O primeiro ano na eternidade de João Gilberto

Há sempre um momento disruptivo em que a arte de um povo se emoldura para o futuro. O fenômeno artístico orgânico se condensa por dentre as fumaças do passado, presente e futuro. Este movimento raramente se pessoaliza, devido à orgânica horizontalizante da vida cotidiana. Não dá pra dizer que Miles Davis é para o Jazz (e, consequentemente, para a música americana em geral) o que João Gilberto é pra música brasileira. João personaliza tudo. A unicidade entre o violão, a voz e o ritmo é a unicidade do Brasil de norte a sul. A euforia contida é como a prisão do nosso futuro prometido. Chega de saudade.

A modernização – enquanto movimento – da música popular brasileira tem início um pouco antes da chegada de João. Antônio Carlos, o Brasileiro Jobim, ao lado do discreto Nilton Mendonça, já havia composto algumas das canções que elevariam o status da música brasileira perante o mundo. Das noites mal dormidas de uma Rio de Janeiro provincianamente moderna nascia essa junção de elementos que desemboca no Carneggie Hall, em 1962, onde os maiores nomes da música mundial aguardavam os patriotas que foram defender a música do Brasil. Ali o mundo conheceu as praias de Ipanema, a multicultura imigrante paulista, o lamento elegante-contido do sul e, mais importante, o batuque das regiões quentes.

O grito contido transposto em cada sílaba cuidadosamente cantada transborda a fúria de existir de um povo. João construiu o país com a fúria. Engana-se quem enxerga a aparente passividade de um Brasil “cordial”. A bossa de João é a conquista de um povo. Bim bom.

João condensa todo o movimento. A revolução de Tom, a forma de Alf, o batuque de Donato, o ímpeto de JK, a força de Glauber, o projeto de 22 e a independência do Brasil.

João Gilberto é o Brasil e o Brasil é João Gilberto, afinal.

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