Pautas identitárias: o método por trás das lutas

Recentemente, lutas histórias de mulheres, índios e negros ganharam uma nova qualificação. São as políticas identitárias. Apesar de só há pouco, popularizado no Brasil, este termo remonta à década de 70. O termo surgiu com o coletivo de mulheres negras e lésbicas denominado Combahee river. O Combahee river collective surgiu em Chicago e atuou entre os anos 1974 e 1980 em Boston. Era um movimento de mulheres negras e lésbicas que não estavam se sentido apropriadamente representadas pelo movimento feminista — predominantemente branco — em suas demandas específicas. O coletivo acreditava que “a libertação de todas as pessoas oprimidas depende da destruição do sistema econômico e político do capitalismo, imperialismo e patriarcado”. Além do termo “identitarismo”, o coletivo se destacou pela elaboração de uma declaração. A declaração era dividida em três capítulos. Em um deles, chamado “A importância da libertação das mulheres negras” destaca-se: “raça, sexo e classe são fatores simultâneos da opressão”. Salta aos olhos a vinculação entre as lutas, assim como a visão de que suas reivindicações estavam entrecruzadas às lutas de classes e, em última análise, a luta contra o sistema capitalista. Daí também o conceito de interseccionalidade.

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Combahee River Collective

A associação entre movimento feminista e a luta de classes é um dado da realidade. A história do dia internacional da mulher é bem representativa. Surgiu durante a Segunda Conferência Internacional de Mulheres Socialistas, organizada em Copenhague, em 1910. A conferencia teve origem com o Movimento das Trabalhadoras Alemãs fundado por Clara Zetkin em reação ao que considerava “movimento feminista burguês”; desconectado com as lutas dos trabalhadores e associado aos princípios da sociedade capitalista. Para Zetkin, as lutas das mulheres deveriam seguir alinhadas com as dos homens pertencentes à sua própria classe, não contra, e na direção de interesses comuns. Mesmo nos Estados Unidos, a luta contra os direitos da comunidade negra esteve sempre umbilicalmente atrelada às lutas contra a pobreza e em profunda coalisão com as classes trabalhadoras. O discurso de Martin Luther King no ano de 1967 é emblemático. No discurso, Luther King elenca os três males da sociedade: militarismo, pobreza e racismo. Ademais, Luther King se engajou em lutas internacionais, como a luta anticolonialista de Mahatma Gandhi, de onde extraiu princípios de não violência. O ativista e intelectual Theodore Allen escreveu um tratado chamado “A invenção da raça branca”. Para Allen “Quando os primeiros africanos chegaram na Virgínia em 1620, não existia pessoas “brancas” lá, não de acordo com os registros coloniais, isso persistiu por mais 60 anos”. Registros da rebelião do Bacon em Virginia, datada de 1676, dão testemunho de que 400 trabalhadores negros e europeus — como eram chamados os brancos — lutavam lado a lado em prol de direitos comuns, incluindo a abolição.

Diante das constatações históricas, Allen defende três teses ainda não refutadas:

1. A “raça branca” foi inventada como uma classe dominante de controle social, em resposta à solidariedade entre trabalhadores, constatada no manifesto da Rebelião do Bacon (1676-77);
2. O sistema de privilégios raciais foi deliberadamente institucionalizado no final do século XVII e começo do século XVIII pela burguesia americana e inglesa com o intuito de definir e estabelecer a “raça branca” e um sistema de opressão racial;
3. As consequências não foram somente “desastrosas” para os interesses dos afro-americanos mas também “ruinosas” para os trabalhadores europeus americanos.

A história testemunha a tentativa, bem-sucedida, em desagregar grupos com interesses comuns, confrontando-os através de pequenos privilégios, oferecido a um dos lados e minando suas forças contra o inimigo comum. Nesse caso, os patrões. Os movimentos de supremacistas brancos seria a consequência mais nefasta desse processo histórico. Não seria nenhum exagero extrapolar este fenômeno para a ascensão de um líder como Donald Trump à presidência do país mais poderoso do mundo. Seja no século XVII, seja na institucionalização do dia internacional da mulher, surgido pela Conferência Internacional de Mulheres Socialistas, em confrontação ao movimento feminista burguês, sempre houve tentativas em desconectar “pautas identitárias” e a luta de classes. O desencaixe, desagregador, alimenta o ódio, a desunião e claro, movimentos conservadores. Mas o que este arcabouço histórico e teórico se relaciona com nossa atual realidade?

Comecemos com as eleições americanas. Mais especificamente, falemos das primárias do Partido Democrata, em que, Bernie Sanders disputou com Hillary Clinton a oportunidade de concorrer à presidência. De um lado estava Bernie Sanders, engajado nas lutas de classes, focado nos privilégios do setor financeiro, na desigualdade social, no desemprego, em programas de saúde, educação; ou seja, problemas da grande maioria dos trabalhadores americanos. Sejam os trabalhadores brancos, negros, latinos ou asiáticos. É uma obviedade que estas lutas favorecem mais àqueles menos favorecidos. Negros, latinos, imigrantes, mulheres e os identificados com a comunidade LGBTI. Do outro lado, estava Hillary Clinton, apesar de comprometida até o pescoço com o setor financeiro e grandes corporações, dirigia seu discurso aos grupos no entorno de pautas identitárias. Segregava cada discurso de acordo com o público. Latinos, negros, imigrantes, mulheres e a população LGBTI. Cada um ganhava uma pílula demagógica, enquanto Hillary engordava seu caixa de campanha com doações que no fim da linha sempre apareciam nomes de defensores dos princípios advindos da democracia liberal, a exemplo do senhor George Soros. Bernie Sanders foi frequentemente acusado de não dar a devida importância para temas identitários, como se o problema do desemprego ou da desigualdade social não estivessem nevralgicamente conectados com estas comunidades. Não seria esse o real significado de interseccionalidade? O resultado todos conhecemos.

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George Soros

No Brasil o tema das pautas identitárias ingressou com uma força descomunal. E, claro, com uma potência desagregadora de ordem nuclear. Com dinheiro de fundações internacionais como a Open Society pertencente ao já citado megainvestidor George Soros, Fundação Ford, Rockefeller, Bill & Melina Gates; somadas à setores da burguesia nacional, a exemplo da família Setúbal, Marinho e a emergente Fundação RENOVA, lideranças e meios de comunicação “independentes” são formados e pautados nos mesmos princípios liberais. Temas progressistas são colocados na ponta do discurso desde que as lutas de classes, base da subversão dos males do capitalismo e neocolonialismo não sejam questionados. De pautas ambientais, corrupção, educação, até as lutas identitárias, tudo é discutido com ares progressistas e até de esquerda, desde que princípios neoliberais não sejam ameaçados. Meios de comunicação, famosos por suas pautas reacionárias, a exemplo da Rede Globo, são forças atuantes e vanguardistas nesta teia. Esta tomada de pauta, desconectada com as lutas universais, tem um impacto sem precedentes no desenvolvimento econômico do Brasil. Alguém acredita que a Rede Globo tem compromisso com nosso povo? Enquanto líderes destas políticas são “perseguidos” por defendê-las e colocá-las no centro do debate, nossos “supremacistas brancos”, penalizados por mazelas sociais similares, como a famigerada reforma da previdência, posicionam-se em trincheiras opostas. Dividida, a sociedade brasileira não tem discutido um projeto de desenvolvimento universal e generoso. Ao contrário, a sociedade elegeu um identitário à presidência da república. Entretanto, Bolsonaro, não defende os interesses dos negros, mas sim, os dos brancos, heterossexuais e pertencentes a ínfima elite do país.

Ao fim e ao cabo, sejam a que peça desse quebra-cabeça identitário em que se fragmenta a sociedade brasileira o cidadão pertença, como disse Theodore Allen, sofrerá consequências desastrosas. As lutas dos índios, comunidade LGBTI, mulheres, negros e trabalhadores são lutas específicas, mas também comuns. São interseccionais. E foi com esta característica que o termo “identitário” foi cunhado. O ouvinte ao me escutar pode reagir de duas maneiras. Quem disse que esse rapaz branco, de classe média, professor e heterossexual pode elaborar e discutir sobre este tópico. Estou certo que o George Soros e a turma da fundação RENOVA estão com vocês. A segunda maneira é problematizar sobre o que foi exposto e até que ponto suas ideias e ações foram moldadas realmente por você. A mensagem que deixo sobre essa discussão é simples. Brasileiros oprimidos, uni-vos!

5 Comentários

  • Como é bom ver uma página de esquerda finalmente tendo coragem de atacar essas pautas “identitárias” que na verdade são uma versão levemente atenuada do capitalismo, que busca se adaptar aos tempos modernos, conservando a extrema desigualdade social existente e o poder das oligarquias com políticas e propagandas mais palatáveis para a população.

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  • “Temas progressistas são colocados na ponta do discurso desde que as lutas de classes, base da subversão dos males do capitalismo e neocolonialismo não sejam questionados.”
    E essa é a turma que, no Brasil, quer limitar a atuação da esquerda e atrelar o seu destino ao destino do Lula – que até 2014 se gabava de ter sido nos governos do PT que os bancos mais ganharam dinheiro na história do país. Quem não conseguiu somar 2+2 até agora e perceber que a maior ameaça à esquerda brasileira é esse projeto contra-revolucionário de poder (do qual o cachaceiro foi, por muito tempo, o principal ponta de lança, sendo suplantado agora pela Globo e os Pablo Vittar, jornalistas e YouTubers da vida), ou é muito idiota ou está muito comprometido com esse projeto.

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  • Parabéns Marcelo. Quando um identitarista, na sua metralhadora acusatória, não consegue dialogar com o povão, o grande capital comemora.

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  • Muito interessante. Ainda é um assunto que a maior parte da esquerda não consegue enxergar.

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