Revolta da Chibata: O Mestre-Sala dos Mares é o Almirante Negro

Os soldados da Marinha Brasileira organizaram uma manifestação/protesto/paralisação que eclodiu entre os dias 22 e 26 de novembro de 1910, contra os castigos físicos realizados com a chibata contra os soldados, massivamente, negros.

O estopim da manifestação aconteceu porque o soldado Marcelino Rodrigues Menezes foi punido com 250 chibatas sem direito a tratamento médico. O levante foi liderado por João Candido (1880-1969), o Almirante Negro, que, em conjunto com mais de um mil marinheiros, ocuparam os navios da esquadra na baía de Guanabara e exigiram o fim dos castigos físicos; caso contrário, a capital brasileira seria bombardeada.

A manifestação organizada evidencia a luta contra o racismo institucional presente da Marinha de Guerra Brasileira, já que os negros eram discriminados e inferiorizados, a ponto de serem punidos com castigos de chibata, como acontecia no tempo da escravidão. Se o Estado fazia isso com negros que estavam defendendo a bandeira brasileira, não é difícil imaginar a situação dos demais negros, ainda mais invisibilizados.

Este fato histórico foi cantado em prosa e verso na música O Mestre-Sala dos Mares, de João Bosco e Aldir Blanc, em 1970. Por causa da ditadura civil-militar da época (1964-1985), alguns excertos foram censurados e substituídos, como a troca das referências “Almirante Negro”, por “Navegante Negro”; “bravo marinheiro” por “bravo feiticeiro”, e “das costas dos negros” para “das costas dos santos”.

Desconstituir as censuras da ditadura militar também passa pelo processo de conhecer na versão original da canção O Mestre-Sala dos Mares, conforme apresentada por Luciana Worms, num canal do youtube em que ela ensina história a partir da música popular brasileira:

Há muito tempo nas águas da Guanabara
O dragão do mar reapareceu
Na figura de um bravo marinheiro
A quem a história não esqueceu

Conhecido como Almirante Negro
Tinha a dignidade de um mestre-sala
e ao conduzir pelo mar
o seu bloco de fragatas

Foi saudado no porto
Pelas mocinhas francesas
Jovens polacas
E por batalhões de mulatas

Rubras cascatas jorravam das costas dos negros
pelas pontas das chibatas
Inundando o coração de toda tripulação
Que a exemplo do marinheiro gritava: não!

Glória aos piratas, às mulatas, às sereias
Glória à farofa, à cachaça, às baleias
Glória a todas as lutas inglórias
Que através da nossa história

Não esquecemos jamais…
Salve o Almirante Negro
Que tem por monumento
As pedras pisadas do cais

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva não deixou essa memória se apagar, e confrontando as estruturas da Marinha, que ainda se ressentem com a Revolta da Chibata, já que foi um ato contra a Marinha Brasileira, que legitimava os castigos físicos, nomeou, em 2010, um navio petroleiro de João Cândido, em homenagem ao Almirante Negro.

A série de navios fabricados com a do João Cândido foram intitulados com nomes de personalidades negras que se destacaram no Brasil pela luta em favor da cidadania e cultura brasileira como Abdias Nascimento, André Rebouças, Ataulfo Alves, José do Patrocínio, Machado de Assis, Milton Santos e Zumbi dos Palmares, conforme as informações da frota Transpetro.

Cerimônia de Lançamento de Batismo do 1º Navio do Promef, batizado de “João Cândido” – 07/05/2010.

A Lei n. 10.639/2003 estabeleceu o ensino da história e da cultura afro-brasileira nas escolas, de modo que a música do Almirante Negro precisa ser estudada na versão original, e não na versão modificada para burlar a censura. Primeiro, pelo fato de, na versão modificada, o Almirante estar identificado como feiticeiro, ou seja, cuja carga semântica tem alta carga social negativa; a seguir, porque ao narrar que o sangue que jorrava era das costas de santos, e não de negros, contribui com a omissão do racismo institucional e negacionismo da desigualdade racial; e, por fim, na troca de Almirante Negro por Navegante, para afastar o vínculo institucional com a marinha, e por conseguinte, sua legitimidade no posicionamento contra as forças militares.

A versão original da música mostra como os negros eram tratados no Brasil, que prejudicava sua imagem como um exemplo de democracia racial, de modo que combater essa falácia é fundamental, uma vez que a ditadura civil-militar foi um período de horrores, em que os Movimentos Negros organizados e toda forma de organização política e social contra o governo foram brutalmente reprimidos.

O Estado foi eficaz em impor a figura do inimigo ao censurar a canção O Mestre Sala dos Mares, em 1970, e isso se perpetua até os dias de hoje. Por enquanto, as músicas não estão sendo censuradas, mas ainda é normal e natural ver os negros sendo arbitrariamente agredidos por policiais, com a justificativa de que estão garantindo a segurança pública. Assim, o racismo muda suas formas de dominação, mas mantém a violência e a opressão contra a população negra.

Não é surpresa e nem anormal que o Vice-Presidente da República do Brasil e ex-militar, Hamilton Mourão, tenha afirmado que “não existe racismo no Brasil”. Para fatos como este, seguimos na luta por mais posicionamentos contra injustiça como a do Almirante Negro. Salve João Candido, Lélia Gonzalez e todos aqueles brancos e negros na luta antirracista.

Por: Waleska Miguel Batista.
Doutoranda em Direito Político e Econômico pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, Mestra em Sustentabilidade e Graduada em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas. Integrante do Grupo de Pesquisa Estado e Direito no pensamento social brasileiro, vinculado ao Mackenzie. Advogada.

O estopim da manifestação aconteceu porque o soldado Marcelino Rodrigues Menezes foi punido com 250 chibatas sem direito a tratamento médico. O levante foi liderado por João Candido (1880-1969), o Almirante Negro, que, em conjunto com mais de um mil marinheiros, ocuparam os navios da esquadra na baía de Guanabara e exigiram o fim dos castigos físicos; caso contrário, a capital brasileira seria bombardeada.

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