de datilografia (extensão da mão, veículo de escrita); a caixinha (ícone de alianças); a música (linguagem-presença); o ovo (metáfora do deus, da criação e do não nomeável); e o mar (transpiração da infância, natureza e força). Dramas existenciais e sociais, numa dicção inesperada, tiram o público da zona de conforto”, escreve a escritora e professora Clarisse Fukelman, idealizadora da dramaturgia do espetáculo.

Tendo na direção Ester Jablonski, supervisão de Fernanco Philbert e elenco formado por Ana Barroso, Ester Jablonski, Gisela de Castro e Joelson Medeiros, a peça é, de fato, para tirar a película protetora das nossas ilusões e, assim, nos desarrumar como as ondas do mar (evocadas pelas cenografia de Natália Lana) – essas ondas que parecem rotineiras e iguais, mas que soam seus imponderáveis mistérios na noite de cada um.

Precisamos cair em nós mesmos – naquele poço fundo e escuro no qual termos medo de revolver os mais estranhos detritos e sargaços – para fazer indagações sobre o que somos e qual a natureza dos vínculos que temos com os outros e o mundo. A vida é feita de acasos – e o aleatório e a dúvida nem no espelho se esclarecem. A peça nos dá vários recados, e não apenas um.

E não poderia ser de outra maneira, baseado na vida e na obra de uma escritora marcada por tantos gêneros. Assim também não poderia ter sido trabalhada tão bem se não fosse por uma dramaturgia concebida por uma artista de talento multidimensional, que, embora pouco publicada, é poeta, prosadora, ensaísta, ex-resenhista do Caderno B do antigo Jornal do Brasil, produtora cultural (dona da Vereda Promoções) e professora do Departamento de Comunicação Social da PUC do Rio de Janeiro.

Ao entrar no Mezanino do Sesc Copacabana, o público encontra em cada poltrona, além do folder sobre o espetáculo, uma das mais recentes obras de Clarisse Fukelman, que é “Ode a Macabea”, em formato de literatura de cordel, pequena brochura de 12 páginas lançada agora, março de 2020). Apenas de relance, duas das estrofes finais desta pequena obra-prima:

Queria dar um conselho / de personagem para autora: / você me pegou na rua / me colocou no seu livro, / me arrumou serviço e cama, / mas encurtou o meu drama. / Dá próxima vez, lhe peço, / me dê uma vida longa, / transforme miséria em pão. / Prefira, ao menos, a soma. / Conceda-me o que mereço. // Clarice, minha Clarice, / que nasceu onde nasci. / Você tem muitas palavras / e eu tenho o que as precede. / Por isso me amas tanto / Por isso a faço arder / Por isso um carro atropela / Meu desejo de viver / Por isso você me nega / Por isso você me entrega / o fim, o início e o meio.
Fukelman nos convida, assim, agora como dramaturga, a ver como o vazio dentro de nós abriga imagens. Em tempos sombrios nos quais a morte da criatividade é incentivada, faz-nos lembrar o quão necessário nos dispormos para as potencialidades que podem existir dentro de nós e nem sabemos.

Diz ainda a artista de talento poliédrico: Clarice Lispector “evoca a perplexidade diante do que se é, será e foi. Algo similar se dá com a língua, mistério da comunicação humana, cujo fascínio vem da ‘palavra e sua sombra’. O dito e não dito concorrem entre si.”

Saí do teatro com a seguinte sensação: nossa hora da estrela não precisa ser a da morte. Caetano Veloso tem razão: “Gente é pra bilhar, não pra morrer de fome”.

Deixe uma resposta