A democracia para além da vertigem

Na última semana foi lançado pela Netflix o documentário “Democracia em Vertigem”, um panorama da vida política brasileira, da redemocratização à vitória de Bolsonaro nas eleições de 2018. O filme, da premiada diretora Petra Costa, não esconde seu caráter de narrativa pessoal, entrelaçando a história brasileira à história da família da cineasta, seja pelo viés dos pais, militantes que participaram da luta clandestina contra a ditadura militar, seja pelo outro lado da família, fundadores e herdeiros da empreiteira Andrade Gutierrez. Visualmente o filme prende a atenção do espectador e Petra atinge o seu intento de criar uma obra catártica. É impossível não se envolver e rememorar todas as principais passagens pelas quais o filme passeia, principalmente da nossa história recente, da posse de Lula a derrocada do PT. Aos da esquerda, a angústia e a emoção são garantias certas nas pouco mais de duas horas de filme. Porém, não é sobre os aspectos técnicos, muito bem desenvolvidos pela cineasta, que quero falar nessa reflexão, mas sim sobre a narrativa construída por ela e suas limitações.

“Democracia em Vertigem” não é propriamente um filme “chapa branca”, existem ressalvas às escolhas políticas do PT, é um fato. Porém, essas ressalvas são insuficientes para entender a derrocada do projeto lulista. A diretora, basicamente, coloca como a raiz de todos os problemas a chamada “conciliação”, ou seja, o grande pecado do PT foi conciliar politicamente com partidos conservadores. Ora, mas é possível governar dentro de um sistema democrático sem alianças? Ainda mais um país das dimensões e contradições do Brasil? É comum uma crítica moralista e purista confundir a principal qualidade do PT, a de conseguir se articular dentro da esfera política brasileira para governar, ou seja, conciliar interesses, como sendo o seu grande pecado. Não é. O Brasil moderno nasceu da conciliação entre forças divergentes que realizaram a Revolução de 1930 e levaram Vargas ao poder. Então o sucesso da conciliação depende da qualidade política que se dá a ela. A conciliação não é um problema em si mesma. A limitação do PT nunca foi moral, mas sim de projeto político, algo que não é contemplado pela narrativa do documentário. A falta de um projeto estratégico, nacional, e a crença em um republicanismo abstrato, que só reforçou o papel “técnico” do Judiciário como tutor da soberania popular, da democracia, foram de fato os fatores que levaram à derrocada petista. Basta citar como exemplo nesse sentido as escolhas dos juízes do STF. Hoje todos conhecem os custos políticos dessas escolhas “técnicas” de Lula e Dilma.

Vale ressaltar também o apagamento completo de outras lideranças e forças políticas do campo da esquerda do documentário, como se a história do próprio PT e da sua principal liderança não estivessem intimamente ligadas a esses outros agentes. Como não citar o apoio de Brizola e do PDT à Lula no segundo turno de 1989 e a aliança de 1998? Por que ocultar da narrativa o gesto de Lula no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, às vésperas de sua prisão, quando o ex-presidente reconhece Manuela d’Ávila e Guilherme Boulos como duas legítimas lideranças da esquerda e continuadoras do seu legado? Mas nada é pior do que o ocultamento das articulações políticas do campo da esquerda para as eleições de 2018. Ciro Gomes e Fernando Haddad, figuras fundamentais nesse processo, sequer são citados. A intenção da diretora parece evidente: criar um nexo causal, sem mediações, entre a prisão de Lula e a vitória de Bolsonaro, como se Lula e o PT, enquanto força hegemônica dentro do campo da esquerda, não tivessem se deparado com outras opções no decorrer do processo que poderiam ter levado a um desfecho diferente.

A sensação que o documentário deixa de atordoamento e completo pessimismo com a vitória de Bolsonaro faz sentido dentro da lógica interna da narrativa construída pela diretora, já que a mensagem é fazer crer que uma vez estando o PT combalido e Lula preso, não há caminhos possíveis para a esquerda. Tal conclusão de fato torna a vertigem regra, mas não ajuda em nada na reflexão para superá-la. A obra se exime, por exemplo, de fazer, ou ao menos tentar, uma análise do apoio popular à Bolsonaro. As imagens da comemoração da vitória do capitão deixam claro que não se trata ali de uma comemoração apenas de membros da elite e da classe média, há algo mais, existe o fator popular e entender esse fenômeno é o primeiro passo para a superação do atual estado de coisas. Da mesma forma compreender que, ainda que a prisão de Lula seja injusta, e cada vez mais fica evidente a parcialidade da Lava Jato, um campo político inteiro não pode ficar refém da sorte de uma única personalidade, por mais importante e carismática que ela seja.

Por fim, o próprio documentário aponta caminhos de esperança, ainda que de forma indireta e fora da narrativa principal focada nos dessabores de Lula e seu partido. Um personagem fundamental traz reflexões que apontam os possíveis caminhos: o povo. Três falas são emblemáticas: dois senhores na praça, um falando que se Dilma fosse derrubada o que se instalaria seria o “governo dos ricos” que entregaria “a Petrobrás e as nossas riquezas” para os EUA. O outro complementa: “O PT pelo menos garantia pra a gente as migalhas, agora esses daí nem isso”. A última, a fala da faxineira do Congresso: “Ela (Dilma) fez por merecer, mas desse jeito que foi não pareceu certo. Ela foi colocada lá pelo povo e não foi o povo que tirou ela. Será que existe mesmo democracia?”. A sabedoria do povo brasileiro é enorme e apostar nessa inteligência, mais do que em um projeto político que se esgotou, parece o melhor caminho para superarmos a vertigem que tomou conta do Brasil.

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