O Irlandês: a obra-prima tardia de Scorcese com De Niro, Al Pacino e Joe Pesci

Estreou ontem, no tradicional Cine Belas Artes na rua da Consolação em São Paulo, o novo filme de Martin Scorcese, O Irlandês, baseado no livro “I heard you paint houses” do ex-investigador Charles Brandt que entrevistou Frank ‘The Irishman’ Sheeran, um matador da máfia que alega ter assassinado Jimmy Hoffa. O líder dos Teamsters, o colossal sindicato dos caminhoneiros dos EUA, que chegou a ter um milhão de associados, foi uma das figuras políticas mais importantes dos anos 1960 e 1970, e desapareceu no dia 30 de julho de 1975. Seu corpo nunca foi encontrado e o crime nunca foi desvendado.

Na minha opinião, o filme é a obra-prima de Scorcese. Ele volta com a gloriosa parceria com Robert De Niro, no papel principal de Frank Sheeran, e Joe Pesci, que interpreta Russell Bufalino, nascido na Sicília e chefe da máfia na Pensilvânia. Al Pacino, novo na turma, em atuação de tirar o fôlego, dá vida a Hoffa.

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Al Pacino (à direita) no papel de Jimmy Hoffa (à esquerda)

O roteiro é do vencedor do Óscar Steven Zaillian por A Lista de Schindler dirigido por Steven Spielberg. Zailian também escreveu outros filmes importantes como O Gângster sobre Frank Lucas dirigido por Ridley Scott e Gangues de Nova York do próprio Scorcese.

Elenco de velhos conhecidos e a tão esperada parceria com Al Pacino

Robert De Niro e Joe Pesci protagonizaram três dos mais famosos filmes do diretor. Os Bons Companheiros, o clássico sobre a máfia em Nova York, O Touro Indomável, a trágica história do violentíssimo pugilista Jake La Motta,  e Cassino (que também conta com Sharon Stone), outro clássico que retoma a temática do crime organizado na construção de Las Vegas até o declínio do controle da máfia sobre a cidade.

O diretor ítalo-americano retoma um elenco de apoio já conhecido de seu público. O consagrado Harvey Keitel, que foi dirigido por Scorcese em Taxi Driver e Caminhos Perigosos com De Niro, interpreta o siciliano Angelo Bruno, chefe da máfia em Filadélfia. Bo Dietl interpreta um violento organizador sindical de Chicago. Dietl é um ex-policial de Nova York e notório consultor privado de segurança, que já havia feito uma pequena ponta em Os Bons Companheiros, e interpretou a si mesmo como consultor de Jordan Belfort em O Lobo de Wall Street.

E as três esposas dos protagonistas também são atrizes bem conhecidas do diretor. Welker White, de Os Bons Companheiros, é Jo (Josephine) Hoffa, a esposa de Jimmy Hoffa que foi envolvida como laranja em casos de lavagem de dinheiro. Stephanie Kurtzuba, de O Lobo de Wall Street, assume o papel da esposa de Frank Sheeran. A outra aparição interessante, que apesar de não ter sido dirigida por Scorcese, faz parte do universo televisivo sobre a máfia, é Kathrine Narducci, que ficou famosa por sua participação na icônica série Família Soprano. Ela interpreta Carrie Bufalino, esposa de Russell, acostumada a se desfazer das camisas sujas de sangue do marido. A atriz também já está escalada para mais uma super produção sobre a máfia. Ela interpretará Rosie Capone, irmã de Al Capone, que será vivido por Tom Hardy no filme Fonzo sobre os últimos anos de vida do mafioso de Chicago nos anos 1930 durante a Lei Seca.

A grande novidade que o filme trouxe foi a tão esperada reunião de Al Pacino com Scorcese. O ator é o protagonista do filme de máfia mais importante da história: a trilogia O Poderoso Chefão. No papel de Michael Corleone, dirigido por Francis Ford Coppola, Al Pacino tornou-se o rosto da máfia siciliana nos EUA ao lado de Marlon Brando, o patriarca da família Corleone, Don Vito. De Niro interpretou Vito Corleone jovem e ganhou o Óscar de ator coadjuvante em O Poderoso Chefão II. Marlon Brando venceu sua segunda estatueta no primeiro filme, e Al Pacino inacreditavelmente não ganhou o prêmio de ator principal pelo segundo filme.

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Joe Pesci, Al Pacino, Martin Scorsese, Robert De Niro e Harvey Keitel na estréia mundial de O Irlandês no Alice Tully Hall em Nova York, durante o 57º Festival de Cinema de Nova York em 27 de setembro de 2019. Foto: Evan Agostini/Invision/AP/Shutterstock.

O fato é que a trilogia, principalmente os dois primeiros filmes, abriram um novo momento na história do cinema norte-americano e consagrou uma geração de atores e diretores que se inspiraram na titânica obra de Coppola, dentre os quais Scorcese é o mais genial. Al Pacino e De Niro trabalharam juntos em vários filmes de sucesso depois, mas apenas o segundo foi dirigido em extensa e fecunda parceria com Scorcese. A reunião dos três era um desejo antigo deles e do público.

Recusado pelos grandes estúdios, Netflix topou realizar o filme com sofisticados efeitos especiais

O projeto para o filme era antigo. Scorcese reclamou bastante que os grandes estúdios não toparam a empreitada ambiciosa. O Irlandês, além de um elenco peso-pesado, é um filme bastante longo com quase três horas e meia, cenas espetaculares de sindicalistas jogando táxis em um rio, figurino de época impecável, milhares de caminhões e carros antigos, e cenários incrivelmente bem feitos para ambientação dos anos 1960 e 1970.

Mas o principal custo do filme foi a utilização de uma tecnologia de filmagem digital capaz de rejuvenescer os atores. Robert De Niro e Joe Pesci tem 76 anos. Al Pacino tem 79. Pesci e Pacino aparecem nem tão jovens no auge da vida dos personagens. Mas o personagem interpretado por De Niro tem que ser transformado até sua tenra juventude quando soldado durante a Segunda Guerra Mundial. Até Ray Romano, que interpreta o primo de Russell, Bill Bufalino, advogado dos Teamsters, tem 61 anos e foi rejuvenescido para cenas em que aparenta não mais que 30 e poucos anos.

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Robert De Niro rejuvenescido no papel de Frank Sheeran.

As imagens são incrivelmente bem sucedidas. Para as cenas em que os atores deveriam ser rejuvenescidos eram necessárias nove câmeras para pegar todos os ângulos a serem digitalmente alterados. O filme coloca Scorcese na vanguarda estética de tão sofisticado instrumento no estado da arte da inovação técnica.

Talvez a falta de fé em sua capacidade de operar e produzir um sucesso de bilheteria com orçamento tão caro como esse seja o motivo do ressentimento de Scorcese com os grandes estúdios por recusarem seu projeto. Quem topou a empreitada ao fim e ao cabo foi o Netflix, serviço de streaming pioneiro na produção original de filmes e séries. O diretor disse recentemente que os filmes de super-herói atuais dos grandes estúdios, que estão batendo recorde de bilheteria, não são cinema pois não contam histórias. O avanço da tecnologia tem permitido a produção de efeitos especiais cada vez mais sofisticados para as fantasias dos quadrinhos, mas de fato, as histórias e os personagens são bastante pobres dramaticamente. Com exceção do aclamado Coringa, cujo produtor anunciado foi ninguém menos que o próprio Scorcese, que chegou a cogitar dirigir o filme, mas abandonou a produção para se dedicar a O Irlandês. Mesmo assim, Coringa contou com uma produtora ligada ao diretor, Emma Tilinger Koskoff, e De Niro no elenco.

História, política e a reflexão sobre a velhice

Martin Scorcese é meu diretor favorito. Apesar dele não ter feito O Poderoso Chefão I e II, os dois maiores filmes de todos os tempos, o que coloca Coppola a seu lado com o também brilhante Apocalypse Now, até por sua influência sobre Scorcese. E não posso deixar de citar Quentin Tarantino, influenciado pelos dois anteriores, ainda que muito diferente esteticamente. Os três ítalo-americanos expressam três momentos diferentes da história dos EUA em seus filmes. A glória fordista dos anos 1950 e 1960 em O Poderoso Chefão de Coppola e sua crise na Guerra do Vietnã retratada em Apocalypse Now, a degeneração social generalizada expressa pela violência endêmica de Os Bons Companheiros, Taxi Driver e O Rei da Comédia de Scorcese na passagem dos anos 1970 e 1980, e a sociedade do espetáculo e do exagero dos anos 1990 nos filmes de Tarantino após a consolidação do neoliberalismo.

A marca de Coppola é a beleza visual seja da Sicília rural e mafiosa, da Nova York pujante dos imigrantes, ou das florestas vietnamitas em chamas atingidas pelo napalm lançado dos helicópteros do exército americano. Tarantino é o gênio das cenas violentíssimas e do humor ácido, seu exagero estético remete à capacidade do surrealismo de expressar a realidade melhor que o realismo. Scorcese está mais próximo de Coppola, mas seu realismo nas cenas de violência são tão chocantes quanto o exagero sanguinolento de Tarantino. A marca de Scorcese é ser um contador de histórias. Evidentemente essas características não são exclusivas de cada um, e todos são brilhantes de maneira global em sua arte, estou apenas ressaltando no que cada um se sobressai.

A história filmada por Scorcese é polêmica. Frank Sheeran conta no livro a sua versão dos fatos. O FBI e outros envolvidos negam. Não importa. Desde as aulas sobre Dom Casmurro aprendi que a história contada é sempre subjetiva, é sempre uma versão de alguém, é sempre parcial e duvidosa. Sua beleza não está na veracidade dos fatos, mas na capacidade do artista de contá-la. Pois é disso que se trata, é arte e não historiografia. E Scorcese é o gênio da arte de contar histórias.

E é justamente por esse destaque como contador de histórias que Scorcese é meu favorito. O Irlandês é a história da vida de Frank Sheeran e Jimmy Hoffa, mas também da máfia, do sindicalismo, e dos EUA como nação em seus centros econômicos e políticos. Washington, Nova York, Las Vegas, Miami, Los Angeles, Chicago, Filadélfia, Detroit, Boston, Delaware. Jack e Bobby Kennedy, Richard Nixon e Watergate, Fidel Castro e a Baía dos Porcos. Está tudo lá.

A vida pessoal do protagonista é um drama bastante denso também. A relação com sua filha que quase não fala mas expressa muito com seus olhos. A amizade das famílias dos mafiosos e sindicalistas. A mistura de interesses pessoais, políticos e criminosos. A relação com o cigarro, o álcool, as doenças, e a bengala. A prisão e a morte. Tudo isso da complexidade narrativa ao filme. Scorcese está certo quando diz que a indústria do cinema não está mais interessada em contar histórias, mas o diretor de 76 anos continua sendo capaz de enfrentar os obstáculos e entregar uma obra-prima na velhice.

Aliás, o filme é muito reflexivo sobre a luta contra o fim da vida, o acerto de contas com o passado, a construção de novos horizontes e a esperança de que a morte não seja o final definitivo. A história contada pelo personagem principal expressa isso, tanto quanto o brilhantismo de um diretor exibindo sua arte com a ousadia de novíssimas tecnologias, e a paixão fulminante de atuações memoráveis de atores geniais, todos próximos dos 80 anos. O Irlandês é um filme para ser assistido no cinema e no Netflix, muitas vezes.

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