ANA SUY: Psicanálise do desejo e da demanda

Por nascermos biologicamente imaturos, se nascemos prontos para algo, este algo é a morte. Assim, uma mãe faz um desvio na morte, na medida em que adota seu bebê e o faz viver, amando-o e alimentando-o, amando-o e cuidando-o, amando-o e amando-o.

Nossas primeiras inserções no princípio de prazer são causadas por um Outro, que lê nossos choros e mal-estares e, a partir de uma interpretação própria, busca nos satisfazer. Por não sermos capazes de nos livrar do mal-estar que sentimos por conta própria, é um outro que nos satisfaz primeiramente e nos enlaça na vida.

Freud diz que na vida psíquica “nada que uma vez se formou pode acabar” (1930, p. 20). Ele nos ensina que a psicanálise não é uma psicologia do desenvolvimento, assim, no mundo psíquico, não nos livramos dos efeitos daquilo que vivemos, embora possamos alterá-los pela via da palavra. Ou seja, de algum modo, fica inscrito em nós uma satisfação primitiva que é ocasionada por um Outro, que a “adivinha”, e assim nos satisfaz.

Com Lacan, vemos que a entrada na linguagem tem como efeito uma perda de gozo. A transformação do desejo em demanda nos faz perder algo. Quando a gente pede algo, esse algo é impossível de ser satisfeito, uma vez que, ao pedir, tentamos transformar o desejo em demanda – mas o desejo é justamente o que escapa à demanda.

Daí os famosos diálogos do “você me ama?/ “sim” / “então me diga” / “eu te amo” / “ah, agora não vale” / “por quê?”/ “porque eu pedi”.

(…)

Se a demanda não dá conta do desejo, talvez seja porque nos fixamos a um tempo em que um Outro, sem que disséssemos algo, nos satisfazia.

O neurótico busca uma satisfação futura na tentativa de retorno a uma satisfação passada. Mas, bem…a satisfação passada era um engodo. Daí a fundamental importância de passarmos de sujeitos desejados a sujeitos desejantes. Ninguém quer ser objeto do outro para sempre. Ser bebê só deve ser bom porque é um tempo que passa.

Diz Freud: “podemos dizer que a intenção de que o homem seja “feliz” não se acha no plano da “Criação”. Aquilo a que chamamos “felicidade”, no sentido mais estrito, vem da satisfação repentina de necessidades altamente represada, e por sua natureza é possível apenas como fenômeno episódico.”

A felicidade não existe de modo definitivo em nossa vida. Os contos de fadas já ensinam: depois do “felizes para sempre” vem o final da história. A felicidade é sempre episódica, a satisfação da pulsão é sempre parcial: eis a castração.

Por Ana Suy.

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