“Olavo de Carvalho do B”: a comunidade do Orkut que mudou o Brasil

Olavo de Carvalho do B foi uma comunidade do Orkut, primeira grande rede social a conquistar o público brasileiro. O grupo se pretendia um campo ”neutro” pra conversar sobre os aspectos implicados na atividade intelectual e política do filósofo da Virgínia. E acabou atraindo um público bastante diversificado que falava de geopolítica a esoterismo, da política do dia a intricados labirintos teológicos.

Entre os membros mais frequentes se encontravam conservadores bastante próximos a Olavo e que acabaram fundando editoras ou seguindo a via política, dando apoio ao governo Bolsonaro. Também participaram membros que mais tarde ganhariam importância dentro do campo liberal brasileiro, incluindo aí o MBL. Havia militantes petistas históricos, trotskistas, social-liberais.

As disputas filosóficas eram intensas, bem como os conflitos em torno do tópico religião: cristãos ortodoxos, católico-romanos, protestantes, budistas, hinduístas, muçulmanos, neoplatônicos e gnosticos se digladiavam e ofereciam leitura dos assuntos cotidianos e sobre tópicos da ”história universal”.

A natureza da sociedade estadunidense, os elementos do neoconservadorismo e o embate entre unilateralismo e multipolaridade estavam entre as conversas mais comuns. Muito se discutia também sobre o papel do Islã e do cristianismo no mundo contemporâneo. Fora os intermináveis debates em torno de autores ”perenialistas” ou da ”escola tradicionalista”: René Guénon, Fritjof Schuon, Julius Evola, Ananda Koomaraswamy e outros.

Por causa das discussões geopolíticas, a comunidade ficou atenta aos passos do governo de Vladimir Putin, a reafirmação do poder russo e a contestação da unipolaridade norte-americana. A partir de 2008, os tópicos sobre o filósofo Alexander Dugin se multiplicaram no fórum. A Olavo de Carvalho do B se tornou, provavelmente, o primeiro espaço brasileiro em que se estudou e conversou a sério sobre o acadêmico russo.

Membros da comunidade articularam o hoje famoso debate entre Dugin e Olavo, publicado na internet a partir de março de 2011. No ano seguinte, em fins de 2012, outros participantes do grupo organizaram a primeira vinda do russo ao Brasil, para ciclos de palestras em Universidades brasileiras [UERJ, USP etc.]. Dugin apresentou na ocasião suas reflexões iniciais sobre a Quarta Teoria Política, que levaria ao lançamento de um livro dois depois.

Vai ser difícil compor uma história dos movimentos políticos brasileiros desse início de século sem citar a OdeCdoB, como a chamávamos. O próprio Olavo de Carvalho baixou mais de uma vez na comunidade, defendendo seus pontos de vista em longos tópicos que contestavam sua americanofilia, liberalismo e leituras religiosas e esotéricas.

O Brasil nunca mais seria o mesmo depois da interação permitida pela OdeCdoB.

Por André Luiz Dos Reis

1 Comentário

  • Uma esperança para os Youtubers anarcocapitalistas e fóruns MGTOW, já há uma trilha aberta para qualquer doidinho com acesso a um computador influenciar a história brasileira.

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