O meu lugar é onde eu quiser estar!

Por Waleska Miguel Batista – O Estado brasileiro, constituído a partir de ideais patriarcalistas, racistas e autoritários, estabelece um lugar e funções distintas para cada pessoa, homens brancos, mulheres brancas, homens negros e mulheres negras, homens e mulheres proprietários, homens e mulheres trabalhadores, bem como para as crianças brancas e negras, meninos e meninas, filhos de proprietários ou filhos de trabalhadores.

O corpo de cada uma dessas pessoas é valorado segundo uma construção social pré-estabelecida, em que os homens, brancos e proprietários possuem total liberdade para fazerem o que quiserem, enquanto as pessoas condicionadas aos demais grupos se submetem às decisões daqueles homens, a partir de uma hierarquização em que as mulheres negras e as crianças negras são compreendidas quase que exclusivamente para o exercício das funções de servir e obedecer.

Dentro dessa lógica social, as chances de construção de projetos de vida individuais são tiradas das pessoas que compõem os grupos sociais minoritários com argumentos interseccionais a partir da raça, classe e gênero. Mulheres brancas são oprimidas, mas a elas é permitido sonhar com casamentos, filhos ou profissões tipificadas de professores infantis e enfermeiras, por estarem atreladas ao cuidado. Porém, as mulheres negras são destituídas de sonhos, sendo-lhe impostos serviços domésticos, em âmbito privado, sem exposição, sempre invisibilizadas. Aos homens negros também foi construído o ideal de virilidade, serviço e marginalidade. Ao mesmo tempo, as crianças negras sequer são consideradas crianças, desde pequenas, as suas infâncias são estigmatizadas com estereótipos de criminoso ou violento para os meninos, e de empregadas para as meninas, que também são sexualizadas.

A brutalidade do Estado brasileiro é tão intensa que, embora se apresente como Democrático de Direito, sua essência é de uma organização violenta que não garante às minorias negras a mesma cidadania concedida aos homens brancos. As crianças negras não possuem o reconhecimento ou a garantia de sua infância do mesmo modo que as crianças brancas, e a lei mais aplicada pelo Estado aos negros, quando adultos, é o Código Penal.

A raiz desses problemas ainda não foi cortada, porque são atitudes imbuídas no inconsciente de muitas pessoas, que internalizam o limite colocado pelas discriminações e preconceitos através da disciplina dos corpos das mulheres e negros com brinquedos, novelas, filmes e literatura. O Professor Silvio Luiz de Almeida afirma que construir um machista e racista também é um trabalho árduo, visto que exige justificar a subalternação do outro com explicações pseudocientíficas e falsas. Porém, ao longo do tempo, a discriminação faz com que o racismo e o machismo estruturem a formação das pessoas e que a sociedade se estruture segundo ideais racistas e machistas, a ponto de sua reprodução se tornar costumeira, normalizada.

Desta forma, torna-se importante a representatividade de mulheres e negros em espaços definidos socialmente como de homens brancos, para que se confrontem as desigualdades raciais e de gênero. Porém, isso somente vai acontecer quando tomarmos consciência que o limite imposto, porquanto injusto, deve ser ultrapassado. Esse limite é uma construção desleal, na medida que impede que pessoas não tenham acesso a bens e a direitos com base em critérios totalmente desumanos.

As estruturas raciais e de gênero são os limites sociais que podem ser ultrapassados pela desconstrução social a partir de reflexões, críticas e apoio coletivo, de modo que seja possível vislumbrar novos horizontes em que as mulheres e os negros possam planejar a sua vida da mesma forma que os homens brancos sempre fizeram.

Ainda que a simples presença de negros e mulheres em lugares de hegemonia branca e masculina não seja suficiente para acabar com as discriminações, ela é necessária, pois se trata não apenas de questão democrática e humanitária, é uma forma de mexer nas estruturas, ao mesmo tempo que ativa o imaginários das minorias de que elas podem estar onde quiser, como quiser e com quem quiser.

As manifestações da desigualdade são tão sofisticadas que a padronização de carreiras profissionais é determinada por divisão de raça e classe, a ponto de as crianças negras, quando falam que, “quando crescerem”, gostariam de exercer profissões estabelecidas como de brancos, acabam sendo ignoradas ou viram motivo de piadas, o que mitiga seus sonhos desde pequenos.

Apresentam-se tantas dificuldades na vida das minorias, que muitas vezes o opressor consegue o que mais deseja, a conformidade do oprimido. No livro O alegre canto da Perdiz, de Paulina Chiziane, a personagem Delfina é uma jovem negra que tem muitos sonhos, e o principal é ter uma vida luxuosa como a dos brancos e sem os sofrimentos de fome e trabalhos desgastantes. Todavia, ao ver que a filha estava sonhando para além da realidade, Serafina lhe diz: “Não sonhes alto que te magoas. Ah, Delfina! Para nós, negras, sonhar alto é proibido”. Essa história se passa em Moçambique, então colônia portuguesa, mas é universal para muitos(as) jovens negros(as).

A resistência contra a padronização e inferiorização começa quando entendemos que ninguém deve definir o que queremos ser, não deve haver proibições com base em raça, classe ou gênero.

Outra questão importante é enfatizar que não cabem comparações entre homens negros ou mulheres, de um lado, e os homens brancos, de outro.

Lélia Gonzalez, no artigo Racismo e Sexismo, ao narrar sobre a falácia da meritocracia, da democracia racial e criticar o fato que sempre que tem alguém fora do lugar determinado, tentam justificar a posição desse “estranho” fazendo o seu branqueamento, exemplificou que um homem branco vive no processo de negação da realidade com argumentos como “Preto aqui é bem tratado, tem o mesmo direito que a gente tem. Tanto é que, quando se esforça, ele sobe na vida como qualquer um. Conheço um que é médico; educadíssimo, culto, elegante e com umas feições tão finas… Nem parece preto”.

Quer dizer que, mesmo quando alguns integrantes da minoria alcançam os seus sonhos, eles acabam tendo sua identidade rejeitada, como no caso de que o sujeito nem parece um preto, ou que a mulher nem parece mulher em razão de sua firmeza no exercício das atividades profissionais.

Mas nada melhor que o acalento da luta pela desconstrução social a partir da unidade e, nas palavras da Conceição Evaristo, “é tempo de formar novos quilombos, em qualquer lugar que estejamos, e que venham os dias futuros, salve 2020, a mística quilombola persiste afirmando: ‘a liberdade é uma luta cO Estado brasileiro, constituído a partir de ideais patriarcalistas, racistas e autoritários, estabelece um lugar e funções distintas para cada pessoa, homens brancos, mulheres brancas, homens negros e mulheres negras, homens e mulheres proprietários, homens e mulheres trabalhadores, bem como para asonstante’”.

 

3 Comentários

  • No Brasil temos uma das sociedades menos racista do mundo, aqui homens de quaisquer etnias tem amplas liberdades e são valorizados independente da cor de sua pele, temos alguns casos isolados em que homens de outras etnias tendem a desrespeitar uma outra pessoa de outra etnia.No passado em qualquer parte do mundo, existia a escravidão, branco escravilizando branco, branco escravilizando negro e negro escravilizando branco, como alguns caso esporádicos por exemplo no Brasil, ao passo que no norte da Africa era comum negro escravilizar brancos.Os indios foram muito escravilizados na maioria dos paises da America, sendo que no Brasil exisitu em 1566 a lei de escravidão voluntaria do indio, e em 1570 a lei que estabelecia a liberdade indigina, somente em guerra justa, uma vez que os indios guerriavam muito entre tribos.Em 1831 praticamente acabou a escravidão negra no Brasil onde era proibido trazer escravos negros no Brasil,mas foi mais para os “ingleses ver” ou seja lei para ingles ver.Os negros na Africa como todos os povos primitivos eram compostos por diversas tribos, e existia as guerras tribais, os negros capturados ou vencidos em batalhas eram negociados pelos proprios negros nativos com os escravocratas brancos como:- portugueses,espanhois,franceses,holandeses,britanicos, para trabalharem como escravos na America.Portanto a escravidão só começa a acabar com o advento da revolução industrial que tem como berço a Inglaterra. Nos EUA, o norte industrializado foi abolindo a escravidão negra e indigina, o sul amplamente agricola,dependente de mão de obra barata, mantinha a escravidão, so terminando com uma guerra a chamada “guerra da Secessão” ou guerra Civil Americana, de 1861 a 1865.Observamos que a escravidão que é uma das mais antigas praticas humanas, só foi possivel sua extinção embora demoraram mais para acabar em paises islamicos, por um motivo economico, ou seja o moso de produção de manual para mecanizado.Portanto de nada serve ficar ai questionando e censurando os escravocratas todos já mortos, pois os mesmos pertenceram a uma epoca em qua a produção era totalmente manual e a atração animal.O melhor instrumento para dar a um etnia menos favorecida economicamente, como negros ou pretos ganham menos que brancos, é somente pela educação ampla e gratuita , com o desenvolvimento cognitivo, tornando os negros bem competivo com os brancos no mercado de trabalho, pois no esporte os mesmos ganham muito mais que os brancos em geral.De nada vale os atritos pseudos-raciais, somente com a educação ampla e gratuita é possivel equiparar todos nas mesmas condições de sobrevivencia.

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  • Um texto incrível! Me sinto acolhida neste artigo e me sinto motivada também, porque estou exatamente onde quero estar, pesquisando, estudando e nessa luta constante! Waleska, você emana luz🌻

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