Questão nacional e esquerdismo infantil: as lições da história

Em julho de 1920, frente aos conflitos entre tropas revolucionárias e contrarrevolucionárias, o Exército Vermelho protagonizou feroz ofensiva, empurrando os exércitos brancos e poloneses de volta para a fronteira fixada na chamada Linha Curzon. Daí, como bem percebeu o historiador Paulo Visentini [1], uma questão crucial se impôs aos comandantes comunistas: comportar-se como exército russo, e deter-se na fronteira, ou como exército da Internacional Comunista, e levar a revolução até a Polônia? À época, prevaleceu a empolgação de Lenin e Tukatchevski, que conduziu os combatentes às portas de Varsóvia. No entanto, os trabalhadores poloneses não foram seduzidos pela retórica da revolução socialista mundial, e colocaram-se ao lado do patriota e conservador Pilsudski, e da Igreja Católica.

Era o primeiro passo de uma derrota que renderia a perda de importantes territórios russos, e que contribuiria para que Lenin, calejado com a experiência, percebesse o refluxo da revolução europeia, adotasse uma política externa pragmática e deslocasse seus olhos para o Oriente, onde a questão colonial tenderia a fortalecer as aspirações de libertação nacional dirigidas pelas forças comunistas. Nesse mesmo sentido, reforçou o descrédito das teses em prol da revolução permanente e da imediata busca da revolução mundial, já corrente desde o acachapante fracasso de Trotsky quando das negociações com os alemães em 1918. Esse, à época, ignorou as instruções partidárias e insistiu numa “paz sem anexações ou indenizações”, exortando o proletariado internacional, e especialmente os soldados alemães, à revolução. Como resposta, obteve um brutal ataque militar germânico, que forçou os debilitados russos a assinarem a chamada paz vergonhosa de Brest-Litovsk, cedendo vastos territórios aos inimigos.

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As lições da questão nacional, assimiladas por Lenin na derrota em Varsóvia (1920), permitiriam a futura vitória do exército de Stalin, com apoio e popular e em prol da libertação nacional, no mesmo local.

A história do próprio movimento comunista internacional atesta: o afastamento da questão nacional, por um lado, e a adoção de atos voluntaristas dissociados da análise concreta da realidade material, por outro, são elementos que, se combinados, conduzem as forças autoproclamadas “revolucionárias” ao isolamento, e não raramente à colaboração com os mais reacionários elementos de suas respectivas nações. Desde os pensadores clássicos do marxismo-leninismo, como Lenin, Stalin e Mao, até marxistas contemporâneos, como Domenico Losurdo, latino-americanistas, como Rodolfo Puiggrós, e brasileiros, como Ignacio Rangel e Nelson Werneck Sodré, perceberam e ressaltaram essa questão.

No Brasil e no conjunto da América Latina, o embate entre nacionalismo e entreguismo polarizou as sociedades ao longo do século XX, e os partidos comunistas não estiveram alheios a esse processo. Assim, chama atenção que enquanto Getúlio Vargas estabelecia acirrada queda de braço com o imperialismo estadunidense e seus lacaios nacionais, o Partido Comunista do Brasil (PCB) tachasse sua gestão de “instrumento servil dos imperialistas norte-americanos” e “governo de traição nacional” [2]. Também que o Partido Comunista da Argentina (PCA), o que mais detinha influência sobre as seções latino-americanas da Internacional Comunista, tenha se aliado ao embaixador estadunidense Spruille Braden e aos liberais entreguistas para orquestrar um golpe contra o nacionalista Juan Domingo Perón, supostamente “fascista”. No entanto, em ambas as situações, bastou que o protagonismo retornasse às mãos do povo para que a questão nacional se impusesse: quando do suicídio de Vargas, jornais pecebistas foram queimados por populares, e a sede do jornal Tribuna Gaúcha, em Porto Alegre, atacada [3]; quando da prisão de Perón, as massas foram às ruas – no colossal 17 de outubro de 1945 – e o libertaram, ao tempo em que erradicavam a influência comunista dos principais sindicatos do país.

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Distintamente do esquerdismo identitário, a Ação Libertadora Nacional (ALN), do comunista Carlos Marighella, jamais deixou de exaltar Tiradentes, mártir da nação brasileira

Se por um lado o PCB se posicionou de forma semelhante às forças da reação ao longo do último governo de Vargas (1951-1954), por outro também esteve na vanguarda das lutas patrióticas em defesa do petróleo brasileiro, contra a hegemonia dos monopólios estrangeiros, contra o envio de nossos jovens à guerra imperialista na Coreia, junto da nação no combate ao Eixo nazifascista, e em outros tantos capítulos cruciais de nossa história. Justiça seja feita, pois nas fileiras comunistas foram forjados alguns dos mais ilustres patriotas dessa nação, e que, independentemente das variações de suas trajetórias, e de seus erros e acertos, reservaram seus nomes nos altos postos daqueles que construíram e constroem o nosso Brasil. E, alinhados ou não às demais forças nacionalistas, tampouco se eximiram de reivindicar a relevância e centralidade do culto à grandeza, história e cultura brasileiras, o que fica evidente não apenas no comportamento do Partido Comunista, mas de várias de suas dissidências, atentas ao que caracterizavam como a busca da libertação nacional.

Entretanto, ao vermos hoje grupos esquerdistas supostamente “revolucionários” defenderem – alinhados às perspectivas liberais, fragmentárias e neocoloniais do Partido Democrata estadunidense – a derrubada de estátuas dos mártires e construtores da nação, como Tiradentes, parecemos voltar às portas de Varsóvia, as mesmas que amargaram e amadureceram a teoria revolucionária de Lenin, e que anos depois assistiram à libertação da Europa pelas mãos do exército de Stalin. Resta às forças patrióticas brasileiras, marxistas ou não, se organizarem, portanto, para evitar que o passo em falso do esquerdismo infantil e antinacional resulte, como no fatídico episódio dos comunistas russos em 1920, numa avassaladora derrota, que desta vez pode não simbolizar a perda de territórios, mas da memória e história de nosso grandioso Brasil.

[1] VISENTINI, Paulo Fagundes. “Revolução e diplomacia (1917-1941): a política exterior soviética”. Em: VISENTINI, Paulo Fagundes (Org.). A Revolução soviética (1905-1945): o socialismo num só país. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1989.

[2] CARONE, Edgard. O P.C.B. (1943 a 1964). São Paulo: Difel, 1982.

[3] BUONICORE, Augusto César. “Do Manifesto de Janeiro de 1948 à Declaração de Março de 1958”. Em: RUY, José Carlos; BUONICORE, Augusto (Org.). Contribuição à história do Partido Comunista do Brasil. São Paulo: Anita Garibaldi, 2010.

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