O “retorno a Stálin”: o que há por detrás?

Louis Althusser, filósofo francês e militante do PCF, em seus primeiros livros como “Por Marx” e “Ler o Capital”, busca uma reinterpretação da teoria marxista através de um “retorno à Marx”, assim como Lacan fazia um “retorno a Freud”. Em que consiste esse retorno? Não trata-se de fazer uma leitura mais refinada, sofisticada, detalhada, absorvendo a verdadeira interpretação. Esse retorno é uma leitura sintomal, descobrir por detrás dos discursos de Marx o que há de cientifico, ou seja, em termos althusserianos a ciência da história. O corte epistemológico althusseriano separa um “jovem Marx”, humanista e defensor da emancipação, contra o “Marx maduro”, da luta de classes e ditadura do proletariado. O Homem sai do centro e entra o anti-humanismo, o sujeito como suporte de estruturas. Entretanto, vou propor outro “corte”, ou melhor, duas tendências no pensamento de Marx: o Marx “exotérico”, da luta de classes, infra estrutura e superestrutura, ditadura do proletariado, bem visto pelos partidos comunistas e sindicatos mais radicais; e o Marx “esotérico”, do fetichismo da mercadoria, sujeito automático e da crise imanente (considerado por Althusser como resquício hegeliano e humanismo, mesmo estando presente nas obras de maturidade). Essa duas tendências, apontadas por Robert Kurz em “O duplo Marx”, se cair na pergunta de: “qual seria a verdadeira interpretação?”, cai em pura filologia sem saída. Marx era um crítico da modernidade, ao mesmo tempo que via uma positividade em certos aspectos do capitalismo, como a “grande indústria”. A questão fundamental é: quais categorias tem o potencial interpretativo para a situação atual de crise que o modo de produção capitalista enfrenta e quais se tornaram anacrônicas?

Como Robert Kurz aponta em “Colapso da modernização”, a derrocada da URSS não foi a vitória do capitalismo, mas o início de seu colapso. Como o capital tende a transformar o trabalho vivo em trabalho morto, a partir da década de 70, com a Terceira Revolução Industrial e a microtecnologia, a “missão histórica” do capital foi cumprida, ele conseguiu inverter de vez a relação com a força de trabalho, e depender cada vez menos de trabalho humano. Se na história da modernidade a contradição capital e trabalho se expressou no antagonismo entre proletariado e burguesia, no pós-fordismo o trabalho humano cada vez mais torna-se supérfluo, e a contradição capital e trabalho se manifesta em incluídos contra excluídos. O capital só gera a autovalorização a partir do trabalho vivo, mas com a racionalização do processo produtivo,  o capital diminui a necessidade de trabalho humano. Porém, a substância do capital é o trabalho abstrato, a geleia indiferenciada de trabalho humano. Logo, no pós-fordismo o trabalho humano torna-se supérfluo com o desenvolvimento das forças produtivas inerentes às relações sociais capitalistas.

A finalidade do capital, sua dinâmica de valorização do valor, ao depender de menos trabalho humano, a partir dessa contradição em processo, se expande a todo o mundo. Surge daí as relações imperialistas entre as nações capitalistas e pré-capitalistas, em que os países periféricos, durante a história da modernidade, transfere valor aos países centrais. Entretanto, a partir da década de 70, o período imperialista entra em colapso: não trata-se mais de um sistema produtor de mercadorias autoexpansivo e autodestrutivo (economia de guerra, antissemitismo, etc); mas um sistema retroativo e autodestrutivo, ou seja, todas as alternativas vinculadas a ideia de “progresso” são autodestrutivas em espiral descendente. O clássico imperialismo transforma-se em imperialismo de exclusão, ou seja, a luta por investimentos é a luta por manter-se dentro da valorização do valor.

A crise do valor não é mais cíclica, mas estrutural, ou seja, as bases materiais de manifestação das abstrações reais do capital (mercadoria, dinheiro, trabalho abstrato, direito, democracia e Estado) estão em colapso. Esse “retorno à Stálin” é mais um tentativa do marxismo tradicional, crítico do modo de distribuição de riquezas,  ou seja, do mercado e da propriedade privada, de manter intacto o modo de produção e restaurar o lado “bom” do capital (“a grande indústria”, o trabalho como ontologia do ser social, o proletariado ) contra o lado “mau” (a financeirização da economia, o capital portador de juros, imperialismo). Essa tentativa de destruir o lado “mau” (valor de troca, trabalho abstrato, sujeito de direito) e preservar o lado “bom” (valor de uso, trabalho concreto, classe operária) é, como aponta Moishe Postone, o fundamento do antissemitismo (conferir “Anti-semitismo e nacional-socialismo” e “Sionismo, anti-semitismo e a esquerda”). O nacional-socialismo ao defender o trabalhador produtivo e o capital produtivo contra o capital fictício, a forma mais fetichista do capital (D-D`), não percebe o que há por detrás de nossas costas: o sujeito automático autodestrutivo.

Já na URSS a repulsa do lado “mau” teve outros contornos, desde Lênin e sua fixação com o taylorismo, que possibilitaria uma crescente produtividade e um melhor disciplinamento dos trabalhadores soviéticos atrasados. Só um “diretor único da fábrica” vai dar jeito nesses insolentes indisciplinados. O stalinismo com a perseguição aos intelectuais, como Issak Rubin e Pachukanis, esses vagabundos que não trabalham e só falam em abstrações. Tem que colocar os intelectuais para trabalhar e entenderem os dilemas da classe operária, pois ela é o sujeito revolucionário (a substância revolucionária do capital, mas já em colapso há muito tempo). O que há por detrás desse “retorno a Stálin”: a reação do marxismo tradicional ao sujeito automático em colapso produtor de uma humanidade supérflua, almejando restaurar a sociedade do trabalho.

O “retorno a Stálin”: o que há por detrás?

Enfim, a única maneira de ser um marxista tradicional hoje é ser um convicto stalinista, pois o destino de seus irmãos opositores é: ou caíram na inércia acadêmica mercantilizada pelo Deus Lattes, pois na prática procuram loucamente o antigo operariado fabril, um cadáver em estado de putrefação; ou já abandonaram o marxismo e são meros críticos do neoliberalismo, atravessando os defensores do “comum” até as viúvas do desenvolvimentismo nacional. Esse “retorno” não tem o objetivo de extrair a ciência da ideologia em Stálin, mas é só mesmo pura ideologia em face da crise da sociedade do trabalho. “Viva a classe operária, viva o fetiche, viva o cadáver do trabalho”, esse é o slogan do que resta do marxismo tradicional.

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