Fanáticos religiosos e o permanente estado de exceção do capitalismo

O gesto e a obstinação do jovem Ahmed, que tenta matar a professora porque ela ensina árabe sem utilizar o Corão, pode suscitar a seguinte indagação, ainda mais diante dos olhos do impúbere e terno adolescente de 13 anos: o que se passa na cabeça daqueles que se dispõem a matar ou morrer por um deus ou uma religião?

A história contada pelo filme em cartaz nos cinemas (direção e roteiro de Jean-Pierre Dardenne) se passa na Bélgica de 2018, três anos após o massacre no jornal francês Charlie Hebdo, onde doze pessoas foram mortas e cinco ficaram feridas.

Haja mistérios na consciência de “extremistas religiosos” em relação à própria morte e a dos outros. O que tratamos como fanatismo seria objeto mais apropriado de qual ciência ou de que tipo de perquirição filosófica?

Pergunta pertinente, considerando que a razão instrumental e iluminista do ocidente capitalista, em seu “dispositivo” geral, para usar uma terminologia de Michel Foucault, não consegue explicar, com sua aridez de deserto, a reificação da condição humana – que só começou a ser desmistificada pelo marxismo a partir do século XIX. Não consegue tampouco remediar as consequências imprevisíveis dela (reificação) com suas ferramentas médicas e prisionais.

Uma das características de nossa socialização crescente desde o século XVI – e seu pathos de consequências não mais como aprimoramento, mas sim como escombro – tem sido aquilo que podemos chamar de a história do desmascaramento dos mistérios. De Galileu a Marx, o desassombro veio acompanhado da destruição assombrosa denunciada pelo Angelus Novus, de Paul Klee, conforme a interpretação de Walter Benjamin.

No entanto, alguns mistérios da vida e da morte, bem como o desejo da morte do outro, física ou simbolicamente, ainda requerem desnudamento científico. Chega a causar incômodo aos ouvidos dos evolucionistas transcendentes (sabe-se lá do quê!) a ideia-percepção de que, de todas as espécies animais e plantas, o ser humano é o único cruel.

Assim, falar sobre ética humana de forma verdadeira e honesta só se for colocando no centro do debate a questão da crueldade humana. Sem tocarmos nesse ponto, ética fica sendo história da carochinha para chá das cinco bem-comportado.

Chega a ser desconcertante, por exemplo, o fato de o protagonista do filme não ter nada de cruel no semblante ou nos gestos. Pelo contrário, é obediente e disciplinado perante a mãe e à instituição em que é internado para “recuperação”.

Como não pensar em mistérios em relação à possibilidade da própria morte, como no caso do sujeito que decide matar milhares de pessoas, a exemplo do atentado às Torres Gêmeas de Nova Iorque? Ou os famosos kamikazes japoneses da segunda guerra mundial que se transformaram na metáfora do sujeito audacioso e tresloucado indo em direção ao seu próprio fim?

Dizer que o sujeito é fanático não basta e nada explica. Pode ser tratado, sim, num sentido bem pejorativo, a partir de diferentes perspectivas. Ninguém tem o direito de tirar a vida de ninguém, numa visão cristã e iluminista. Visão divergente, porém, da dos ditames do estado de exceção permanente.

Divergente, portanto, da ideologia capitalista que trata, com fundamentalismo de mercado, a valorização do valor, transformando seres humanos em peças de máquinas a serem repostas ou descartadas e substituídas por robôs. Ideologia que vê com normalidade essa loucura toda de destruição da natureza, matança de etnias e aumento da pobreza nas periferias das grandes cidades – que isso seria o resultado natural da evolução humana.

Fanatismo por fanatismo, o neoconstitucionalismo talvez seja emparedado e denunciado como componente estruturante de uma sociedade hipócrita. Sociedade em que, mesmo admitindo que o direito só pode ser oriundo da política, sempre haverá o estado de exceção. Por exemplo, os expedientes e interpretações de “mutação constitucional”, algo que cria o aberto do relativismo no extremo oposto ao positivismo jurídico.

Isso mesmo: no capitalismo vivemos o permanente estado de exceção, como já bem mostrou Giorgio Agamben. O estado usar a lei para acabar com a lei. A democracia para mitigar a própria democracia. Esse é o direito do mandatário no estado de exceção – à la Carl Schmitt.

Evidentemente não vou contar o final do filme aqui. Basta somente dizer que o desfecho reforça a hipótese do mistério evidenciado pela hesitação do rapaz num momento adverso e imprevisto. Durante a história, ao ser detido para cumprir determinada jornada numa instituição disciplinar, retratada como bem-intencionada e “humana”, Ahmed é posto sob o seguinte foco de luz: você está passando por isso para pensar no que fez, tomar consciência do que fez.

Fora do filme, mas tudo tendo a ver, é de se imaginar que, enquanto algumas instituições tentam “corrigir” comportamentos isolados (valendo isso para a casa de recuperação e para a professora vítima da tentativa de assassinato), não consegue, por outro lado, furar o bloqueio do dispositivo geral da sociedade de mercado. Esse mesmo dispositivo que destrói a potencialidade humana dos indivíduos, transformados em mercadorias mortas-vivas ou em segmentos isolados de uma correia de transmissão religiosa.

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