A palavra quebrantada

Escolha seu lado: trabalhador ou cidadão de bem.

São a mesma coisa? Um termo define o outro ou absorve-o? Um e outro diluem-se entre si? Antes ainda… é mesmo preciso escolher?

No cotidiano da sobrevivência, não há nexo para que ambas as expressões se excluam mutuamente. Na peleja pelo poder, interpretamos sem hesitar que sintetizam visões antagônicas de país. A linguagem política massificada descola-se da realidade em que a semântica se espelha, para que possa ser, ao mesmo tempo, seu reflexo, identificada a um terreno comum, como também autônoma a ela. É, virtualmente, uma língua virtual, parecendo ser aquilo que quase é. A guerra dos sentidos torna-se possível sem ter de, necessariamente, apoiar-se no mesmo chão em que a batalha é ganha ou perdida.

Não se trata da novilígua da ficção orwelliana, que funde ou reduz palavras, dando-lhes uma nova existência (no mais das vezes, inexistência). Está mais próximo da Inteligência Artificial. Trata-se dum processo tão artificioso quanto socialmente orgânico, não é deliberação duma tirania distópica, de cima pra baixo, dá-se em todos os lugares (ou vazios), e de modo largamente democrático.

Se existisse mesmo um ‘contrato social’, cada cláusula seria atualizada segundo a corrente das ideias vigentes, e o peso do que é definido dependeria, sobretudo, da concretude dessa vigência, se entendida como fato consumado pela percepção geral – a mesma que foi parcialmente refratada e distendida, para que a versão superpolitizada possa vigir como ordenamento. E mesmo que somente admitamos um arbitrário ‘devir social’, o mecanismo seria idêntico, com seus termos-gatilho e palavras-fetiche.

Trabalhador ou cidadão de bem, de signos verbais comuns, transmutam-se em expressões inequívocas da ficção de massas, cores sólidas estampadas em bandeiras que demarcam os territórios do debate público, antes que aqueles se tornem… públicos.

Como disse Ivonne Bordelois, em seu delicioso livro ‘A Palavra ameaçada’, “A linguagem está antes e depois de nós, mas também, felizmente, entre nós. É o tecido relacional do qual dependem os outros: um tecido forte e subsistente e tão necessário a nossas vidas como a nutrição.” Definhar a linguagem é, conjuntamente, debilitar a consciência do que há entre nós.

O sistema eleitoral vigente, cada vez mais, consiste em mutilar o que dá sentido à comunicação, para, de quatro em quatro anos, realizar a promessa da conciliação. E a realidade nos mostra que a conciliação dos fragmentos se torna progressivamente quebradiça, porque a violência tomou conta da linguagem, e faz parte dessa costura. Toda violência pulsante na sociedade, catalisada pelos operadores da política, alimenta-se das repetições artificiais de informações cotizadas, brutalizando o que poderia ser um diálogo nacional – forma e conteúdo da linguagem comum são moldados como marteladas em metal frio.

Precisamos recuperar o território da linguagem, derrubar as bandeiras monocromáticas que estreitam seus sentidos, por um entendimento lúcido dos próprios termos que traduzem a nossa realidade. Assim conquistaremos a horizontalidade, e não achatamento, do que as partes da sociedade concebem (ou descobrir que podem conceber e expressar) como projeto de nação.

Artigo dedicado à Profa. Ivonne Bordelois.

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