Sertanejo: falsa representação da vida rural

O sertanejo de verdade está morto. O que sobrou em seu lugar foi uma música urbana, comercial e pouco brasileira. A descaracterização do gênero, que chegou ao ápice na última década, começou já ao final dos anos 1960.

A partir de 1964, primeiro ano de ditadura militar, foram introduzidos na legislação brasileira diversos mecanismos de incentivo às exportações. O novo governo considerava central estabelecer um plano oficial de expansão da venda de commodities ao estrangeiro. Este plano instigou, por essa razão, um crescimento intensivo da produção agrícola no nosso país, que culminou no surgimento de novas camadas de classe média de alto poder aquisitivo nas cidades do interior.

Endinheirada, essa nova classe passou a sofrer com a angústia de possuir grana, mas não poder sentar à mesa com os ricos. Desesperadamente, portanto, embarcou num processo intenso de tentativa de reprodução da vida nos grandes centros.

Tal tentativa se manifestou, a princípio, em duas ações: a primeira delas, inclusão por consumo (comprar motos, carros, lanchas, barcos, jetski, casas com piscina); a segunda, liberação dos costumes (relativizar as convicções conservadoras – usando drogas e fazendo sexo sem compromisso, por exemplo.)

Dessa forma, nova classe acabou ficando presa no limbo maldito da existência, sendo “jeca” demais para os “primos da cidade”, mas muito “moderninha” para os caipiras de verdade.

Por óbvio, o rearranjo dos padrões de vida de setores tão centrais do campo afetou profundamente a cultura rural. A música sertaneja estabelecida até então, hoje chamada de “sertanejo de raiz”, passou a não satisfazer os anseios do novo padrão que se tentava criar. Duplas como Tonico & Tinoco, Tião Carrero & Pardinho, Pedro Bento & Zé da Estrada, Liu & Leo, Zilo & Zalo, que forjavam a narrativa de suas canções no cotidiano dos heroicos trabalhadores caipiras e pobres, não serviam mais. Não eram “modernos” e a vida real caipira era, naquele momento, mais motivo de vergonha que de orgulho pra nova classe.

Assim, os clássicos foram perdendo espaço para os novos artistas urbanos, que se travestiriam de rurais – alguns até importados da Jovem Guarda (como Sérgio Reis, nascido no bairro de Santana, na grande São Paulo) que enxergaram ali uma oportunidade comercial.

Contudo, foi na consolidação da country music que o movimento encontrou guarida. O country ganhava o mundo, era MADE IN USA e chiquetoso. A cultura “sertaneja” americana servia perfeitamente para ser aproveitada comercial e ideologicamente por aqui.

Assimilamos desde teclados, guitarras, baixos e baterias até pirotecnia e vestuário. Criamos os rodeios, passamos a usar fivela, bota de bico fino, texana, colete, chapéu de cowboy etc. – é nesse momento que surgem Chitãozinho & Xororó, Zezé di Camargo & Luciano e tantos outros -. No entanto, a grande verdade é que tudo isso poderia ser compreendido se não tivéssemos padecido do pior mal: reaproveitamos pouco da nossa verdade cultural na nova estética.

Esse rearranjo significou, então, a morte do caipira e a consolidação do cowboy; o enfraquecimento da genuína cultura brasileira e a imposição da americana.

A partir daí, numa fantasia mal feita do seu equivalente no primeiro mundo, a nova classe média rural passou a ter o enquadramento perfeito para se integrar as rodinhas sociais da classe média urbana brasileira.

Nas palavras do crítico e historiador José Ramos Tinhorão “sentir-se caipira norte-americano vinha, enfim, resolver o doloroso trauma dos novos ricos interioranos de não quererem reconhecer-se caipiras brasileiros” e completa “e isso enquanto o caipira verdadeiro, transformado nacionalmente em boia-fria, continua de pé no chão.”

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