Filme mostra os bastidores da política externa dos EUA sob Obama

Em janeiro foi lançado um documentário sobre a política externa dos EUA chamado “The Final Year” (O ano final) de Greg Barker, e está disponível na Netflix. O filme, de aproximadamente 1h30, acompanha quatro funcionários do alto escalão da política externa norte-americana durante o último ano do governo de Barack Obama. São eles John Kerry, o Secretário de Estado que substituiu Hillary Clinton após o fim do primeiro mandato; Samantha Power, a embaixadora dos EUA na ONU que também assumiu esse cargo no segundo governo; além de Susan Rice e Ben Rhodes, ambos “national security advisor” (assessor de segurança nacional), cargo importante na Casa Branca, que já foi ocupado por figuras como Henry Kissinger, Colin Powell e Condolezza Rice.

O documentário claramente tem uma percepção de que a política externa de Obama é “progressista”. Ele faz o acordo de Paris sobre meio ambiente, o acordo de Cuba para iniciar o fim do embargo, o acordo com o Irã sobre a questão nuclear. Diversas questões complexas são enfrentadas com o tradicional discurso de empatia e defesa dos direitos humanos combinado com a segurança nacional; como a insurreição do Boko Haram, grupo terrorista violentíssimo que tenta dominar uma parte do território da Nigéria; o Estado Islâmico e a guerra civil na Síria com a brutalidade fundamentalista em Aleppo; relações tensas com o Egito; mais tensas ainda com a Rússia, etc.

De outro lado, o filme mostra os interessantíssimos gestos de “reconciliação” que o Obama fez com países contra os quais se abateram a máquina de guerra americana no passado. Além do acordo em Cuba, ele vai a Hiroshima e faz um discurso sobre a bomba atômica ao lado do primeiro-ministro japonês, e se encontra com sobreviventes e descendentes de vítimas do mais brutal ato de guerra já realizado, propiciado pelo desenvolvimento das forças produtivas industriais.

Ele vai ao Laos, país que também foi vítima da violência norte-americana na Guerra do Vietnã, com bombardeios de napalm que incendeiam e contaminam quimicamente a selva para desentocar os guerrilheiros que defendiam suas nações. Esse fato é bastante chocante. O pequeno país vizinho dos vietnamitas foi mais bombardeado que a Alemanha e o Japão juntos na Segunda Guerra Mundial, com cerca de dois milhões de toneladas de explosivos. O filme mostra Richard Nixon mentindo na televisão ao dizer que não estavam bombardeando o Laos, e Obama pede desculpas por essa “guerra secreta”. Além disso, muitas dessas bombas não explodiram, e permanecem ativas até hoje causando dezenas de mortes por ano, e o presidente americano promete ajuda para rastrear e desativar os armamentos que continuam gerando vítimas de uma guerra encerrada há mais de 4 décadas.

O filme é muito bem produzido, e tem acesso a bastidores realmente impressionantes. São diversas as cenas com Obama falando diretamente para a câmera do documentário, mas também com negociações, com preparações para coletivas de imprensa, e claro aparições públicas como seu último discurso na ONU. Kerry, Power, Rice e Rhodes são constantemente entrevistados. Eles falam inclusive sobre conflitos uns com os outros, sobre matérias negativas da imprensa, e até suas casas e famílias são mostradas, além de imagens antigas sobre suas trajetórias. Um dos pontos altos é o contraste entre o John Kerry jovem veterano da Guerra do Vietnã, que ascende politicamente liderando um movimento contra a guerra, e depois como Secretário de Estado defendendo a intervenção militar na Síria.

Esses são exemplos do que o filme mostra com bastante brilho. Porém, a narrativa parece claramente querer marcar posição contra as mudanças bruscas de rumo da administração de Donald Trump, mostrando os efeitos de suas declarações durante as eleições de 2016 na equipe da política externa de Obama. Além, é claro, de insistir na construção ideológica maniqueísta do mundo, num momento quase ridículo de tão hipócrita, com imagens da indignação dos funcionários do governo americano contra as maldades perpetradas pelo vilão sádico, Vladimir Putin.

Donald Trump, apesar das aparências, não tornou a política externa dos EUA mais agressiva. Os tuítes virulentos contra a Coréia do Norte no começo da gestão terminaram num encontro inédito com o líder Kim Jong-Un. Se concretizado, esse acordo colocará Trump num lugar de destaque na história da diplomacia internacional com a possível desnuclearização da península coreana, enclave altamente complexo da Guerra Fria, que passa por dificílimas negociações com a China, o gigantesco parceiro comunista dos norte-coreanos. Por outro lado, ele acirra cada vez mais as tensões com o Irã, ameaçando romper o importante acordo nuclear assinado por Estados Unidos, Reino Unido, França, China, Rússia e Alemanha.

Já Obama violou a soberania do Paquistão para assassinar Osama Bin Laden, porque considerava que isso respondia aos interesses norte-americanos. Ele autorizou a espionagem de milhões de civis dentro e fora dos EUA, e de estadistas de vários países, inclusive Dilma Rousseff. Aliás, a presidente do Brasil foi deposta por uma crise iniciada na maior empresa brasileira, a Petrobras, competidora internacional no mercado de petróleo que, para os americanos, é motivo de guerra, sejam eles democratas ou republicanos.

O fato é que a política externa dos EUA é guiada em última instância por apenas um valor: a defesa dos interesses nacionais dos EUA. Não importa quem comande o barco, ele pode fazer caminhos diferentes, mas o horizonte é sempre o interesse nacional da maior potência imperialista do mundo. Dessas nuances entre republicanos e democratas aparecem alterações que parecem relevantes, e são, mas expressam apenas a existência permanente de contradições na atuação do Estado norte-americano em prol do próprio Estado norte-americano.

“The Final Year” vale a pena para ver como uma determinada gestão dessa política externa se deu num momento específico, mas é preciso tomar cuidado para não se deixar levar pelo discurso, tão eloquente quanto ideológico, do mais carismático presidente dos EUA desde a chegada dos Kennedy à Casa Branca.

The Final Year filme sobre a política externa de Obama

Deixe uma resposta