JONES MANOEL: Já ouviu falar de “terrorismo da indignação”?

É um conceito usado por Domenico Losurdo (até onde sei não é sua criação) que visa captar uma dimensão muito importante da luta política: o que é considerado imoral, desumano e violento ao ponto de justificar violência de volta (e por tabela o que não entra nessa visão). Posso explicar a partir de dois exemplos.

O líder – Eu sou acusado de ser um totalitário imoral por reivindicar e defender nomes como Mao e Kim Il-Sung. O argumento básico é que esses homens foram ditadores, totalitários, genocidas, responsáveis por granes crimes contra a humanidade. Essa narrativa, difundida aos montes pelos monopólios de mídia, ganha ares de verdade histórica incontestável, tão incontestável que defender o legado desses dois, não importando a forma dessa defesa, é considerado em si algo inaceitável. Uma não-posição, um crime moral. Em nome da democracia é importante banir do debate esses imorais com essas posições. Em nome da democracia e da liberdade temos que bater, perseguir, matar quem nega tão profundamente os direitos humanos.

No caso de George H. W. Bush e Ronald Reagan, admirar ou não, reivindicar ou não, é só um debate sem sentido moral ontológico. Você pode gostar ou não gostar. O fato do primeiro ter sido responsável por milhões de mortes a partir de guerras criadas com mentiras ou ter deixado a população negra morrer propositalmente no Furacão Katrina, não torna Bush um monstro, um ser indigno, não gera questionamentos sobre seu partido, o sistema político dos Estados Unidos ou o liberalismo e conservadorismo. Assim como Reagan ter sido um apoiador dos regimes de segregação racial em África, ter deixado a população do gueto negro morrer na epidemia de HIV ou ter operado a morte de milhões em sua política externa também é um detalhe.

JONES MANOEL Já ouviu falar de terrorismo da indignação

Quando é cruzada a fronteira da moral? É o poder dominante usando principalmente os monopólios de mídia, mas também universidades e acadêmicos, que determinam o que é moral e o que é por essência imoral. E essa fronteira não tem sentido lógico. É cínica e obedece aos imperativos de poder do momento.

O acontecimento – É considerado um crime, uma prova de aberração, eu afirmar, com base em provas oficiais e fartamente documentadas, que não aconteceu massacre da Praça da Paz Celestial. Morreu gente? É claro e ninguém nega isso (o governo chinês também não). O que não aconteceu foi o governo chinês mandar o Exército atirar e chacinar a multidão na praça. Ordens de execução, uso pelo exército de artilharia para morte em massa, nunca aconteceu. Claro, eu falar isso é a prova suficiente para afirmar que sou um “stalinista fanático” e “relativizador de crimes contra a humanidade”. O debate não é historiográfico e de provas. É um debate moral e é, em si, imoral questionar a versão dominante.

No mesmo ano dos acontecimentos na Praça da China, aconteceu a invasão Panamá comandada por Bush Pai. Foi o maior massacre da história do Panamá. Até hoje não há consenso no número de mortos, e ele pode variar entre 3 mil ou 15 mil. Bush Pai não foi considerado um criminoso internacional, os Estados Unidos enquanto país não foram condenados e considerados a quintessência da violação dos direitos humanos, não existe lembrança todo ano da invasão. Um acontecimento no mesmo ano do chinês mais grave, mais brutal, com mais mortos e violência e sem 10% da publicidade dos eventos na Praça da Paz Celestial.

Um acontecimento é fonte de fronteira moral; o outro ninguém lembra, a não ser os moradores do Panamá e meia dúzia de militantes.

Quem decide isso? De novo: o poder dominante.

E os que tentaram ir contra se preparem para receber o terrorismo da indignação!

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