Queda da Alemanha e idiotas da objetividade e do mercado

Em 2014 após a histórica derrota sofrida pela seleção brasileira para o forte time alemão na semifinal e a consequente conquista do campeonato mundial pelos tedescos emergiu um discurso com relativa força em alguns meios de “estudiosos do futebol”: que o desempenho da seleção alemã, a Nationalmannschaft, era fruto da organização da federação daquele país, a DFB, enquanto o desastre brasileiro se devia justamente pela incompetência da confederação brasileira, a CBF.

Daí para o discurso vira-lata de que tudo lá é melhor que aqui foi um pulo. Uma série de platitudes de retórica de colonizado viraram dogmas tido como inquestionáveis, porque apontar suas contradições significaria, segundo estes, referendar uma suposta mentalidade que resultou no 7 a 1. É o que o Nelson Rodrigues costumava chamar de idiotas da objetividade, que creem que o mundo é uma equação matemática e que seguir determinada cartilha vai sempre resultar em algo que pode se predeterminar.

É claro porém que a CBF, a Confederação Brasileira de Futebol, tem muitas debilidades, há relação escusas com emissoras de TV, contratos de patrocínio que já foram razão pra CPI e não cuida bem mesmo dos clubes, os quais também não se ajudam. E também é correto dizer que a federação alemã, a Deutscher Fussball Bund, tem seus méritos. Há coisas boas que fizeram e que a CBF poderia copiar sem que isso implique em dizer que tudo lá é perfeito e que tudo aqui é ruim — pra mim inclusive o trabalho de base na seleção brasileira é melhor que o alemão, já que a CBF desde a década de 80 foi pioneira em profissionalizar trabalho da base e criar uma mentalidade vencedora. O Brasil foi o selecionado que mais venceu em todos os níveis de 1990 pra cá. Não dá pra ignorar isso.

Outro problema desse discursinho vira-lata é que tentam emplacar uma narrativa mercadológica. É como se tirar o futebol dos burocratas das federações e entregá-lo a empresários fosse o caminho a ser seguido pra resolver tudo. Para o leitor pouco afeito ao futebol e seus meandros: é como se disséssemos que substituir o PMDB pelo Partido Novo, porque o primeiro rouba, fosse a solução para os nossos problemas. Porque o Partido Novo defende a privatização total e para essa galera isso acabaria com a corrupção — como se isso fosse verdade e a corrupção o único problema. Enquanto dirigentes da CBF são corruptos e incompetentes, esses tais empresários que querem tomar o futebol pra sí são igualmente corruptos, incompetentes e, pior, defendem futebol só pra rico. Só pra quem pode pagar e dizem isso abertamente sem qualquer constrangimento.

Aliás, alguns desses apologistas de ocasião da organização do futebol alemão dizendo que as misérias do nosso futebol são apenas por culpa de corrupção de dirigente ignora que nenhum Ricardo Teixeira ou Eurico Miranda, por pior que tenham sido e foram, não chegaram nem perto de fazer o mesmo dano ao nosso futebol que a Lei Pelé, que liberou geral, matou clubes do interior, os colocou, eles e suas bases, no bolso de empresários e fez do futebol no Brasil mero exportador de pé de obra para a Europa. Neoliberalismo em estado puro — não é à toa que alguns dos defensores disso lá nos anos 90 agora preguem discurso de modernização e o fim de federações pra entregar tudo a empresários. Na política e no esporte a cretinice sempre se reinventa e se vende como coisa nova pra enganar quem se deixa enganar.

É preciso dizer não pra essa gente e para quem tenta criar narrativa pra vender ideologia barata colonizada, vira-lata e imperialista. E claro: reafirmar o futebol que deve ser decidido no campo. E no campo a Alemanha sempre foi muito forte e, esperamos, volte forte no futuro como o Brasil voltou agora para a Copa da Rússia.

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