O Poço: os perigos estéticos e políticos de uma alegoria vazia

Ontem tive o grande desprazer de assistir “O Poço”. Seria uma mentira resumir apenas como uma péssima experiência no sentido estético, pois além dessa atribuição trata-se de um filme com uma abordagem e diversos elementos completamente perigosos.

Existe como um ponto presente princípio narrativo e desenvolvimento da obra uma dimensão ideológica que pretende inverter e mistificar as relações sociais. O Poço tenta reconstruir em sua alegoria o entendimento de uma sociologia vulgar, que a sociedade é feita de patamares onde alguns estão no topo social possuem acesso a abundância, e por esses poucos possuírem uma natureza egoísta ou por medo da escassez, tendem a consumir mais do que precisam. Até ai tudo bem… poderia ser apenas mais um filme entre milhões sobre a “desigual distribuição de riquezas”, “o homem e um princípio de ruptura com sua natureza egoísta” ou sobre “a necessidade do exercício da ação comunicativa para convencer e garantir o direito do acesso de todos a parte do banquete”.

A questão é que “O Poço” se utiliza desta premissa equivocada sobre as relações sociais para apresentar uma saída ainda pior, se constrói uma salvação mítica e reacionária. Quando o protagonista reconhece a falência da alteração por meio da violência ou do diálogo se apresenta através da construção de uma simbologia. Porém o campo simbólico, não é algo fortuito ou uma última alternativa mas já estava presente desde o início do filme.

Neste momento se torna explícita a Alegoria mítica e religiosa. O indivíduo heróico que carrega uma mensagem moral inserido em um mundo que corrompeu todos os conjuntos morais e somente no sacrifício (desde sujeito específico, pois os outros não são puros ou capazes de levar a mensagem), que as relações podem ser repensadas e restabelecidas. As relações diretas a um “Messias” não são involuntárias, a própria descida do protagonista no poço, principalmente quando a câmera foca no seu rosto, fazem uma analogia ao caminhar de Cristo para ser crucificado. A criança significa o renascimento.

O poço é parte de um conjunto estético reacionário, que utiliza da “dimensão social” para apresentar uma saida social mítica. Filmes não precisam ser sobre revolução, mas ideias estéticas como essas com tamanha repercussão principalmente nesses tempos, devem ser combatidas ou minimamente criticadas.

Por Ayrton Otoni

O Poço os perigos estéticos e políticos de uma alegoria vazia

6 Comentários

  • Uma pergunta sincera ao autor Ayrton Otoni : Qual é a premissa “correta” sobre as relações sociais? Senti falta desse contraponto no texto.

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  • Doeu? É a realidade, nua e crua, irretocável, só não vê quem não tem vergonha na cara…

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  • Olá, pessoal! Obrigado pelos questionamentos.
    Esse texto foi uma publicação no meu Facebook, a ideia era ser uma rápida e breve reflexão sobre as impressões sobre o filme.
    Logo faço uma crítica com mais fôlego abordando os elementos e colocando o contraponto de um conjunto estético que aponte um caminho da emancipação humana.
    Abraços!

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  • Qual a novidade? “O de cima sobe, o debaixo desce” ou a busca pela salvação simbolizada no garoto e antropofagias nos intervalos mais duros. Perdemos muito tempo interpretando interpretações em vez de olhar as coisas. Um empreguiçamento do pensamento que favorece o especialistas oportunistas de plantão. Um filme é só entretenimento. Em duas horas sofremos catarses e mimeses temporárias. Depois vamos dormir… Ou não!

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  • O filme é muito provocativo e nos chama a análises menos (Julgadoras) vazias e prolixas como foi a sua.

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