Picasso do INSS e a Fuga do Lula (I)

Era maio de 2004 e o governo Lula começava há pouco. O Fome Zero ainda era seu programa principal e o ministério de Lula – que ainda não tinha o PMDB – permaneceria estático ao grito de “pega ladrão”. Ou quase.

Estampada na capa do maior jornal do Brasil, a manchete “INSS encontra por acaso obra de Picasso”.

Na foto, o quadro “Menina de Branco”, de Picasso, aparentemente dividia espaço com o quadro oficial de Lula. Como poderia o INSS, numa sala de repartição qualquer, guardar uma obra de milhões de dólares?

Somente um governo deslumbrado e ignorante. Ou uma mídia suficientemente criativa para inventar uma história dessas.

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A revista VEJA mudou radicalmente com a chegada do trotskista Mário Sérgio Conti ao comando da redação. O antigo diretor, José Roberto Guzzo, de fé liberal conservadora, era um homem pacato, cujas relações com o poder eram muito mais afetivas do que monetárias. Conti tinha o ímpeto dos repórteres e talvez uma falta de escrúpulos típica deles. Obcecado pelo “figurino francês” e Proust, Conti fumava um cigarro atrás do outro com a mesma obsessão que publicava qualquer notícia que lhe parecesse relevante, mesmo se esta fosse imoral, como um drama escondido de um artista soropositivo – quando a AIDS era uma sentença de morte –, ou o desabafo de um irmão mimado e ressentido de Collor.

A revista nunca mais foi a mesma. Derrubar presidentes e destruir reputações seria seu norte.

Publicar pra depois perguntar.

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A peça “Antigone” estreiou no Théâtre du Châtelet em 1923. A adaptação de Honegger para a famosa obra de Sófocles encantou o público parisiense, estupefato com a cenografia de Pablo Picasso, que, depois de uma temporada obcecado pelo Teatro russo, retornava ao seu habitat natural.
Antigone tomou muito tempo do pintor. Era afinal, um classic. Sua reprodução fiel seria vulgar; deveria a cenografia saltar os olhos. Saltou.
Nos intervalos da montagem, Picasso viu-se distraído pintando um casal de expatriados, Gerald e Sara Muphy.

Sara Murphy é o nome da Mulher de Branco do INSS.

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André Petry assumiu a direção de redação de VEJA em fevereiro de 2016. Correspondente nos Estados Unidos, voltou ao Brasil com a missão de consertar os estragos feitos por Eurípedes Alcântra. O último, conhecido por sua falta de apreço pelos fatos e pela violência com que atacava aqueles que não compactuavam com sua cartilha policialesca e sensacionalista. A missão de Petry parecia quase impossível. E foi.

Numa das primeiras edições da revista sob nova direção, Petry comeu uma barriga – no jargão das redações – que ficou pra história. Nasceu assim o plano secreto de Lula.

Capa da Revista Veja, de março de 2016.

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“Uma mulher desenhada por Pablo Picasso passa os dias debaixo de luzes fluorescentes e em meio à papelada de uma repartição do governo federal.”

As palavras acima saltavam aos olhos do leitor. A fotografia foi cuidadosamente posicionada para mostrar o “quadro de Picasso” e o retrato do então Presidente Lula.
O quadro Mulher em Branco jamais pisou no Brasil.

Vendido ao Museu de Arte Moderna de Nova York em 1934, fixou lar no Metropolitan em 1951, repousando lá até o presente momento.

Mas, segundo a Folha de São Paulo, o quadro era de propriedade do INSS, vindo como parte do pagamento de uma antiga dívida. A reportagem, fidedignamente fiel ao elitismo, dava a entender que o descuido para com o quadro advinha da falta de preparo do “novo” pessoal que ocupava a região: os petistas.

Bastava apenas uma ligação para algum curador de arte, ou mesmo algum dono de galeria. Apenas uma simples ligação.

Mas os jornais não ligam pra ninguém. Tampouco alguém que realmente entenda do assunto.

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“O plano prevê que Lula pediria asilo a uma embaixada, de preferência a da Itália, depois de negociar uma espécie de salvo-conduto no Congresso, que lhe daria permissão para deslocar-se da embaixada até o aeroporto sem ser detido”.

A mesma Itália que nunca perdoou o Presidente pela acolhida do militante italiano Cessari Batisti resolvera protegê-lo do dia pra noite. A reportagem ainda destacou uma foto de um suposto embaixador-amigo, acomodado na primeira fileira de uma cerimônia no Palácio do Planalto, ainda governado por Lula. O grande indício de VEJA, além de não passar por um exame lógico, também não passou por um exame de vista: o homem da foto não era o embaixador.

A mídia no Brasil é um problema de visão.

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Lula será julgado pelo YouTube na próxima quarta-feira (24/01). O veredicto já foi dado.

A justiça no Brasil é um problema de mídia.

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Dois anos depois da reportagem da Folha, o prédio do INSS onde residia o “quadro” de Picasso pegou fogo. Os bombeiros foram alertados de que deveriam, em meio a chamas, salvar o quadro, afinal, seu valor era inestimável. A cópia “Menina de Branco” foi salva em detrimento do risco de vida de alguns bombeiros.

Ficará guardado no museu. Da burrice histórica.

Renato Zaccaro é escritor, músico e colunista de DISPARADA.

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